quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Formas de atitude egocêntrica

Dietrich von Hildebrand (1889-1977)


"Existem diversas formas de atitude egocêntrica. Há pessoas que, por exemplo, se sentem permanentemente ameaçadas ou constrangidas em seus 'direitos'. Andam em contínuo sobressalto, preocupadas se são tratadas com respeito ou se estão sendo ajudadas naquilo a que aspiram, não raro de maneira incongruente quanto às situações concretas de suas vidas pletóricas de vontadezinhas por satisfazer. (...) Assim, perdem a serenidade necessária à apreciação criteriosa da realidade, encerram-se num dédalo de sofismas amargurantes e, com isto, estão sempre prestes a cometer injustiças em seus juízos relativos ao proceder alheio, induzidas pela valoração hipertrofiada dos seus presumíveis direitos. Acabam por se perder nas malhas agônicas da auto-exaltação, da indulgência culpável para com os vícios mentais a que sucumbem com freqüência". 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Boas disposições de uma alma católica


Preparações Divinas



Por Dom Columba Marmion, O.S.B.


É verdade que Jesus Cristo já vive em nós pela graça santificante que nos faz nascer filhos de Deus; mas a Igreja quer que esta graça se renove e que vivamos uma vida nova, mais livre do pecado, que sejamos menos imperfeitos, mais desprendidos de nós mesmos e das criaturas: (…) [pois,] se é verdade que Ele nasceu, viveu e morreu por nós (…) também é verdade que a aplicação dos Seus merecimentos e a dispensação das Suas graças se realiza na alma na medida dessas disposições.

Quais são essas disposições? Podem resumir-se em quatro.

1. PUREZA de coração. Vejamos: quem estava mais bem preparado para a vinda do Verbo Incarnado à terra? Era, sem dúvida, a Virgem Maria. No momento em que o Verbo veio ao mundo, achou o coração desta Virgem perfeitamente preparado e capaz de receber as liberalidades divinas de que a queria cumular.

O seio de Deus, de brilho imaculado, é a morada natural do Filho único de Deus; o Verbo está sempre in sinu Patris; mas, incarnando, quis também, por inefável condescendência, ser in sinu Virginis Matris; era mister que o tabernáculo que lhe oferecia a Virgem Lhe lembrasse, por sua pureza incomparável, o seio eterno onde, como Deus, vive sempre: Christus sinus erat in Deo Patre divinitas, in Maria Matre virginitas¹.

2. A primeira disposição que atrai Jesus Cristo é uma grande pureza. Nós, porém, pecadores que somos, não podemos oferecer ao Verbo, a Jesus, essa pureza imaculada que Ele tanto ama. O que poderá substituí-la em nós? A HUMILDADE.

Se não temos a pureza da Virgem Maria, peçamos ao menos ao menos a humildade da Madalena, o amor da contrição e da penitência.

3. Todavia, a consideração das nossas enfermidades não nos deve desanimar; pelo contrário. Quanto mais sentirmos a nossa fraqueza, tanto mais devemos abrir nossa alma à CONFIANÇA, porque a salvação vem unicamente de Jesus Cristo.

O Verbo desposou a nossa natureza; tomou sobre Si as nossas enfermidades para experimentar o que é o sofrimento; vem a nós para que tomemos parte na Sua vida divina; possui todas as graças que podemos esperar, e possui-as em plenitude para no-las conceder.

4. Esta confiança manifestar-se-á sobretudo em DESEJOS ARDENTES de ver Jesus Cristo em nós para reinar mais ainda: Adveniat regnum tuum! A Liturgia desenvolve em nós estes desejos. Ao mesmo tempo que põe diante de nós e nos faz reler as profecias, sobretudo as de Isaías, a Igreja leva aos nossos lábios as aspirações e anelos dos antigos justos.

Sabeis muito bem que Deus é senhor dos Seus dons; Ele é soberanamente livre e ninguém pode pedir-Lhe contas das Suas preferências; mas na aplicação ordinária de Sua Providência «Ele guia-se pelas súplicas dos humildes que Lhe expõem as suas necessidades»: Desiderium pauperum exaudivit Dominus².

Portanto, se queremos que (…) uma fonte de abundantes graças para a Igreja e para nós, procuremos purificar os nossos corações, tenhamos uma humildade cheia de confiança, e sobretudo dilatemos a nossa alma pela grandeza e veemência dos nossos desejos.



Fonte: Dom Columba Marmion, O. S. B. — “Jesus Cristo nos Seus Mistérios”, Mosteiro de Singeverga, Edições “Ora & Labora”, tradução de 1958 do original de 1919, páginas 127 a 133.

Retirado do blog: Nordeste Tridentino
Fotografia: Apenas para ilustração. Desconheço o nome do autor.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Por que Cristo nasceu em 25 de Dezembro e Por que Isso Importa



INTRODUÇÃO

A Igreja Católica, desde pelo menos o século II, afirmou que Cristo nasceu em 25 de dezembro. No entanto, é comumente alegado que o nosso Senhor Jesus Cristo não nasceu neste dia e que esta data foi importada do Paganismo.

Neste presente texto iremos demonstrar como Cristo nasceu em 25 Dezembro e refutar as principais acusações. Por uma questão de simplicidade, vamos colocar apenas as objeções mais usuais para a data e responder cada uma delas.



COMO DESCOBRIR A DATA DO ANIVERSÁRIO DE CRISTO?

Agora vamos estabelecer o aniversário de Cristo a partir da Escritura Sagrada em duas etapas. O primeiro passo é usar a Escritura para determinar o aniversário de São João Batista. O segundo passo é usar o aniversário João Batista como a chave para encontrar o aniversário de Cristo.

Podemos descobrir que Cristo nasceu no final de Dezembro, observando primeiro a época do ano em que Lucas descreve Zacarias no templo. Isso nos fornece a data da concepção aproximada de João Batista. A partir daí podemos seguir a cronologia que São Lucas dá, e que nos leva ao final de Dezembro.

Lucas relata que Zacarias servia na “classe de Abdias" (Lc 1, 5), que os registros bíblicos mencionam como a oitava classe entre as vinte e quatro classes sacerdotais (Ne 12, 17). Cada classe de sacerdotes servia uma semana no templo duas vezes por ano. A classe de Abdias servia durante a oitava semana e a trigésima segunda semana no ciclo anual. No entanto, quando é que o ciclo de classes começa?

Josef Heinrich Friedlieb convincentemente estabeleceu que a primeira classe sacerdotal de Joiaribe estava de plantão durante a destruição de Jerusalém no nono dia do mês judaico de Av.[1] Assim, a classe sacerdotal de Joiaribe estava de plantão durante a segunda semana de Av. Consequentemente, a classe sacerdotal de Abdias (A classe de Zacarias) estava, sem dúvida, servindo durante a segunda semana do mês judaico de Tishrei – a própria semana do Dia da Expiação, no décimo dia de Tishri. Em nosso calendário, o Dia da Expiação cai em qualquer dia entre 22 de Setembro e 8 de outubro.

Zacarias e Isabel conceberam João Batista imediatamente após Zacarias servir na sua classe. Isto implica que São João Batista teria sido concebido por volta do final de setembro, colocando assim o nascimento de João no final de junho do ano posterior, o que confirma a celebração da Natividade de São João Batista em 24 de junho. Quando o anjo Gabriel anunciou a Maria em Lucas 1, 36, disse que Isabel já estava no sexto mês de gravidez, logo se João Batista foi concebido em setembro, seis meses depois estariam em Março, logo Maria ficou grávida de Jesus em Março, em uma gravidez normal, Março é mês 3, mais 9 meses de gravidez, vamos cair irremediavelmente em Dezembro.

O protoevangelho de Tiago do segundo século também confirma a concepção de João Batista no final de setembro uma vez que a obra descreve Zacarias como Sumo Sacerdote e entrando no Santo dos Santos, não apenas no lugar santo do altar do incenso. Este é um erro fatual porque Zacarias não era o sumo sacerdote, mas um dos principais sacerdotes. Ainda assim, o protoevangelho refere se a Zacarias como um sumo sacerdote, e este o associa com o Dia da Expiação, que desembarca no décimo dia do mês hebreu de Tishrei (aproximadamente o final do nosso setembro). Imediatamente após esta entrada ao templo e a mensagem do Arcanjo Gabriel, Zacarias e Isabel conceberam João Batista. Tendo quarenta semanas (nove meses) de gestação, isso coloca o nascimento de João Batista no final de junho e, mais uma vez confirmando a data Católica para o Nascimento de João Batista em 24 de junho.

O resto da datação é bastante simples. Vamos recapitular: Lemos que, logo após a Imaculada Virgem Maria conceber Cristo, ela foi visitar sua prima Isabel que estava grávida de seis meses de João Batista. Isso significa que João Batista era seis meses mais velho que o nosso Senhor Jesus Cristo (Lc 1, 24-27, 36). Se você adicionar seis meses a 24 de junho, quando João nasceu, você tem 24-25 Dezembro como o nascimento de Cristo. Então, se você subtrair nove meses a partir de 25 de Dezembro que você tem a Anunciação em 25 de Março. Todas as datas coincidem perfeitamente. Assim, pois, se João Batista foi concebido logo após o Dia judaico da Expiação, em seguida, as datas católicas tradicionais são essencialmente corretas. O nascimento de Cristo seria por volta ou em 25 de dezembro.

Além disso, os testemunhos dos antigos revelam que os Padres da Igreja alegavam 25 de Dezembro como o aniversário de Cristo antes da conversão de Constantino e do Império Romano. O registro mais antigo desta situação é que o Papa São Telesforo (reinou 126- 137 d.C) que instituiu a tradição da Missa do Galo na véspera de Natal. Embora o Liber Pontificalis não nos dá a data do Natal, ele assume que o Papa já estava comemorando o Natal e que uma missa à meia-noite era realizada. Durante este tempo, também lemos as seguintes palavras de Teófilo (115-181 d.C), bispo católico de Cesaréia na Palestina:

“Devemos comemorar o aniversário de Nosso Senhor, a cada 25 de dezembro isso deve acontecer.” (Magdeburgenses, Cent. 2. c. 6. Hospinian, De origine Festorum Chirstianorum.)

Pouco tempo depois, no século II, Santo Hipólito (170-240 AD) escreveu em uma passagem, que o nascimento de Cristo ocorreu em 25 de dezembro:

“O Primeiro Advento de nosso Senhor na carne ocorreu quando Ele nasceu em Belém, era 25 de dezembro, uma quarta-feira, enquanto Augustus estava em seu quadragésimo segundo ano, que é de cinco mil e quinhentos anos desde Adão. Ele morreu no trigésimo terceiro ano, 25 de março, sexta-feira, no décimo oitavo ano de Tibério César, enquanto Rufus e Roubellion eram cônsules.” (Comentário sobre Daniel 4, 23) [2]

Observe também, na citação acima, o significado especial de 25 de Março, que marca a morte de Cristo (25 de março correspondia ao mês hebraico de Nisan 14 - a data tradicional da crucificação)  Cristo, como o homem perfeito, acreditava-se ter sido concebido e morrido no mesmo dia de 25 de março  em seu Chronicon, Santo Hipólito afirma que a Terra foi criada em 25 de março de 5500 a.C. Assim, 25 de março foi identificado pelos Padres da Igreja, como a data de criação do universo, como a data da Anunciação e Encarnação de Cristo, e também como a data da morte de Cristo, nosso Salvador.

Na Igreja síria, 25 de março ou a Festa da Anunciação era vista como uma das festas mais importantes de todo o ano. É indicado o dia em que Deus assumiu a sua residência no seio da Virgem. Na verdade, se a Anunciação e Sexta-Feira Santa entram em conflito no calendário, a Anunciação superou isso, tão importante foi o dia na tradição síria. Desnecessário será dizer que a Igreja síria preservou algumas das mais antigas tradições cristãs e tinha uma devoção doce e profunda a Maria e a Encarnação de Cristo.

25 de março foi consagrado na tradição cristã primitiva, e a partir desta data, é fácil discernir a data do nascimento de Cristo. 25 de Março (Cristo concebido pelo Espírito Santo), mais nove meses nos leva a 25 de dezembro (o nascimento de Cristo em Belém).

Santo Agostinho confirma esta tradição de 25 março como a concepção messiânica e 25 de dezembro como o Seu nascimento:

“É crido que ele foi concebido no dia 25 de março, dia em que também ele sofreu; de modo que o seio da Virgem, no qual ele foi concebido, onde ninguém dos mortais foi gerado, corresponde à nova sepultura na qual ele foi enterrado, na qual ninguém havia sido posto (Jo 19,41), nem antes nem depois dele. Mas ele nasceu, segundo a tradição, em 25 de dezembro.” (Sobre a Trindade Livro 4,  Capítulo 5)

Por volta do ano 400 d.C, Santo Agostinho também observou como os donatistas cismáticos comemoravam 25 de dezembro como o nascimento de Cristo, mas que os cismáticos se recusavam a celebrar a Epifania em 6 de janeiro, uma vez que eles consideravam Epifania como uma nova festa sem uma base na Tradição Apostólica. O cisma donatista originou-se em 311 d.C o que indica que a Igreja Latina celebrava o Natal em 25 de dezembro. Qualquer que seja o caso, a celebração litúrgica do nascimento de Cristo foi comemorada em Roma em 25 de dezembro muito antes de o cristianismo se tornar legalizado e muito antes de qualquer registro mais antigo de uma festa pagã para o aniversário do Sol Invicto. Por estas razões, é razoável e com razão, que Cristo nasceu em 25 de dezembro no ano 1 a.C e que ele morreu e ressuscitou em Março do ano 33 d.C.



REFUTANDO OBJEÇÕES

Objeção I:

25 de dezembro foi escolhido para substituir o festival pagão romano de Saturnália. Saturnália era uma festa popular do inverno e assim a Igreja Católica prudentemente substituiu o Natal em seu lugar.



Reposta a Objeção I:

Na Saturnalia comemorava-se o solstício de inverno. No entanto, o solstício de inverno cai em 22 de dezembro. É verdade que as celebrações da Saturnalia começavam mais cedo por volta de 17 de dezembro e era prorrogado até 23 de dezembro. Ainda assim, as datas não coincidem.



Objeção II:

25 de dezembro foi escolhido para substituir o feriado pagão romano Natalis Solis Invicti que significa “Aniversário do Sol Invícto.”



Resposta à Objeção II:

Vamos examinar primeiro o culto do Sol Invicto. O imperador Aureliano introduziu o culto do Sol Invictus ou Sol Invicto a Roma em 274 d.C. Aureliano encontrou tração política com esse culto, porque o seu próprio nome de Aureliano deriva da palavra latina aurora denotando “nascer do sol”. Moedas revelam que chamava a si mesmo imperador Aureliano o Pontifex Solis ou Pontífice do Sol. Assim, Aureliano simplesmente acomodou um culto solar genérico e identificou o seu nome com ele no final do terceiro século depois de Cristo.

Mais importante ainda, não há nenhum registro histórico para uma celebração do Natalis Sol Invictus em 25 de dezembro antes de 354 depois de Cristo. Dentro de um manuscrito iluminado do ano de 354 d.C, há uma entrada de 25 de dezembro de leitura "N INVICTI CM XXX." Aqui N significa “natividade”. Invicti significa “do Invicto”. CM significa “circenses missus” ou “jogos ordenados.” o XXX numeral romano é igual a trinta. Assim, a inscrição significa que trinta jogos foram encomendados para a natividade do Invicto para 25 de dezembro. Note-se que a palavra “sol” não está presente. Além disso, o mesmo codex também lista “Christus natus in Betleem Iudeae” no dia de 25 de dezembro. A frase é traduzida como “nascimento de Cristo em Belém da Judéia.”[3]

A data de 25 de dezembro só se tornou o “Aniversário do Sol Invicto” sob o imperador Juliano o Apóstata. Juliano, o Apóstata que tinha sido um cristão, mas que havia apostatado e retornou ao paganismo romano. A história revela que ele foi um ex-imperador cristão odioso que erigiu um feriado pagão em 25 de dezembro. Pense nisso por um momento. O que ele estava tentando substituir? Estes fatos históricos revelam que o Sol Invicto não era provavelmente uma divindade popular no Império Romano. O povo romano não precisava ser tirado de um chamado “feriado antigo”. Além disso, a tradição de uma celebração em 25 de dezembro não encontra lugar no calendário romano até depois da cristianização de Roma. O feriado do “Aniversário do Sol Invicto” era pouco tradicional e dificilmente popular. Saturnalia (mencionado acima) foi muito mais popular, tradicional e divertido. Parece, antes, que Juliano, o Apóstata tinha tentado introduzir um feriado pagão, a fim de substituir o cristão! Ou seja, ao invés do cristianismo tentar copiar uma festa pagã, foram os pagãos que tentaram substituir uma festa Cristã.



Objeção 3:

Cristo não poderia ter nascido em dezembro já que Lucas descreve pastores com seus rebanhos nas áreas vizinhas de Belém. Pastores não arrebanham durante o inverno. Assim, Cristo não nasceu no inverno.



Resposta à objeção III:

Quem faz esta objeção acha que a palestina tem um inverno tal qual a Europa. Vale lembrar que a Palestina não é a Inglaterra, Rússia, ou Alasca. Belém está situada na latitude de 31.7. Dallas, no Texas tem latitude de 32,8, e ainda é bastante confortável do lado de fora em Dezembro. Como o grande Cornelio em uma Lapide observa durante sua vida, ainda se podia ver pastores e ovelhas nos campos da Itália durante o final de dezembro, e a Itália tem maior latitude que Belém.

Podemos ver no site do accuweather, um dos mais respeitados sites de meteorologia do mundo, que a temperatura média de Jerusalém no mês de Dezembro varia entre 10 e 20 ºC em todo o mês de Dezembro. Claro que estamos falando de 2015 anos de diferença, porém por projeção e sabendo que não houve uma drástica mudança climática em Jerusalém neste tempo, podemos afirmar que esta era a temperatura média que Maria e José enfrentavam quando Jesus nasceu. Em outros locais com temperatura menor que esta, várias atividades são feitas normalmente, nada impediria pastores estarem com seus rebanhos no campo, mesmo levando em conta a temperatura mínima e mesmo que houvesse neve.

Ovelhas durante a neve no campo

A Bíblia confirma plenamente a capacidade de pastores estarem nos campos, vigiando seus rebanhos em dezembro. Refere-se especificamente que Jacó vigiava rebanhos de Labão pela geada do inverno à noite (Gn 31, 40). As fotos abaixo foram tiradas em Belém no Natal de 1890 e 2006. Como pode ser visto, o clima é perfeitamente adequado para estar do lado de fora. Por isso, não há simplesmente nenhuma base para essa objeção.

Natal em Belém em 1890


Natal em Belém em 2006




NOTAS

[1] Josef Heinrich Friedlieb’s Leben J. Christi des Erlösers. Münster, 1887, p. 312.

[2] O  “25 de Dezembro” não se encontra na NFPF tradução do protestante Philip Schaff, sobre isso ler aqui: http://www.roger-pearse.com/weblog/2010/01/12/the-text-tradition-of-hippolytus-commentary-on-daniel/

[3] The Chronography of AD 354. Part 12: Commemorations of the Martyrs. MGH Chronica Minora I (1892), pp. 71-2.



domingo, 25 de dezembro de 2016

Nascimento do Menino Jesus: momento sublimíssimo

Giotto di Bondone entre 1302 e 1306,
Capela degli Scrovegni, Pádua (Itália)

O afresco representa o Nascimento do Menino Jesus e é de autoria do célebre pintor italiano Giotto. 

São José está dormindo, as ovelhinhas estão por perto, o burrico também, e os Anjos enchem o céu, cantando a Glória de Deus.

Os pastores estão ouvindo o cântico celeste: “Glória a Deus no mais alto dos Céus, e paz na Terra aos homens de boa vontade”. 

É exatamente o que a Liturgia, na noite do dia 24 para 25, deve celebrar. 

É noite, e Nossa Senhora acaba de dar à luz o Menino Jesus, de modo misterioso e maravilhoso.

O gesto d'Ela, a sua atitude, são apresentados como os de uma pessoa inteiramente sadia, que se empenha em aconchegar o Menino Deus. Mas Ela o faz com um desembaraço físico de movimentos, que não é o da mãe comum após o parto. 

O processo de nascimento é dolorido e difícil, em virtude do pecado original. Contudo, tendo Nossa Senhora sido virgem antes, durante e depois do parto, esse nascimento se deu de modo milagroso. 

Não representou nenhum esforço para a Virgem Santíssima. Ela parece ter acordado de um sono brando. 


É uma cena lindíssima, que empolga. Pode-se imaginar a situação de Nossa Senhora ao ver — pela primeira vez com seus olhos terrenos, seus olhos carnais — o fruto do Divino Espírito Santo concebido em suas próprias entranhas. E que fisionomia apresenta o Homem-Deus que acaba de nascer d'Ela! 

O Menino Jesus aparenta a atitude de uma criança recém-nascida. É preciso notar que — como Nosso Senhor foi concebido sem pecado original e sua natureza humana estava ligada à natureza divina, mediante a união hipostática, com a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade — sua inteligência era plena desde o primeiro instante em que Nossa Senhora O concebeu. 

E já no claustro materno Ele rezava, oferecia reparações a Deus, O adorava e implorava pelos homens. Ele começou a sua vida inteiramente consciente.

De maneira que essa Criança teve comunicações com Nossa Senhora, de caráter místico, durante o período da gestação. 

Ela sabia que o olhar daquele Menino era lúcido e cheio de amor. Os dois estavam se conhecendo. Ele analisava o rosto de sua Mãe e Ela estava fixando a fisionomia de Seu Divino Filho. É um momento sublimíssimo da vida de ambos. 

Podemos imaginar o auge de amor de Deus que Ela atingiu nesse momento. E o Divino Infante, desde logo, que olhar de amor dirigiu à Sua Mãe Santíssima! 



Fonte: As Cruzadas

sábado, 24 de dezembro de 2016

Convocação da II Cruzada

Em memória aos cristãos que foram massacrados pelos muçulmanos há 870 anos. Aos valentes católicos que guardaram a fé. Aos cruzados que deram a vida para salvar os cristãos de Edessa. Descansem em paz!


Beato Eugênio III Papa,
convocou a II Cruzada

Em 1146, o principado de Edessa, dominado pelos cruzados, caiu em mãos dos muçulmanos ressurgentes. Assim, o Bem-Aventurado Papa Eugênio III apelou a uma nova cruzada - a segunda. Foi entusiasticamente apoiado nesta convocação por seu mentor, São Bernardo de Claraval.

O Bem-aventurado Pontífice redigiu para esse efeito a Bula “Quantum predecessores”, de 1º de dezembro de 1154, que diz:

O Bispo Eugênio, servo dos servos de Deus, a Luis, seu filho mais amado em Cristo, ilustre rei dos franceses; aos príncipes, seus filhos bem amados, e a todos os fiéis de Deus estabelecidos por toda a Gália, saudação e bênção apostólica.
Sabemos pelas narrações dos antigos e por seus escritos quanto os romanos pontífices, Nossos antecessores, fizeram pela libertação da Igreja no Oriente. Nosso predecessor de venerada memória, o Papa Urbano, soou como que uma trombeta celeste a fim de levantar, para a sua libertação, os filhos da Santa Igreja Romana em todos os cantos da terra.
É verdade que à sua voz os ultramontanos, e especialmente os mais bravos e fortes guerreiros do reino francês, bem como os da Itália, inflamados com ardente amor, uniram-se num mui grande exército e, não sem grande derramamento do seu próprio sangue, com divino auxílio libertaram da sujeira dos pagãos a cidade em que nosso Salvador quis sofrer por nós e onde nos deixou seu glorioso sepulcro como memorial de sua Paixão, além de muitos outros que, por amor à brevidade, abstemo-nos de mencionar.
Essas cidades, pela graça de Deus, e do zelo de vossos pais, que de tempos em tempos têm se esforçado na medida do possível para defendê-las e divulgar o nome de Cristo naquelas partes, foram mantidas pelos cristãos até hoje; e eles tem corajosamente invadido outras cidades dos infiéis. Agora, porém, por causa de nossos pecados e os do povo ‒ coisa que não podemos anunciar sem grande dor e pranto ‒ a cidade de Edessa, em nossa língua chamada Rohais foi tomada e muitos de seus castelos ocupados pelos pagãos. 


Cristo gladífero à testa dos cruzados

Logo Edessa, que no tempo em que todo o Oriente era dominado por pagãos, servia sozinha a Deus sob o poder dos cristãos. Por outro lado, o arcebispo dessa cidade, juntamente com seu clero e muitos outros cristãos foram mortos e as relíquias dos santos entregues ao pisoteio dos infiéis e dispersas.
Cientes estamos todos de quão grande é o perigo que ora ameaça a Igreja de Deus e toda a Cristandade. Pois é sabido que a maior prova de nobreza e probidade é que as coisas adquiridas pela bravura dos pais sejam corajosamente defendidas pelos filhos – os senhores. Mas, que Deus nos livre, se tal não ocorrer, a valentia dos pais terá diminuído em seus filhos.
Exortamos-vos a todos em Deus, portanto, e vos pedimos e comandamos, e para a remissão dos pecados recomendamos, que os que são de Deus, e, sobretudo os mais nobres cinjam-se de coragem e se esforcem de modo a opor-se à multidão dos infiéis que ora se alegra com a vitória sobre nós obtida.
E que, assim fazendo, defendam a Igreja oriental, liberta de sua tirania por tão grande derramamento do sangue de seus antepassados, como já dissemos, a fim de arrebatar milhares de vossos irmãos cativos de suas mãos e promover a dignidade do nome cristão e fazer vossa valentia elogiada por todo o mundo, permanecendo intacta e inabalável.
Sirva o bom Matias de exemplo para vós, ele que, para preservar as leis de seus pais, sem a menor hesitação expôs-se à morte com seus filhos e parentes, deixando tudo que no mundo possuía.
E que, com a ajuda divina, depois de muitos trabalhos e de longo tempo, corajosamente obteve, bem como os seus descendentes, um varonil triunfo sobre seus inimigos.
Mais ainda, com paternal solicitude paternal para a tranqüilidade dos combatentes e para o restabelecimento da mesma igreja do Oriente, concedemos e confirmamos pela autoridade a Nós por Deus concedida, aos que instados pela graça se decidam a realizar obra tão santa e necessária, a remissão dos pecados conforme instituiu Nosso predecessor, o Papa Urbano.
E decretamos que suas esposas e filhos, bem como suas posses e bens permaneçam sob Nossa proteção e a dos arcebispos, bispos e outros prelados da Igreja de Deus. 

São Bernardo foi grande pregador da Cruzada convocada pelo santo Papa

Outrossim, por Nossa autoridade apostólica proibimos que qualquer bem sobre o qual tivessem posse incontroversa ao tomarem a cruz, seja isento de qualquer processo até que se tenha notícias certas sobre seu retorno ou sua morte.
Além disso, tendo em vista que os que guerreiam pelo Senhor não devem de modo algum preparar-se com vestes preciosas nem preocupar-se com sua aparência pessoal, nem com cães e falcões, ou outras coisas que possam pressagiar licenciosidade, exortamos vossa prudência no Senhor para que os que decidirem realizar tão santa obra não busquem as coisas acima mas mostrem todo zelo e diligência com suas armas, cavalos e outras coisas com as quais possam combater os infiéis.
Os que, oprimidos por dívidas, de coração puro se lancem nessa santa jornada não devem pagar juros pelo tempo nela decorrido; e se eles ou outros em seu lugar forem obrigados por juramento ou promessa a pagar juros, de tal obrigação os absolvemos por Nossa autoridade apostólica.
É-lhes também permitido, quando as pessoas de suas relações, conhecendo sua situação, ou seus senhores, a quem são tributários, não lhes queiram avançar o dinheiro necessário, penhorar livremente, sem qualquer promessa de recuperação, suas terras ou outros bens a igrejas, pessoas eclesiásticas ou a qualquer dos fiéis.
Segundo instituiu Nosso citado predecessor, pela autoridade do Deus Todo-Poderoso e pela de São Pedro, chefe dos apóstolos, a nós por Deus outorgada, concedemos a remissão e o perdão dos pecados àquele que devotamente encete tão sagrada missão e a cumpra, ou morra durante a mesma.
Concedemos-lhe a absolvição de todos os pecados que confesse com coração humilde e contrito, recebendo assim o eterno prêmio do Remunerador de todos.
Passado em Vetralle, nas calendas de Dezembro.


Fonte: Doeberl, Monumenta Germania Selecta, Vol 4, p. 40, trans in Ernest F. Henderson, Select Historical Documents of the Middle Ages, (London: George Bell and Sons, 1910), pp. 333-336. Quantum praedecessores


Publicação retirada do blog As Cruzadas


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O cigarro é mau em si?




Prof. Carlos Ramalhete
Esta visão puritana, muito comum no meio protestante, é uma heresia de base gnóstica, muito comum no protestantismo.

Explico: a gnose, heresia surgida ainda no primeiro século, considera que a matéria é má em si, e que o objetivo do homem seria libertar-se da matéria para tornar-se puro espírito. Foi como resposta à Gnose que São João Evangelista escreveu por inspiração divina, logo no princípio de seu Evangelho, que “o Verbo se fez Carne”. Carne, logo matéria, matéria julgada intrinsecamente má pelos gnósticos. Para um gnóstico, esta frase é uma aberração, uma contradição. Para um gnóstico, se Deus é bom Ele não pode tornar-se matéria, que seria má.

O protestantismo tem uma grande parte de gnose. É por isso que a imensa maioria dos protestantes, por exemplo, recusa-se a admitir que a Santíssima Virgem Maria seja Mãe de Deus; apesar de considerarem que Jesus é Deus e ela é mãe de Jesus, eles não conseguem aceitar a conseqüência lógica disto (o fato de que ela é Mãe de Deus), por puro terror à matéria. Do mesmo modo, os protestantes em geral têm enormes dificuldades em aceitar a ação eficaz dos Sacramentos, pois isto significaria que Deus faz uso de matéria para o bem. Ora, se a matéria fosse má, como eles crêem, realmente o uso de uma coisa má deveria contaminar a coisa boa…

É por isso que é comum no meio protestante o chamado puritanismo. O puritano considera que algumas coisas são más, são más intrinsecamente. As coisas que mais comumente são encontradas nas listas de “coisas ruins” dos protestantes puritano-gnósticos são o álcool, as drogas ilícitas em geral (maconha, cocaína, etc.) e o tabaco. Alguns, mais afinados com os tempos modernos, adicionam a esta lista as armas de fogo.

Este artigo, que trata especialmente do caso do tabaco, pode ser também aplicado às outras coisas que os protestantes consideram “más em si”.

O cigarro, portanto, não é bom nem mau; como qualquer outra criatura, ele em si é moralmente neutro, e bom ou mau (ou ainda neutro) pode ser o seu uso.

O sujeito que fuma (e cheira cocaína, bebe tresloucadamente e dirige como um maníaco) por puro desejo de auto-destruição está fazendo um mau uso do cigarro (e da cocaína, e do álcool e do carro).

O sujeito que fuma porque deu vontade de fumar e o cigarro está ali está fazendo um uso moralmente neutro do cigarro.

O sujeito que fuma para se acalmar e poder ajudar melhor outra pessoa está fazendo um uso moralmente bom do cigarro.

Fumar seria pecaminoso por fazer mal ao corpo?

Um dos problemas graves da união da visão atual de culto ao corpo (em que, contrariamente à Sã Doutrina, as pessoas consideram que o corpo é o que há de mais importante, a saúde é o maior bem, etc, passando horas em academias e fazendo dietas, sem ver problema algum na fornicação) e da visão gnóstico-protestante de “coisas que são más em si” é o que ocorre no caso do cigarro.

Já vi, por incrível que pareça, gente defendendo que fumar é pecaminoso, porque (pasmem!) o corpo é Templo do Espírito Santo! Ora, o corpo ser Templo do Espírito Santo significa que o corpo não pode ser usado (ou melhor, não devemos deixar livres rédeas ao corpo) para atividades que são pecaminosas (fornicação, por exemplo). Uma coisa fazer mal fisicamente ao corpo não significa em absoluto, nem jamais poderia significar, que o Templo do Espírito Santo esteja sendo conspurcado, ou qualquer bobagem do gênero. Se fosse assim, a mortificação física seria pecaminosa, e não virtuosa. É confundir causa e efeito, devido à união de uma visão que vê o corpo como o Sumo Bem e substâncias como intrinsecamente boas ou más. Junta-se um com o outro e tem-se isso: substâncias que são consideradas intrinsecamente más porque “pecam contra” (ou, em outras palavras, fazem mal a) o corpo, considerado o Sumo Bem

Afinal, o que é pecaminoso não deve entrar no (ou sair do) corpo; não é porque algo entra e faz bem ou mal ao corpo que esta coisa é virtuosa ou pecaminosa…

Mas é isso que acontece quando se junta Paulo Cintura e Edir Macedo!

A pessoa não fumar como penitência (assim como não beber algo que gosta de beber, não comer carne, não fazer, em suma qualquer outra coisa agradável e moralmente boa ou neutra) é uma boa forma de penitência; a pessoa não fumar, ou deixar de fumar, por preocupação com a saúde pode ser bom ou mau (dependendo de para quê ela quer a saúde; se é para “ganhar mais mulher”, é péssimo); a pessoa deixar de fumar por achar que fumar é pecado, porém, é um erro grave de compreensão da Sã Doutrina.

É sim pecaminoso querer destruir o corpo, ou seja, em ter como objetivo do ato a destruição do corpo (a morte). Mais ainda, isto ocorre não por ser o corpo Templo do Espírito Santo – o que é outra coisa, que não tem absolutamente nada a ver com a saúde física ou sequer a sobrevivência da pessoa; o roqueiro que tentou salvar a moça que estava sendo assaltada e tomou um tiro não pecou (pelo contrário, fez um ato nobre) ao arriscar a sua vida -, sim por ser uma violação do Quinto Mandamento.

Do mesmo modo como comer uma comida que não faz bem para a saúde (sei lá, batatas fritas com muita gordura) não é pecaminoso, a não ser que a pessoa a coma como forma de suicídio (ou seja: o sujeito sabe que a maionese estragou, mas come para ter uma infecção intestinal e morrer), não é pecaminoso fumar, a não ser que haja a intenção de se matar fumando.

Provavelmente seria pecaminoso se um antitabagista convicto fumasse, porque na sua visão a única função do cigarro é matar. Assim, ao botar um cigarro na boca, ele estaria conscientemente e deliberadamente tentando o suicídio (forma besta de suicídio, aliás, posto que ele não iria morrer, e depois de algum tempo até continuaria a fumar sem ser mais por vontade de morrer, o que faria com que não estivesse mais pecando).

O problema, portanto, não é fazer mal ao corpo, mas sim matar deliberadamente. A medicina não pode matar alguém para devolver-lhe (ou a outrem) a saúde; é o caso dos transplantes cardíacos, que só podem ser feitos se o coração é tirado de uma pessoa ainda viva, e por isso são proibidos pela Igreja.

Já fazer mal ao próprio corpo é algo moralmente neutro, a não ser que seja por uma boa causa (por exemplo, a mortificação física), quando se torna um ato virtuoso, ou por razões más (por exemplo, vasectomia ou uso de pílulas anticoncepcionais para evitar filhos), caso em que se torna moralmente errado.


Fumar seria pecaminoso por ser um vício?!

É muito habitual entre falantes de português a confusão entre a noção médico-psicológica de vício (ato habitual e não necessário para a sobrevivência cuja descontinuidade provoca desconforto) e a noção teológica de vício (hábito de fazer algo desordenado, que tende a crescer). Um vício (no sentido médico-psicológico) não é necessariamente pecaminoso, a não ser que induza ao pecado.

Devemos lembrar que o pecado é um ato desordenado, ou seja, que não tem como fim último Aquele que é o princípio primeiro de todas as coisas. Ora, vícios (mais uma vez, no sentido médico-psicológico), sejam de cigarros, morfina, cocaína, o que quer que seja, não têm necessariamente atuação desordenada.

Um exemplo mais claro disso pode ser, por exemplo, o de um soldado que injeta morfina para poder continuar a lutar em uma guerra justa. Neste caso, o uso da morfina é virtuoso. Seria deixar de lado o seu dever não fazer uso da morfina por medo de viciar-se. Se este soldado ficar viciado, ele não estará pecando em absoluto devido ao seu vício. Encerrada a guerra, se ele continuar viciado, se não for necessário cometer nenhum pecado (roubo, por exemplo) para continuar a obter sua morfina, ele não estará pecando se continuar a usá-la.

O mesmo ocorre com o cigarro; se o fumante começou a fumar para impressionar as menininhas, por exemplo, ele pecou. Se começou a fumar porque todos fumavam no ambiente em que estava, foi um ato moralmente neutro. Se começou a fumar porque, digamos, era a única maneira de manter-se acordado em seus turnos de sentinela como soldado, foi um ato virtuoso. Se para continuar fumando ele não tiver que cometer algum pecado, não haverá pecado algum em continuar fumando após o fim da necessidade.

Fumar é vício apenas no sentido médico-psicológico. Ora, vícios (neste sentido, não no teológico) não são necessariamente desordenados. Se é por aí, eu sou viciado em ler e em usar ar-condicionado no verão…

Outra diferença é no tipo de “crescimento” que ocorre no “vício” (no sentido médico-psicológico) e no vício (no sentido teológico). O uso da droga ou o comportamento compulsivo do viciado cresce quantitativamente por aumentar a sua tolerância (ou seja: para atingir o mesmo efeito ele precisa de dose quantitativamente maior). Já crescimento no vício (no sentido teológico) não é em quantidade, mas em intensidade, ou seja: a luxúria, se não é controlada, tende a ficar cada vez mais depravada. A pessoa que cede a este vício não se contenta mais com as relações conjugais habituais. Ela procura coisas cada vez mais estranhas, até acabar precisando de anões besuntados, bodes e carrinhos de mão para saciar sua luxúria.

Do mesmo modo, quem cede à gula não se contenta com feijão com arroz e batatas fritas. Ele pode comer só três vezes por dia, mas vai querer escargots amanteigados com folhinhas tenras de alface crespa da Polinésia Ocidental.

A analogia, que é fácil de fazer – e que por falta de uma precisão maior no que eu escrevi vc já fez – entre os hábitos causadores de dependência psicológica ou física e os vícios (no sentido teológico) é o que levou a língua portuguesa a chamar de “vício” estes hábitos. Este mal-entendido todo, por exemplo, não teria ocorrido se esta conversa fosse em inglês, pois nesta língua os vícios, no sentido teológico, chamam-se “vice”e os “vícios” no sentido médico-psicológico são chamados “addiction”. É por isso que a Polícia de Costumes (que trata de prostituição, jogatina, etc.), em inglês é chamada de “Vice Squad” (lembram-se do seriado “Miami Vice”? Nunca vi, mas o nome diz tudo). Eles não tratam de “addiction”, mas de “vice”.

É por isso que muitos fazem esta confusão, abrindo o Catecismo e lendo as passagens que tratam de vícios (que evidentemente, no Catecismo, são vícios no sentido teológico do termo) como se tratassem de hábitos causadores de dependência (ou seja, de “vícios” no sentido médico-psicológico, como o do cigarro, da cocaína, do álcool, etc.).

Os vícios de que trata o Catecismo são Soberba, Avareza, Luxúria, Ira, Gula, Inveja e Preguiça, não cigarro, cachaça, etc.

Fumar seria contrário à natureza, logo pecaminoso?

Muitos anti-tabagistas afirmam que fumar seria “contrário à natureza”, por não ser um impulso natural do homem tragar fumaça. Isto, segundo eles, faria do ato de fumar um pecado, posto que são considerados pecados os atos contrários à natureza (como a masturbação, a sodomia, etc.).

Há porém uma diferença básica e elementar entre estes dois sentidos da expressão “contrário à natureza”: a masturbação é um ato intrinsecamente desordenado, pois é (no sentido teológico) contrário à natureza. Assim, a pessoa que se masturba estará sempre pecando (a não ser que seja um doente mental que não percebe o que faz), pois estará cometendo um ato que é sempre desordenado. Fumar é um ato moralmente neutro, e pode ser pecaminoso, neutro ou virtuoso de acordo com a intenção. Não é, porém, um ato contrário à natureza, teologicamente falando.

Devemos ter cuidado com a expressão “contrário à natureza”. Em termos teológicos (ou seja, se usarmos a palavra “natureza” no sentido teológico, de natureza humana marcada pelo Pecado Original), nem fumar, nem beber até cair duro, nem cheirar cocaína, etc., contrariam a natureza. Já a masturbação contraria. Por outro lado, em termos médico-psicológicos, masturbação não contraria a natureza mas beber álcool contraria.

Não devemos confundir o termo em seu sentido teológico e em seu sentido médico-psicológico. Teologicamente falando, não há absolutamente nada de contrário à natureza nas drogas (qualquer droga, da aspirina ao cigarro, passando pelo álcool e pelo AZT), pois faz parte das capacidades naturais do homem modificar a natureza e usá-la para atingir seus objetivos. Em termos médico-psicológicos, nenhuma droga é natural (é por isso que dizem os médicos que uma cura causada por mecanismos psicológicos ou físicos próprios do indivíduo, sem drogas, é uma “cura natural”).

Assim, teologicamente falando, se alguém deseja ficar com o peito ardendo, os olhos cheios d’água e tossindo (por exemplo, para não fazer uma coisa errada que seria forçada a fazer caso estivesse em boa saúde), é perfeitamente natural ir cheirar o lixo sendo queimado; afinal, a pessoa estaria usando a sua capacidade natural de transformar a natureza e usá-la para o objetivo que deseja. Em termos médicos, isto não seria natural; o que seria considerado natural seria a pessoa, por exemplo, ter uma diarréia ou outro psicossomatismo.

Fumar seria um ato intrinsecamente desordenado, logo pecaminoso?!

Alguns antitabagistas consideram que fumar seria um ato desordenado, logo pecaminoso, porque o fumante não tem hora para fumar.

Devemos lembrar que desordenado (termo teológico, mais uma vez), não tem nada a ver com bagunçado. Tem a ver com o objetivo do ato, que deve levar a Deus, de Quem tudo vem. É por isso que, ainda que o adúltero cometa adultério sempre na mesma hora do mesmo dia, com as mesmas roupas, a mesma amante, no mesmo lugar e com os mesmos movimentos, o ato é desordenado. Não tem a ver com o sentido comum de “desordem”, sim com o sentido teológico.

“Vícios” no sentido médico-psicológico, não, ou ao menos não por serem chamados vícios. Hoje, por exemplo, já há médicos que consideram que a masturbação compulsiva pode ser chamada vício. Ela é vício no sentido teológico por ser masturbação, e no sentido médico-psicológico por ser compulsiva.

Deveríamos nos abster de fumar para evitar escandalizar os irmãos?

Outros afirmam que se o ato de fumar escandaliza aqueles que acham que isso é pecaminoso, devemos evitar fumar para não escandalizá-los.

Há porém uma diferença enorme em questão: não se trata de simplesmente algo que possa tornar-se motivo de escândalo (como o comer carnes oferecidas aos ídolos, que não fazem mal mas podem levar alguém a considerar que a pessoa está partilhando do sacrifício aos ídolos, e não só comendo carne), mas de uma heresia (o puritanismo protestante, de origem gnóstica) que está tentando forçar a sua entrada na Igreja. Não se trata de opinião; quem quiser fumar, fume, quem não quiser não fume. Se Fulano não quer que fumem na casa dele, é um direito. Eu também não quero que ouçam música eletrônica na minha casa, e uma pessoa que não gosta de flores tem todo o direito de proibir a entrada delas em sua casa.

O problema é quando a razão da atitude é herética. Fulano pode perfeitamente defender a sua proibição de fumar em sua casa com os argumentos da propriedade (a casa é dele, e dentro da casa dele faz-se o que ele aceita que seja feito, desde que não seja contrário à Lei de Deus) e até da saúde (ele teme danos à saúde causados pelo cigarro). Ele não pode, entretanto, proibir fumar em sua casa pela mesma razão que ele proibiria, digamos, que sua casa fosse usada para cometer adultério (ou seja, por considerar pecaminoso fumar e não querer ser cúmplice no pecado). Isto estaria errado.

Defendo o direito de quem quer que seja de proibir fumar, usar roupa de uma cor ou outra que não lhe agrada, usar sapatos, etc. É a vontade do dono da casa, que deve ser respeitada em sua casa. Se a pessoa começasse, porém, a defender sua proibição afirmando que fumar é pecado, roupa preta traz maus fluidos e sapatos impedem o contato com a energia telúrica, estaria comprando uma briga comigo.


Resumindo…

Fumar não é pecaminoso. Não se pode acusar um fumante de estar pecando ao fumar.

Fumar pode perfeitamente fazer mal à saúde, e uma pessoa que tenha razões para querer ter boa saúde tem todo o direito de não fumar. Do mesmo modo, uma argumentação contra o fumo que seja baseada em seus danos à saúde é perfeitamente aceitável.

Do mesmo modo, o direito dos proprietários de residências e outras áreas particulares de exigir que não se fume em suas propriedades é lícito.

O que não é lícito e não é aceitável é acusar o fumante de pecar por fumar. Fuma quem quer, não fuma quem não quer. Nenhum dos dois, por esta razão, está pecando