domingo, 3 de junho de 2012

Santa Clotilde

Clovis e Clotilde, por Jean Antoine GROS, por volta de 1811, Petit Palais, Paris


Santa Clotilde, Viúva
(+ França, 545)
4 de Junho


Modelo de Rainha Católica. Instrumento da Providência para a conversão da França.

No caos provocado na Europa dos séculos IV e V pela invasão dos bárbaros e a queda do Império Romano do Ocidente, um povo começou a tomar relevo, liderado por um soberano adolescente ainda pagão, Clóvis. A conversão deste povo representaria uma grande vitória para o cristianismo, povo este que se tornaria a nação que foi denominada Filha Primogênita da Igreja, a França. O papel de uma princesa, Clotilde, como instrumento da Providência nessa obra, foi primordial.

Voto de Clovis na batalha de Tolbiac - por Paul-Joseph Blanc. Antiga Igreja de Santa Genoveva, agora profanada e transformada no "Panteão". 

O invicto Clovis encontra-se face aos poderosos alamanos no campo de batalha situado na planície de Tolbiac. De repente vê seu exército recuar aos poucos em tal pânico que, na fuga, uns guerreiros atropelam os outros. Desesperado, o monarca pagão começa a clamar aos seus deuses, pedindo-lhes ajuda. Em vão. Lembra-se então de Clotilde. Caindo de joelhos, eleva seus olhos ao Céu, e brada com toda a alma: “Ó Jesus Cristo, Deus de Clotilde. Se me concederdes vencer esses inimigos, eu crerei em Vós e serei batizado em vosso nome”. Daí nasceu a França católica, a tantos títulos glória da Santa Igreja.

Quem era essa Clotilde, cujo Deus era tão poderoso? É o que veremos neste artigo.

Lírio em meio ao lodo da heresia

Gundioch, rei da Borgonha, morrera numa batalha contra os bárbaros, em defesa da Fé e de seus Estados. Seus quatro filhos, desejando governar, dividiram o pequeno reino. Entretanto, pouco tempo depois, dois deles, mais gananciosos e belicosos, uniram-se aos ferozes alamanos para invadir os reinos dos outros dois irmãos. Um destes, Chilperico, com seus dois filhos, teve a cabeça decepada, e a mulher foi atirada a um rio com uma pedra ao pescoço. Impossibilitadas de governar pela lei de sucessão, as duas filhas de Chilperico foram poupadas. Gondebaldo – um dos irmãos invasores — levou-as para sua corte e apesar de ariano (1), permitiu às duas sobrinhas que continuassem a professar a verdadeira religião.

A mais velha das irmãs, Fredegária, tomou o véu religioso num mosteiro, onde terminou seus dias em odor de santidade. Clotilde, a mais nova, por “sua doçura, piedade e amor pelos pobres, fazia-se bendizer por todos aqueles que viviam a seu redor” (2).  “Essa jovem princesa demonstrou uma constância admirável em meio a seus infortúnios, e começou a brilhar, como um milagre de honra e de virtude, pela santidade de suas ações... Seu porte era belo, suas maneiras agradáveis, seu rosto bem feito e de uma beleza tão regular, que não se podia ver nada de mais bem acabado” (3).


Zelo apostólico na corte dos bárbaros francos

A fama de tal virtude e beleza chegou ao vizinho reino dos Francos (depois França), onde seu jovem e fogoso rei, Clóvis pensou em desposar a virtuosa princesa, apesar de ser ela católica. Certamente influiu nessa decisão o Bispo São Remígio, no qual o rei franco depositava inteira confiança.

As bodas realizaram-se no ano de 493 em Soissons, com toda a suntuosidade da época.

“No palácio do rei franco instalou-se um oratório católico, onde diariamente se ofereciam os Sagrados Mistérios, aos quais a Santa assistia com singular devoção” (4).


Um ano após o casamento, Clotilde deu à luz um herdeiro, e obteve de Clóvis  licença para batizá-lo. Poucos dias depois, o pequeno inocente foi para o Céu. O rei, irado, alegou que se ele tivesse sido consagrado aos seus deuses, não teria morrido. A rainha protestou com firmeza dizendo que se alegrava pelo fato de Deus os ter julgado dignos de que um fruto de seu matrimônio entrasse no Céu. E que, em vez de entristecerem-se, eles deveriam rejubilar-se. Isso aplacou o rei.

No ano seguinte, Clotilde deu à luz  outro menino que, apenas batizado, correu perigo de vida. A rainha lançou-se aos pés do altar e, por suas súplicas e lágrimas — que visavam mais a conversão do marido do que evitar essa segunda morte — obteve de Deus que ele se restabelecesse.

Grandiosa missão de converter o rei

As qualidades da esposa começaram a impressionar vivamente a Clovis. Mas ele tinha um temperamento modelado pela barbárie, e, portanto refratário à Religião católica. Para obter a conversão do marido e do reino, a piedosa rainha entregava-se em segredo a grandes austeridades, prolongadas orações, e especial caridade para com os pobres. Ao mesmo tempo, “honrava seu real esposo, e procurava suavizar seu temperamento belicoso com sua mansidão cristã” (5).


Quando Clóvis vinha fazer-lhe confidências a respeito de planos de combate e sonhos de grandeza, ela aproveitava para falar-lhe do verdadeiro Deus. “Enquanto não adorares o verdadeiro Deus – dizia-lhe ela – temerei que voltes das batalhas vencido e humilhado. Até agora não enfrentaste inimigos dignos de teu valor. Se, por desgraça, fores cercado e acossado por um exército mais numeroso, em vão pedirás a ajuda de teus falsos deuses”. Clóvis contentava-se em desviar a conversa para não magoar a esposa com blasfêmias.

Sempre disposta a procurar e incentivar o bem, Clotilde tornou-se amiga de Santa Genoveva, que então resplandecia em Paris por suas virtudes e milagres. A ela e a São Remígio recomendou também a conversão do marido. Enquanto isso se punha a catequizar suas damas, domésticos e mesmo alguns dos nobres francos que viviam no palácio, falando-lhes da abundância de seu coração.

Conversão alterou a História

Chegou finalmente, na planície de Tolbiac, a hora da Providência. Vimos como Clóvis obteve a reversão da batalha com o auxílio divino, e prometeu converter-se.

Essa conversão foi pronta e sincera. Não querendo esperar chegar a Soissons para instruir-se “na fé de Clotilde”, mandou chamar um virtuoso eremita, São Vedasto, para que marchasse a seu lado, instruindo-o na Fé católica. Quis Deus que o rei bárbaro comprovasse mais uma vez, com os próprios olhos, a santidade da Religião que lhe estava sendo pregada. Ao passarem pela vila de Vouziers, um cego aproximou-se para pedir esmola, e só ao tocar a túnica de São Vedasto, adquiriu imediatamente a visão (6).

A rainha – que o esperava ansiosamente, pois Clóvis já mandara notícia de sua conversão – disse ele: “O Deus de Clotilde deu-me a vitória. De hoje em diante será meu único Deus!”

“Curva a cabeça, Sicambro”

No dia de Natal do ano 496, Clóvis, com três mil de seus mais valentes guerreiros, ingressaram pelo batismo na milícia do Deus de Clotilde. Receberam-no igualmente suas duas irmãs e seu filho bastardo, Thierry. Ao entrar o rei dos francos com o Bispo de Reims no batistério, disse-lhe este as palavras que se tornaram famosas: “Curva a cabeça, altivo Sicambro; adora o que queimaste e queima o que adoraste”.


No momento em que São Remígio ia proceder à unção do rei com o óleo do Santo Crisma, baixou da abóbada do templo uma pomba trazendo no bico uma ampola com azeite. O Bispo, vendo naquilo uma ordem celeste, ungiu com ele a cabeça de Clóvis (7). Com esse azeite seriam ungidos depois praticamente todos os reis franceses, até ser quebrada a ampola durante a nefanda Revolução Francesa.

“Em poucos dias, todo o reino dos francos entrava na Igreja, pondo à cabeça de seu Código nacional aquele grito entusiasta que é uma confissão de fé: ‘Viva Cristo, que ama os francos! ’” (8).

Após a conquista do marido, a conquista de Paris para a Cristandade

Clóvis enviou embaixadores ao Papa Anastácio e fez colocar sua própria coroa diante do túmulo do Apóstolo São Pedro, iniciando assim a aliança entre a França e a Igreja. Encorajado por Clotilde, o rei mandou destruir os templos dos ídolos e construir em seu Estado igrejas dedicadas ao verdadeiro Deus. Favorecido também nas armas, Clóvis conquistou a inexpugnável Paris, crescendo assim seu reino.

O amor que unia os dois esposos tornou-se, a partir de então, muito mais forte e sobrenatural, concedendo-lhes a Providência mais dois filhos e uma filha. Esta última, Theodechilde, é também honrada como Santa, comemorando-se sua festa no dia 7 deste mês.

Clotilde levou seu esposo a empreender uma guerra contra Alarico, rei dos visigodos, que tentava disseminar a heresia ariana na região de Guyenne. Clóvis perseguiu esses perniciosos hereges, enquanto Clotilde – que o acompanhara nessa cruzada – qual novo Moisés, rezava com os braços elevados para o céu pelo êxito da batalha. O rei visigodo foi morto e desbaratado seu exército.

Batalha de Poitiers - por Charles de Steuben's. Em outubro de 732, mostra o triunfante Charles Martel (montado) enfrentando Abd al-Rahman ibn Abd Allah al-Rhafiqi (direita) na batalha também conhecida como Batalha de Tours.

Enfim, Clóvis, extenuado pelas fadigas e trabalhos do governo, viu-se atacado por mortal doença em Paris. Clotilde acorreu junto a ele, tendo antes feito chamar São Severino, Abade. Este, apenas tocando a ponta de seu manto no soberano, fez-lhe recuperar totalmente os sentidos para receber conscientemente os sacramentos e preparar-se para a morte. 

Pintura de Yperman Louis "A Cura do rei Clóvis por São Severino"
Copyright : crédits photographiques RMN

O rei franco faleceu em 27 de novembro de 511, aos 45 anos de idade, 30 desde que subira ao trono e 20 depois do casamento com Clotilde. A santa rainha, após copioso pranto, exclamou como verdadeira cristã: “Senhor, de Vós eu o recebi pagão; por vossa misericórdia, eu vo-lo entrego cristão. Que vossa vontade seja feita!”

Na viuvez, virtude heróica diante dos sofrimentos

Parecia que a missão de Clotilde na Terra estava encerrada. Quis viver só para Deus e fez dividir o reino entre seus três filhos e o enteado. Mudou-se depois para junto do túmulo de São Martinho, em Tours, onde, diz São Gregório de Tours, “viu-se uma filha de rei, sobrinha de um rei, esposa de um rei, e a mãe de vários reis, passar as noites em oração, servir os pobres e proteger as viúvas e os orfãozinhos” (9).

Santa Clotilde diante do túmulo de São Martinho, em Tours.
Musee des Beaux-Arts, Angers, France / Giraudon
Pintura de Carle van Loo

À santa rainha restavam mais de 30 anos de provas e sofrimentos cruéis. Alentada por sua própria experiência, Clotilde tinha dado sua filha, que recebera seu nome, como esposa a Amalrico, rei dos visigodos, visando à conversão desse monarca. Mas um herege é sempre pior que um pagão. A reação do soberano ariano foi, pelo contrário, de proporcionar toda sorte de perseguições à esposa, devido à fidelidade desta à verdadeira religião. Seus vassalos, com permissão do rei, chegavam a atirar-lhe lama quando ela ia à igreja.


Tomando conhecimento desses ultrajes, seus irmãos declararam guerra a Amalrico, que foi morto. Trouxeram então consigo a segunda Clotilde. A virtuosa mãe, contudo, não voltaria a ver a filha senão no Céu, pois esta, acabrunhada de dor, faleceu a caminho da pátria.

Milagres em vida, santa morte

Santa Clotilde operou vários milagres ainda em vida, como curas, mudança de água em vinho, fez surgir uma fonte em campo árido.

Sentindo aproximar-se a morte, mandou chamar seus dois filhos, exortando-os da maneira mais viva a servir a Deus e a guardar sua lei, a proteger os pobres, a viverem juntos em perfeita harmonia, e a tratar seus povos com bondade paternal. Tendo depois feito profissão pública de fé católica e recebido os Sacramentos que a prepararam para a eternidade, entregou docemente sua alma ao Criador.

Notas:
1 – Ariano: seguidor das doutrinas do heresiarca Ario, (250-336), sacerdote de Alexandria que caiu em heresia negando que as três Pessoas da Santíssima Trindade são absolutamente iguais quanto à natureza e coeternas. A heresia ariana alastrou-se por quase todo o mundo já cristianizado de então. Foi condenada pelo Concílio de Nicéa I (325) e por vários outros Concílios.
2 – Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Mgr Paul Guérin, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, t. VI , p. 416.
3 – Pe. Simão Martin, Vie des Saints, Bar-le-Duc, Imprimerie de Madame Laguerre, 1859, vol. II, p. 826.
4 – Edelvives, El Santo de Cada Día, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1947, tomo III, p. 345.
5 – Pe. Jean Croiset, Año Cristiano, Saturnino Calleja, Madri, 1901, t.II, p. 751.
6 – Cfr. Edelvives, op. cit., tomo III, p. 348.
7 – Cfr. Bollandistes, op. cit, tomo VI, pp. 421, 422; Edelvives, op. cit, tomo III, p. 349).
8 – Fr. Justo Pérez de Urbel, OSB, Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo II, p. 525.
9 – Bollandistes, op. cit., tomo VI, p. 422.

As fotografias foram retiradas dos seguintes sites:

3. Lepanto 
8. art.com 
10. Missio 


Artigo extraído da Revista Catolicismo de Junho de 1999

Fonte: Lepanto

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