quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Barricadas no Claustro




Freiras do Mosteiro "SS. Annunziata" em Marradi, FI - Itália, montaram barricada no claustro para não serem retiradas a força.



No mosteiro estão 4 religiosas, porém de acordo com uma Constituição apostólica emitida pelo Papa Francisco em maio de dois anos atrás, não é mais possível manter um mosteiro autônomo com esse número de religiosos.

Fiéis católicos da vizinhança, além do ex prefeito Paolo Bassetti (primo do presidente da CEI, Cardeal Gualtiero Bassetti) e o médico Dr Gabriele Miniati estão apoiando o mosteiro para impedir a entrada forçada e para buscar soluções com Roma.
O mosteiro existe há pelo menos 400 anos e foi construído pelos antigos moradores daquela cidade. E a ordem religiosa existe há 800 anos.
Sem aviso prévio, três religiosas, incluindo duas irmãs, bateram à porta do mosteiro da "SS. Annunziata" para tentar convencer as freiras mais uma vez a fazer as malas, mas a irmã Domenica foi inflexível: "Estamos em oração, agora não podemos atender", respondeu pelo interfone. Outra tentativa de tirar as freiras foi no último dia 10; falhou como no mês passado, apesar cortarem o telefone do mosteiro e pedirem que respeitem o voto de obediência.
Essa foi a terceira ou quarta visita realizada ao mosteiro com o intuito de transferir as freiras para outro lugar, sendo que duas delas seriam encaminhadas para uma casa de repouso. As freiras estão em resistência e querem continuar sua vocação religiosa até o fim da vida, no mesmo mosteiro que ingressaram.
Aos amigos católicos eu peço que dediquem uma oração por essa irmãs.

Notícias do caso em jornais italianos:

2. 12 gennaio 2020 - Suore sotto sfratto a Marradi. Barricate nel convento

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Adoração x Veneração

ADORAÇÃO X VENERAÇÃO

Adorar não é venerar, nem, muito menos, idolatrar. Cada uma dessas palavras tem sentidos diferentes.

Qualquer um que não faz essa distinção, é porque lhe falta esforço em querer aprender. E apesar de o mais famoso "pai de burros", no Brasil, se chamar Aurélio, se compará-lo com qualquer "Pai de Burros " estrangeiros, verá logo uma diferença... uma diferença... digamos... gigantesca.

ADORAR SIGNIFICA RECONHECER COMO DEUS, CRIADOR DE TODAS AS COISAS.

Idolatrar, embora o Aurélio (amigo dos protestantes e não lido por eles) não explique isso, significa em certo sentido o oposto, pois designa a ação de adorar uma critura em vez de adorar o Criador.

Materialmente, a ação de adorar e a ação de idolatrar são idênticas. Formalmente são opostas.

O protestante certamente compreende a diferença entre matéria e forma, na consideração de uma ação. Mas, para auxiliar sua recordação e compreensão, dou-lhe um exemplo didático, visto que um especialista em dicionário e em leitura enviezada da Bíblia normalmente anda tão atarefado em decorar e citar a Escritura por "centímetros" e "milímetros", que facilmente pode ter esquecido uma coisa tão primária. Ademais, o "pai dos burros" nacionais, ou mesmo seus eqüivalentes estrangeiros, não trata disso.

Pois veja lá um exemplo didático:
Um médico que opera o coração de um doente e um assassino, materialmente, agem da mesma forma: abrem o peito de um ser humano com instrumento perfurador e cortante (bisturi ou punhal). Entretanto, formalmente suas ações são opostas, pois um tem por fim curar o homem de quem abriu o peito -- (É o médico, entendeu? ) -- enquanto o outro visa tirar a vida de quem abriu o peito com o punhal. (É o assassino, está claro?).

Assim quem adora a Deus e quem adora o ídolo materialmente fazem as mesmas coisas, que formalmente são opostas. Por isso é que existem as palavras adorar e idolatrar.

O pobre Aurélio diz que adorar, venerar, idolatrar, amar extremamente são sinônimos. O protestante é quem geralmente garante isso. E quem o seguisse, e seguisse seu modo enviezado de ler, concluiria que, quando alguém diz: "Eu adoro chocolate", estaria considerando que chocolate é o Criador do céu e da terra. E quando dissesse: "Amo extremamente meus filhos", estaria -- na opinião do Aurélio -- cometendo ato de idolatria, já que para ele, e para o protestante, amar extremamente é o mesmo que adorar.

Que besteira!

Veja para que atoleiro o conduziu o "pai dos burros".
Deixe para lá o "pai dos burros". Saia do atoleiro.

Os protestantes são filhos de Lutero. E não é preciso ser alemão para ser protestante, isto é, para ser filho de Lutero. Há, infelizmente, brasileiros filhos dele.

Quanto a serpente de bronze, os protestantes citam o texto do II livro dos Reis (XVIII, 3-4) para provar que o Rei Ezequias destruiu a serpente de bronze feita por Moisés.
Mas o que prova esse texto?
Prova o seguinte:
1) Que Moisés fizera de fato uma serpente de bronze;
2) Que essa serpente fora conservada pelos judeus durante longo tempo;
3) Que eles acabaram por adorá-la ou a prestar-lhe culto indevido;
4) Que por isso, Ezequias a quebrou.

Teria agido mal Moisés ao fazer a serpente de bronze? É claro que não, pois foi o próprio Deus quem ordenou fazê-la e olhar para ela para que os judeus se curassem.
Erraram os judeus conservando-a? É evidente que não, porque mostravam gratidão e obediência a Deus. E entre os que conservaram estavam Moisés, Josué, os Juízes, Daví, Salomão. Será que todos eles estavam errados? Será que nenhum deles tinha um "Aurélio" -- um dicionário à mão para saber que adorar, venerar, reverenciar, amar extremamente é tudo a mesma coisa?
E nenhum deles contou com um sábio protestante para aconselhá-lo? Por que, durante tantos séculos, Deus e seus enviados permitiram que se guardasse a serpente de bronze?

É evidente que permitiram porque ela não era adorada. Quando a transformaram abusivamente em ídolo, Ezequias a destruiu. Mas saibam os protestantes, que "abusus non tolit usum".

E não pense que isso é lei da Igreja: é um princípio jurídico do Direito Romano. O abuso não tolhe o uso. Se alguém abusa do culto de dulia de um santo e de sua imagem, e passa da veneração a idolatria, isso é um abuso condenável que não proíbe nem invalida o culto de dulia -- (E NÃO DE LATRIA) -- de um santo e de sua imagem.

Erraram depois os judeus transformando-a em ídolo? Evidente que sim, e, por isso fez bem Ezequias em destruí-la.
Portanto, enquanto não se adora uma imagem como se fosse Deus, é lícito tê-la e mesmo "olhar para ela para ser curado" como Deus mandou.

E nenhum católico de verdade olha para uma imagem de Nossa Senhora e dos santos julgando que sejam Deus e adorando essas imagens. Nós as veneramos tal qual os protestantes veneram um retrato da própria mãe.

Lembremo-nos do que está escrito no Evangelho de São Lucas: "Salve Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo" (Luc. I, 28) "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre" (Luc I, 42)

Em São Lucas se lê ainda: "Todas as gerações me chamarão de bem aventurada" (Luc. I,48)
Todas as gerações chamarão a Virgem Maria de bem aventurada. Menos a geração dos que odeiam a Santíssima mãe de Nosso Senhor.
Será possível ganhar o céu aqueles que rejeitam a mãe de Jesus? Acaso eu permitiria entrar em minha casa alguém que odeia minha mãe?

Os protestantes dizem que para chegar a Deus existe apenas um jeito, por meio de Cristo e ninguém mais.

Como é que o protestante sabe que Cristo é nosso único mediador?
Por acaso Cristo apareceu a ele?
Não acredito.
O protestante dirá que conheceu Cristo lendo os evangelhos. Por meio dos evangelhos.
Mas, então, houve um meio estabelecido pelo próprio Cristo para conhecer a Ele. Nosso Senhor Jesus Cristo escolheu doze apóstolos para ensinar a todos quem Ele era, e quem não ouve esses mediadores de Cristo, não ouve o próprio Cristo: "Quem vos ouve, a Mim ouve" (Lc, X, 16). Cristo exigiu que ouvíssemos seus apóstolos e evangelistas como "mediadores segundos", entre Deus e nós.

E a Pedro Ele disse: "E tu, depois de convertido confirma teus irmãos".
A nenhum outro Ele deu essa missão.
E o protestante recusa  -- todos eles -- ser confirmado por Pedro.

Cristo poderia ter vindo ao mundo adulto. Quis vir por meio de Maria Santíssima. O protestante não aceita o que Deus estabeleceu, porque o protestante, especialista em dicionário, acha que entende a Bíblia e só aceita da Bíblia o que ele, protestante, acha certo, e só é certo o que o protestante acha.

Todo protestante diz que crê na Bíblia, mas seleciona o que quer crer na Bíblia. O protestante diz que crê na Bíblia, mas não crê no que ela diz. O protestante faz da Bíblia um ídolo.

Quer mais uma prova de que o protestante não aceita tudo o que há na Escritura?
Nosso Senhor Jesus Cristo, na hora de sua morte no Calvário, deixou-nos Maria Santíssima por mãe, ao dizer a ela e a São João: "Mulher, eis aí teu filho.(...) Filho, eis aí tua mãe" (Jo XIX, 26-27).

Na Bíblia protestante existe esse texto?
Claro que existe!
Só que esse texto não é aceito pelo protestante, porque não quer aceitar Maria Santíssima como sua mãe.

Pois fique sabendo que só tem a Deus por Pai, quem tem Maria por Mãe. O protestante só entrará no céu se aceitar que Cristo a estabeleceu como medianeira entre Ele e nós. E quando aceitar, deixará de ser protestante. Por isso está dito que aos pastores e aos reis foi indicado que deveriam encontrar o Redentor com sua mãe. E o o protestante pensa, bem erradamente, que poderá encontrar a Cristo desprezando a Mãe santíssima dEle.

E pensa que poderá haver uma Igreja de Cristo fora do fundamento que Ele mesmo estabeleceu: "Tu és pedra e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" (Mt. XVI).

Qual a sua igreja? Quem a fundou? Desde quando ela existe?
Se ela não foi estabelecida sobre Pedro, ela não é a Igreja única de Cristo. É por isso que a Igreja Católica é a única Igreja de Deus, a única verdadeira, fora da qual não há salvação.

Sim, "a verdade vos libertará", disse-nos Jesus. E o protestante, pobre protestante; continua atado em seus preconceitos, que são os óculos que deturpam o que ele lê. A verdade nos liberta. E a verdade, só a possui íntegra e perfeitamente a Igreja Católica Apostólica Romana, fora da qual não há salvação.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A saudação angélica





PRÓLOGO

1. — A saudação angélica é dividida em três partes: A primeira, composta pelo Anjo: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo, bendita és tu entre as mulheres. (Lc 1, 28).

A segunda é obra de Isabel, mãe de João Batista, que disse: Bendito é o fruto do teu ventre.

A terceira parte, a Igreja acrescentou: Maria

O Anjo não disse: Ave Maria e sim, Ave, Cheia de graça. Mas este nome de Maria, efetivamente, se harmoniza com as palavras do Anjo, como veremos mais adiante.

Ave
2. — Na antiguidade, a aparição dos Anjos aos homens era um acontecimento de grande importância e os homens sentiam-se extremamente honrados em poder testemunhar sua veneração aos Anjos.
A Sagrada Escritura louva Abraão por ter dado hospitalidade aos Anjos e por tê-los reverenciado.

Mas um Anjo se inclinar diante de uma criatura humana, nunca se tinha ouvido dizer antes que o Anjo tivesse saudado à Santíssima Virgem, reverenciando-a e dizendo: Ave.

3. — Sé na antiguidade o homem reverenciava o Anjo e o Anjo não reverenciava o homem, é porque o Anjo é maior que o homem e o é por três diferentes razões:

Primeiramente, o Anjo é superior ao homem por sua natureza espiritual.

Está escrito: Dos seres espirituais Deus fez seus Anjos. (Sl 103).

4. — O homem tem uma natureza corrutível e por isso Abraão dizia a Deus: (Gn 18, 27) Falarei a meu Senhor, eu que sou cinza e pó.

Não convém que a criatura espiritual e incorruptível renda homenagem à criatura corruptível.

Em segundo lugar, o Anjo ultrapassa o homem por sua familiaridade com Deus.

Com efeito, o Anjo pertence à família de Deus, mantendo-se a seus pés. Milhares de milhares de Anjos o serviam, e dez milhares de centenas de milhares mantinham-se em sua presença, está escrito em Daniel (7, 10).

Mas o homem é quase estranho a Deus, como um exilado longe de sua face pelo pecado, como diz o Salmista: (54, 8) Fugindo, afastei-me de Deus.

Convém, pois, ao homem honrar o Anjo por causa de sua proximidade com a majestade divina e de sua intimidade com ela.

Em terceiro lugar, o Anjo foi elevado acima do homem, pela plenitude do esplendor da graça divina que possui. Os Anjos participam da própria luz divina em mais perfeita plenitude. Pode-se enumerar os soldados de Deus, diz Jó (25, 3) e haverá algum sobre quem não se levante a sua luz? Por isso os Anjos aparecem sempre luminosos. Mas os homens participam também desta luz, porém com parcimônia e como num claro-escuro.

Por conseguinte, não convinha ao Anjo inclinar-se diante do homem, até, o dia em que apareceu urna criatura humana que sobrepujava os Anjos por sua plenitude de graças (cf n° 5 a 10), por sua familiaridade com Deus (cf. n° 10) e por sua dignidade.

Esta criatura humana foi a bem-aventurada Virgem Maria. Para reconhecer esta superioridade, o Anjo lhe testemunhou sua veneração por esta palavra: Ave.

Cheia de graça
5. — Primeiramente, a bem-aventurada Virgem ultrapassou todos os Anjos por sua plenitude de graça, e para manifestar esta preeminência o Arcanjo Gabriel inclinou-se diante dela, dizendo: cheia de graça; o que quer dizer: a vós venero, porque me ultrapassais por vossa plenitude de graça.
6. — Diz-se também da Bem-aventurada Virgem que é cheia de graça, em três perspectivas:

Primeiro, sua alma possui toda a plenitude de graça. Deus dá a graça para fazer o bem e para evitar o mal. E sob esse duplo aspecto a Bem-aventurada Virgem possuía a graça perfeitissimamente, porque foi ela quem melhor evitou o pecado, depois de Cristo.

O pecado ou é original ou atual; mortal ou venial.

A Virgem foi preservada do pecado original, desde o primeiro instante de sua concepção e permaneceu sempre isenta de pecado mortal ou venial.

Também está escrito, no Cântico dos Cânticos: (4, 7) Tu és formosa, amiga minha, e em ti não há mácula.

«Com exceção da Santa Virgem, diz Santo Agostinho, em seu livro sobre a natureza e a graça; todos os santos e santas, em sua vida terrena, diante da pergunta: «estais sem pecados?» teriam gritado a uma só voz: «Se disséssemos: estamos sem pecado (cf. 1, Jo 1, 6), estaríamos enganando-nos a nós mesmos e a verdade não estaria conosco».

«A Virgem santa é a única exceção. Para honrar o Senhor, quando se trata a respeito do pecado, não se faça nunca referência à Virgem Santa. Sabemos que a ela foi dada uma abundância de graças maior, para triunfar completamente do pecado. Ela mereceu conceber Aquele que não foi manchado por nenhuma falta».

Mas o Cristo ultrapassou a Bem-aventurada Virgem. Sem dúvida, um e outro foram concebidos e nasceram sem pecado original. Mas Maria, contrariamente a seu Filho, lhe é submissa de direito. E se ela foi, de fato, totalmente preservada, foi por uma graça e um privilégio singular de Deus Todo Poderoso que é devido aos méritos de seu Filho, Jesus Cristo, Salvador do gênero humano. (N.T.).

7. — A Virgem realizou também as obras de todas as virtudes. Os outros santos se destacam por algumas virtudes, dentre tantas. Este foi humilde, aquele foi casto, aquele outro, misericordioso, por isto são apresentados como modelo para esta ou aquela determinada virtude; como, por exemplo, se apresenta São Nicolau, como modelo de misericórdia.

Mas a Bem-aventurada Virgem é o modelo e o exemplo de todas as virtudes. Nela achareis o modelo da humildade. Escutai suas palavras: (Lc 1, 38) Eis a escrava do Senhor. E mais (Lc 1, 48): O Senhor olhou a humildade de sua serva. Ela é também o modelo da castidade: ela mesma confessa que não conheceu homem (cf. Lc 1, 43). Como é fácil constatar, Maria é o modelo de todas as virtudes.

A Bem-aventurada Virgem é pois cheia de graça, tanto porque faz o bem, como porque evita o mal.

8. — Em segundo lugar, a plenitude de graça da Virgem Santa se manifesta no reflexo da graça de sua alma, sobre sua carne e todo o seu corpo.

Já é uma grande felicidade que os santos gozem de graça suficiente, para a santificação de suas almas. Mas a alma da Bem-aventurada Virgem Maria possui uma tal plenitude de graça, que esta graça de sua alma reflete sobre sua carne, que, por sua vez, concebe o Filho de Deus.

Porque o amor do Espírito Santo, nos diz Hugo de São Vitor, arde no coração da Virgem com um ardor singular, Ele opera em sua carne maravilhas tão grandes, que dela nasceu um Homem Deus, como avisa o Anjo à Virgem santa: (Lc 1, 35) Um Filho santo nascerá de ti e será chamado Filho de Deus.

9. — Em terceiro lugar, a Bem-aventurada Virgem é cheia de graça, a ponto de espalhar sua plenitude de graça sobre todos os homens.

Que cada santo possua graça suficiente para a salvação de muitos homens é coisa considerável. Mas se um santo fosse dotado de uma graça capaz de salvar toda a humanidade, ele gozaria de uma abundância de graça insuperável. Ora, essa plenitude de graça existe no Cristo e na Bem-aventurada Virgem.

Em todos os perigos, podemos obter o auxílio desta gloriosa Virgem. Canta o esposo, no Cântico dos Cânticos: (4, 4) Teu pescoço é como a torre de Davi, edificada com seus baluartes. Dela estão pendentes mil escudos, quer dizer, mil remédios contra os perigos.

Também em todas as ações virtuosas podemos beneficiar-nos de sua ajuda. Em mim há toda a esperança da vida e da virtude (Ecl 24, 25).

Maria
10. — A Virgem, cheia de graça, ultrapassou os Anjos, por sua plenitude de graça. E por isto é chamada Maria, que quer dizer, «iluminada interiormente», donde se aplica a Maria o que disse Isaias: (58, 11) O Senhor encherá tua alma de esplendores. Também quer dizer: «iluminadora dos outros», em todo o universo; por isso, Maria é comparada, com razão, ao sol e à lua.

O Senhor é Convosco
11. — Em segundo lugar, a Virgem ultrapassa os Anjos em sua intimidade com o Senhor. O arcanjo Gabriel reconhece esta superioridade, quando lhe dirige estas palavras: O Senhor é convosco, isto é, venero-vos e confesso que estais mais próxima de Deus do que eu mesmo estou. O Senhor está, efetivamente, convosco.
O Senhor Pai está com Maria, pois Ele não se separa de maneira nenhuma de seu Filho e Maria possui este Filho, como nenhuma outra criatura, até mesmo angélica. Deus mandou dizer a Maria, pelo Arcanjo Gabriel (Lc 1, 35) Uma criança santa nascerá de ti e será chamada Filho de Deus.

O Senhor está com Maria, pois repousa em seu seio. Melhor do que a qualquer outra criatura se aplicam a Maria estas palavras de Isaias: (12, 6) Exulta e louva, casa de Sião, porque o Grande, o Santo de Israel está no meio de ti.

O Senhor não habita da mesma maneira com a Bem-aventurada Virgem e com os Anjos. Deus está com Maria, como seu Filho; com os Anjos, Deus habita como Senhor.

O Espírito Santo está em Maria, como em seu templo, onde opera. O arcanjo lhe anunciou: (Lc 1, 35) O Espírito Santo virá sobre ti. Assim, pois, Maria concebeu por efeito do Espírito Santo e nós a chamamos «Templo do Senhor», «Santuário do Espírito Santo». (cf. liturgia das festas de Nossa Senhora).

Portanto, a Bem-aventurada Virgem goza de uma intimidade com Deus maior do que a criatura angélica.

Com ela está o Senhor Pai, o Senhor Filho, o Senhor Espírito Santo, a Santíssima Trindade inteira. Por isso canta a Igreja: «Sois digno trono de toda a Trindade».

É esta então a palavra mais nobre, a mais expressiva, como louvor, que podemos dirigir à Virgem.

Maria
12. — Portanto o Anjo reverenciou a Bem-aventurada Virgem, como mãe do Soberano Senhor e, assim, ela mesma como Soberana. O nome de Maria, em siríaco significa soberana, o que lhe convém perfeitamente.

13. — Em terceiro lugar, a Virgem ultrapassou aos Anjos em pureza.

Não só possuía em si mesma a pureza, como procurava a pureza para os outros.

Ela foi puríssima de toda culpa, pois foi preservada do pecado original e não cometeu nenhum pecado mortal ou venial, como também foi livre de toda pena.

Bendita sois vós entre as mulheres
14. — Três maldições foram proferidas por Deus contra os homens, por causa do pecado original.

A primeira foi contra a mulher, que traria seu filho no sofrimento e daria à luz com dores.
Mas a Bem-aventurada Virgem não está submetida a estas penas. Ela concebeu o Salvador sem corrupção, trouxe-o alegremente em seu seio e o teve na alegria. A Ela se aplica a palavra de Isaias: (35, 2) A terra germinará, exultará, cantará louvores.

15. — A segunda maldição foi pronunciada contra o homem (Gn 3, 9): Comerás o teu pão com o suor de teu rosto.

A Bem-aventurada Virgem foi isenta desta pena. Como diz o Apóstolo (1 Cor 7, 32-34): Fiquem livres de cuidados as virgens e se ocupem só com o Senhor.

A terceira maldição foi comum ao homem e à mulher. Em razão dela devem ambos tornar ao pó.

A Bem-aventurada Virgem disto também foi preservada, pois foi, com o corpo, assunta aos céus. Cremos que, depois de morta, foi ressuscitada e elevada ao céu. Também se lhe aplicam muito apropriadamente as palavras do Salmo 131, 8: Levanta-te, Senhor, entra no teu repouso; tu e a arca da tua santificação.

Maria
A Virgem foi pois isenta de toda maldição e bendita entre as mulheres. Ela é a única que suprime a maldição, traz a bênção e abre as portas do paraíso.

Também lhe convém, assim, o nome de Maria, que quer dizer, «Estrela do mar», Assim como os navegadores são conduzidos pela estrela do mar ao porto, assim, por Maria, são os cristãos conduzidos à Glória.

Bendito é o fruto do vosso ventre
18. — O pecador procura nas criaturas aquilo que não pode achar, mas o justo o obtém. A riqueza dos pecadores está reservada para os justos, dizem os Provérbios (13, 22). Assim Eva procurou o fruto, sem achar nele a satisfação de seus desejos. A Bem-aventurada Virgem, ao contrário, achou em seu fruto tudo o que Eva desejou.
19. — Eva, com efeito, desejou de seu fruto três coisas:

Primeiro, a deificação de Adão e dela mesma e o conhecimento do bem e do mal, como lhe prometera falsamente o diabo: Sereis como deuses (Gn 3, 5), disse-lhes o mentiroso. O diabo mentiu, porque ele é mentiroso e o pai da mentira (cf. Jo 8, 44). E por ter comido do fruto, Eva, em vez de se tornar semelhante a Deus, tornou-se dessemelhante. Por seu pecado, afastou-se de Deus, sua salvação, e foi expulsa do paraíso.

A Bem-aventurada Virgem, ao contrário, achou sua deificação no fruto de suas entranhas. Por Cristo nos unimos a Deus e nos tornamos semelhantes a Ele. Diz-nos São João: (1 Jo 3, 2) Quando Deus se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos como Ele é.

20. — Em segundo lugar, Eva desejava o deleite (cf. Gn 3, 6), mas não o encontrou no fruto e imediatamente conheceu que estava nua e a dor entrou em sua vida.

No fruto da Virgem, ao contrário, encontramos a suavidade e a salvação. Quem come minha carne tem a vida eterna (Jo 6, 55).

21. — Enfim, o fruto de Eva era sedutor no aspecto, mas quão mais belo é o fruto da Virgem que os próprios Anjos desejam contemplar (cf. 1 Pe 1, 12). É o mais belo dos filhos dos homens (Sl 44, 3), porque é o esplendor da glória de seu Pai (Heb 1, 3) como diz S. Paulo.

Portanto, Eva não pôde achar em seu fruto o que também nenhum pecador achará em seu pecado.

Acharemos, no entanto, tudo o que desejamos no fruto da Virgem. Busquemo-lo.

22. — O fruto da Virgem Maria é bendito por Deus, que de tal forma encheu-o de graças que sua simples vinda já nos faz render homenagem a Deus. Bendito seja Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo, declara São Paulo (Ef 1, 3).

O fruto da Virgem é bendito pelos Anjos. O Apocalipse (7, 11) nos mostra os Anjos caindo com a face por terra e adorando o Cristo com seus cantos: O louvor, a glória, a sabedoria, a ação de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus pelos séculos dos séculos. Amém.

O fruto de Maria é também bendito pelos homens: Toda a língua confesse que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai, nos diz o Apóstolo (Fp 2, 11). E o Salmista (Sl 117, 26) o saúda assim: Bendito o que vem em nome do Senhor.

Assim, pois, a Virgem é bendita, porém, bem mais ainda, é o seu fruto.


Fonte: Pai Nosso e Ave Maria – Sermões de Santo Tomás de Aquino. Editora Permanência, Rio de Janeiro, 2003.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A Fé e suas Fontes


Ao iniciar um estudo da doutrina católica, é preciso, antes de tudo, saber de onde nos vem esta doutrina.
Se nossa adesão à Religião Católica deve ser total, irrestrita e amorosa, é preciso que haja na própria Igreja as garantias necessárias para esta adesão tão definitiva. Em outras palavras, só poderemos dar nosso assentimento de fé às verdades católicas quando compreendermos que não se trata de verdades inventadas pelos homens, mas reveladas por Deus.

Essa é a primeira noção importante a conhecer: a Revelação.

Ao criar os homens, em Adão e Eva, Deus formou a natureza humana com certas características próprias, que se encontram em todos os homens. Uma dessas características é o sentimento religioso, natural, horizontal, que nos leva a praticar, de algum modo, um culto a Deus. Assim vemos, desde o início da humanidade, sacrifícios oferecidos, como o de Caim e Abel, como o de Noé, e  de Abraão.

Se é verdade que o povo eleito se forma a partir de Abraão, segundo a promessa feita por Deus a ele, é com Moisés que se estabelece, por revelação divina, uma religião revelada, ensinada e exigida por Deus a seu povo. Já não mais natural e horizontal, mas vertical, divina, vinda de Deus para nós e não apenas de nós para Deus.
Esta Revelação vai dar ao culto um valor novo, que não existia quando este culto era movido apenas pelo sentimento natural de religião. A partir daí, Deus vai exigir do seu povo a realização do culto como ele determinou e vai condenar vigorosamente toda idolatria.
Mais tarde, ao recusar o Messias e crucificá-lo, os judeus rompem com a Revelação, revoltam-se contra Deus e perdem o valor sobrenatural e divino de sua religião. É a Igreja Católica que recebe de Jesus a autoridade para continuar a Revelação.

Revelação pública
Deus falou – o que ele diz só pode ser a Verdade por excelência. Ele não pode errar e não pode nos enganar. O que Deus disse forma o conjunto objetivo de verdades reveladas. É chamada de Revelação pública aquela que foi entregue por Deus aos homens, dando-lhes autoridade para falar em seu nome, através de uma instituição fundada para este fim. Temos assim:
-         Revelação pública particular – é o Antigo Testamento, porque restringia-se ao povo eleito.
-         Revelação pública universal – é o Novo Testamento, porque ensinada para todos os homens pela Igreja.

O ato de Revelação termina com a morte do último Apóstolo. Aos Apóstolos foi entregue, por Jesus Cristo, o depósito Sagrado, para que eles, com sua autoridade divina, pregassem a todos os povos, até os confins da terra. São diversas as passagens dos Evangelhos em que Jesus manifesta esta autoridade da Igreja:
“Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura. O que crer e for batizado será salvo, o que porém não crer, será condenado”. (S. Marcos, 16,16)
“Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja”. (S. Mateus, 16, 18)

Cabe, então, à Igreja Católica, o papel de guardar, pregar e explicitar a verdade revelada.

Este trabalho da Igreja se faz mediante as declarações autorizadas da Igreja. É a isso que se dá o nome de “dogma”.
Dogma é toda verdade revelada por Deus na medida em que ela é proposta pela Igreja para ser crida. E se é verdade que o Depósito da Revelação completa-se com a morte do último Apóstolo, já as explicações, desenvolvimentos e explicitações do que está contido na revelação, continua, sob a autoridade da Igreja e com a assistência do Divino Espírito Santo.
Assim, por exemplo, o dogma da “transubstanciação”. A Igreja, mediante uma palavra revelada por Deus, chega a uma conclusão teológica que, por ser essencialmente unida à revelação, é declarada pela Igreja como dogma de fé. Se fosse possível que a substância do pão não se transformasse na substância do Corpo de Cristo, estaria negada a divindade da Revelação. A nossa adesão ao dogma é, então, a mesma da adesão à Revelação.  Seria um pecado grave contra a fé negar um dogma católico, pois estaríamos negando a própria palavra revelada por Deus.

As Duas Fontes da Revelação – Tradição Divina e Sagrada Escritura
Chamamos de Fonte da Revelação o lugar onde se recolhe, sem possibilidade de erro, a Revelação divina.

- A Tradição divina é a fonte Primária da Revelação.
- A Sagrada Escritura ou Bíblia é a fonte secundária da Revelação.

Tradição = algo transmitido por Deus.

A Divina Tradição é fonte da Revelação porque por ela se conserva e é transmitida pela Igreja, desde os Apóstolos, as verdades e as coisas ensinadas por Deus. Assim, nela está contida a palavra de Deus transmitida.

Ela é chamada fonte primária porque, antes de mais nada e por si só, foi ordenado por Nosso Senhor que fosse transmitida e conservada pela pregação oral. “Ide, pregai este Evangelho”.
“Vos transmiti o que recebi... vos preguei o que recebestes para que não acrediteis em vão... Tal a nossa pregação tal a vossa fé”. (ICor., 15)
A conservação da Divina Tradição só podia ser garantida por Deus, pois aquele que a constitui também a conserva.

Em que consiste a Tradição:

Ela engloba verdades:
-         explicitamente presentes nas Sagradas Escrituras – ex. a divindade de Cristo
-         implicitamente presente nas Sagradas Escrituras – ex. a assunção de Nossa Senhora.
-         não presentes nas Sagradas Escrituras – ex. forma e matéria de alguns sacramentos.

Em que não consiste a Tradição:

-         não é a Tradição apostólica – verdades oriundas dos apóstolos. Ex. certos ritos secundários
-         não é a Tradição eclesiástica – verdades oriundas da pregação da Igreja. Ex. o hábito eclesiástico.

  Devemos constatar a existência de uma Tradição divina, doutrinária e moral, revelada aos homens de modo certo e infalível, por modo de pregação, que sob a responsabilidade de instituições fundadas por Cristo, a Igreja e seu magistério hierárquico, sempre foi transmitida e confirmada, formando um conjunto de documentos dos Apóstolos, dos Papa, dos Concílios, ou ainda, em grau menor, dos Santos Doutores, teólogos, artistas e escritores. Este Depósito Sagrado é garantia da nossa fé e sempre se manteve intacto, até que sofreu os mais rudes ataques, pelos inimigos da Igreja, no Concílio Vaticano II (1962-1965).

sábado, 10 de novembro de 2018

Que é que pedes a Jesus?



Joei era uma menina que as Irmãs de Caridade encontraram abandonada pelos pais às margens do Rio Amarelo da Grande China.

Estava a criancinha a morrer de fome e frio, quando as Irmãs a levaram para o hospital.

Logo que as vestiram e alimentaram, dando-lhe leite quente, começou a pequenina a recobrar a vida e a saúde. Foi batizada e logo brilhou a inteligência em seus olhinhos vivos e começou a conhecer a Deus e a aprender as coisas do céu. Andava já pelos oito anos e gostava de assistir à doutrina com as crianças que se preparavam para a primeira comunhão. Mas a sua memória não acompanhava o seu coração e quando o missionário foi examiná-la, teve que dar-lhe a triste notícia de que não seria admitida à primeira comunhão enquanto não soubesse melhor a doutrina.

Julgava o Padre que essa determinação a deixaria indiferente. Mas não foi assim.

Daquele dia em diante notou-se uma mudança extraordinária no comportamento da menina.

Em lugar de brincar, como antes, com as crianças de sua idade, Joei começou a passar seus recreios na capela aos pés de Jesus.

Um dia, estando Joei diante do Santíssimo, o Padre acercou-se dela devagarinho e ouviu que repetia com freqüência o nome de Jesus.

– Que é que fazeis aí?

– Estou visitando o Santíssimo Sacramento.

– Visitando o Santíssimo!? tu nem sabes quem é o Santíssimo…

– É meu Jesus, respondeu Joei.

– Bem; e que pedes a Jesus?

Então, com as mãos postas e sem levantar a cabeça, com lágrimas nos olhos, respondeu com indizível doçura:

– Peço a Jesus que me dê Jesus.

E a pequena Joei teve licença de fazer sua primeira comunhão.



Fonte: Tesouro de Exemplos – Pe. Francisco Alves
Fotografia: Apenas ilustrativa

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

sábado, 25 de agosto de 2018

São Luís IX, Rei, estadista e cruzado




 "Cada época histórica tem um homem que a representa. Luís IX é o homem modelo da Idade Média: é um legislador, um herói e um santo... Marco Aurélio [Imperador romano pagão] mostrou o poder unido à filosofia; Luís IX, o poder unido à santidade. Avantajou-se o cristão" (Chateaubriand, Estudos históricos).

Não surpreende muito que um homem, retirado num claustro e separado das ocasiões de pecado, domine as inclinações desregradas da natureza e progrida na prática das mais belas virtudes do Cristianismo. Mas que um príncipe, ao qual não se tem a liberdade de repreender nem contradizer, e que vivendo em meio às honrarias e às mais perigosas volúpias, domine suas paixões, conservando a inocência e a pureza de coração, é realmente admirável, podendo ser chamado um prodígio na ordem da graça.

Entretanto, aquilo que é impossível para as forças do homem, não o é para Deus. E se a História do Antigo Testamento nos apresenta muitas cabeças coroadas que souberam aliar a santidade com a autoridade soberana, e a qualidade de profeta à de chefe, de juiz e de rei, a História do Novo Testamento nos fornece um número bem maior em quase todos os reinos cristãos.

Nesse mês, dia 25, a Igreja nos propõe um príncipe, que podemos chamar de pérola dos soberanos, glória da coroa da França, modelo de todos os príncipes cristãos; e para dizer tudo em duas palavras, um Monarca verdadeiramente segundo o coração de Deus, da Igreja e do povo.

É o incomparável São Luís, quadragésimo Rei da França desde o início da monarquia, e o nono da terceira raça, da qual Hugo Capeto foi o tronco.

Seu pai foi Luís VIII, filho de Filipe Augusto, e sua mãe a princesa Branca, de quem os historiadores atribuem a glória de haver sido filha, sobrinha, esposa, irmã e tia de reis. Com efeito, seu pai foi Afonso IX, Rei de Castela, que infligiu aos mouros sério revés na batalha de Navas de Tolosa, quando mais de duzentos mil infiéis pereceram no campo de batalha; era sobrinha dos reis Ricardo e João, da Inglaterra; esposa de Luís VIII, Rei da França; irmã de Henrique, Rei de Castela; mãe de São Luís IX e de Carlos, Rei de Nápoles e da Sicília; e tia, através de suas irmãs Urraca e Berengüela, de Sanches, Rei de Portugal, e de São Fernando III, Rei de Leão.

Nasceu São Luís no Castelo de Poissy, a 30 quilômetros de Paris, no dia 25 de abril de 1215, quando em toda a Cristandade procissões solenes comemoravam o dia de São Marcos. Vivia ainda seu avô, Filipe Augusto, o qual acabava de ganhar a célebre batalha de Bouvines, oito anos antes de lhe suceder seu filho, o futuro Luís VIII.

A infância de São Luís foi um espelho de honestidade e sabedoria. Seu pai, que unia virtude e zelo pela religião a uma bravura marcial que lhe valeu o nome de Leão, foi particularmente zeloso na sua educação. Deu-lhe bons preceptores e um sábio governante: Mateus II de Montmorency, primeiro barão cristão; Guilherme des Barres, Conde de Rochefort; e Clemente de Metz, marechal-da-França, que lhe inspiraram os sentimentos que deve ter um rei cristianíssimo e um filho primogênito da Igreja.

Sua mãe, Branca, não poupou esforços para torná-lo um grande rei e um grande Santo, sobretudo após a morte de seu filho primogênito, Filipe. Ela lhe repetia com freqüência estas palavras, dignas de serem imitadas por toda mãe verdadeiramente católica: "Meu filho, eu gostaria muito mais ver-te na sepultura, do que maculado por um só pecado mortal".

Com a morte prematura do Rei aos 40 anos, em 1226, na cidade de Montpellier, quando voltava da guerra contra os hereges albigenses, nosso Santo subiu ao trono, sob a tutela da mãe, tendo sido sagrado na Catedral de Reims em 30 de novembro daquele mesmo ano.

Sua minoridade foi pródiga em guerras intestinas, causadas pela ambição e orgulho de senhores feudais do reino, que desejavam valer-se da pouca idade do soberano para impor as suas pretensões. Mas Deus dissipou todas as facções por uma proteção visível sobre a pessoa sagrada desse jovem Monarca.

Uma minoridade tão conturbada serviu de ocasião para fazer reluzir a prudência, o valor e a bondade daquele que se tornaria um protótipo do Rei Católico.

Matrimônio abençoado por Deus

No dia 27 de maio de 1235, pouco depois de completar 20 anos, casou-se com Margarida, filha mais velha de Raimundo Béranger, Conde de Provence e de Forcalquier, e de Beatriz de Sabóia. Era uma princesa que a graça e a natureza haviam dotado de toda sorte de perfeições, e que lhe daria, ao longo de uma santa e harmoniosa existência, 10 filhos, cinco homens e cinco mulheres. Acompanhou ela o jovem esposo na sua primeira expedição além-mar, e após a morte deste, retirou-se no Mosteiro de Santa Clara, onde terminou seus dias em 20 de dezembro de 1285. Seu corpo, precedido e seguido por pobres, que a chamavam de mãe, foi enterrado em Saint-Denis.

Luís IX procurava acima de tudo tributar a Deus o serviço e a honra que Lhe eram devidos. Este lhe retribuía assistindo-o em todas as necessidades, aconselhando-o nos empreendimentos, protegendo-o dos inimigos e conduzindo a bom termo todas as suas iniciativas.

O segundo de seus filhos varões foi Filipe III, que lhe sucedeu no trono, e cujos filhos foram, por sua vez, Reis, até Henrique III. O caçula de São Luís foi Roberto de Bourbon, cuja descendência subiu ao trono francês durante nove gerações. Das filhas, com exceção de uma, falecida prematuramente, todas foram esposas de Reis.

Educação cristã dos filhos: modelo de pai

Ao contrário de outros Monarcas, que negligenciam a educação dos filhos, ou os deixam, sem maior preocupação, aos cuidados de governantes, São Luís chamava pessoalmente a si o cuidado de os instruir, imprimindo-lhes na alma o desprezo pelos prazeres e vaidades do mundo e o amor pelo soberano Criador. Ele os exercitava normalmente à noite, após as horas Completas, quando os fazia vir a seu quarto a fim de ouvir as suas piedosas exortações. Ensinava-lhes, além disso, a rezar diariamente o Pequeno Ofício de Nossa Senhora, obrigava-os a assistir às Missas de preceito, e incutia-lhes a necessidade da mortificação e da penitência. ±s sextas-feiras, por exemplo, não permitia que portassem qualquer ornamento na cabeça, porque foi o dia da coroação de espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ainda hoje existem os manuscritos das instruções por ele deixadas à sua filha Isabel, Rainha da Navarra: são tão santas e cheias do espírito de Nosso Senhor, que nenhum diretor espiritual, por mais esclarecido que seja, seria capaz de apresentar outras mais excelentes.

O governante: justiceiro e moralizador dos costumes

Se São Luís soube educar tão bem os filhos, foi entretanto ainda mais admirável em governar os negócios públicos. Nunca a França experimentou tanta paz e prosperidade como em sua época. Enquanto as outras nações, em todas as latitudes, estavam em convulsão, os franceses por ele governados gozavam de uma feliz tranqüilidade, assegurada pela sabedoria do Monarca. Ele soube banir do Estado, através de sábias leis, todos os desregramentos então existentes. O primeiro deles foi a blasfêmia e os juramentos ímpios e execráveis. Foram tão rigorosas as punições contra eles estipulados, que o Papa Clemente IV julgou dever atenuá-las.
Outros desregramentos que se esforçou em exterminar foram os duelos, os jogos de azar e a freqüentação a lugares de tolerância. Antes de São Luís, nenhum Rei havia proibido os duelos: toleravam-no, e às vezes o ordenavam, a fim de se conhecer o direito das partes; o que importava meio enganoso e contrário aos preceitos da justiça.

Modelo em tudo para os homens públicos de todos os tempos e sobretudo de nossos dias, Luís IX o era de modo especial no tocante à boa administração dos bens do Estado e ao exímio cumprimento da lei. Assim, por exemplo, quando enviava juízes, oficiais e outros emissários às províncias para ali exercerem durante algum tempo Justiça, proibia-lhes de adquirir bens e empregar seus filhos, com receio de que isso pudesse ensejar a que viessem cometer injustiças.

Nomeava, acima deles, juízes extraordinários para examinar sua conduta e rever seus julgamentos, a exemplo de Deus, que assegura que julgará a Justiça. E se por acaso encontrava que em algo haviam agido mal, impunha-se primeiramente a si mesmo uma severa penitência, como se tivesse sido o culpado pelo excesso praticado por eles, e em seguida ministrava-lhes severa punição, obrigando-os a restituir o que haviam tomado do povo, se fosse esse o caso, ou a reparar aqueles que haviam sido condenados injustamente. Pelo contrário, quando tomava conhecimento de que haviam cumprido dignamente os seus deveres, recompensava-os regiamente e os fazia ascender a funções mais honrosas.

Além de administrar Justiça, não negligenciava o Santo Monarca o cuidado dos pobres.

Zelo pela ortodoxia e piedade

Se foi notório seu zelo em extirpar a libertinagem no reino de França, o que dizer de seu empenho em relação ao extermínio da heresia e ao estabelecimento da Fé e da disciplina cristã? Para isso tomou-se de grande afeição pelos religiosos de São Domingos e de São Francisco, a quem ele via como instrumentos sagrados dos quais a Providência queria se servir para a salvação de uma infinidade de almas resgatadas pelo precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele os convidava com certa freqüência para jantar, sobretudo São Tomás de Aquino e São Boaventura, dois luzeiros a iluminar o firmamento da Santa Igreja a partir da Idade Média.

Um dos traços em que a religiosidade desse grande Monarca mais se manifestou foi a aquisição, junto a Balduíno II, Imperador de Constantinopla, da Coroa de Espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a qual mandou edificar essa verdadeira maravilha da arquitetura gótica que é a Sainte-Chapelle, na Île de la Cité, no coração de Paris.

Voto de cruzar-se: realiza-se a VI Cruzada

Deus, quando suscita numa alma um grande desejo, fá-la não raro passar por uma grande provação antes de atendê-la. Foi o que sucedeu com São Luís, que em 1245 caiu gravemente enfermo, a ponto de alguns terem como certa sua morte. Nessa contingência os franceses, que o amavam como a um pai, fizeram violência ao Céu, organizando vigílias, procissões e outros atos de piedade pela sua convalescença. O Monarca fez então um voto: caso sobrevivesse, partiria para libertar o Santo Sepulcro.

Cumpriu-o três anos depois, ao partir para Lyon, onde se encontrou com o Papa Inocente IV, de quem recebeu a bênção apostólica. Dirigiu-se em seguida para Aigues-Mortes, onde o aguardavam as embarcações que deveriam conduzi-lo com os cruzados ao Oriente. Era o dia 25 de agosto de 1248, data em que se iniciava a VI Cruzada da História.

As naus tocaram inicialmente a Ilha de Chipre, onde o Monarca se viu obrigado a permanecer durante o inverno, devido a uma peste que arrebatou a sexta parte de seu exército. Sua demora e essas perdas foram contudo de algum modo recompensadas pela conquista do Rei de Chipre, a quem São Luís conseguiu convencer de juntar-se à expedição.

Reencetou o Santo Cruzado a sua expedição no dia 13 de maio de 1249, à frente de uma formidável armada de 1800 embarcações, grandes e pequenas. Entretanto, devido às tempestades, mais da metade delas desviou-se da rota. De sorte que, ao passar em revista suas tropas, encontrou apenas 700 cavaleiros, dos 2800 de que se compunha seu exército.

De batalha em batalha; vitorioso numas e com reveses em outras; passando por humilhações pelos pecados de seus soldados ou por honrarias em pleno cativeiro (os emires do Egito quiseram elegê-lo Sultão!); sendo informado do nascimento de um dos filhos em Damiette, em plena época de negociação com os algozes, e do falecimento de sua bondosa mãe, a Rainha Branca, na França; enfrentando pestes e naufrágios, retomou o Rei-Cruzado, em 25 de abril de 1254, festa de São Marcos, o caminho da doce França, onde aportou no dia 19 de julho do mesmo ano. Em 5 de setembro encontrava-se no Castelo de Vincennes, e no dia seguinte entrava solenemente em Paris.

Seu regresso foi acolhido com eloqüentes manifestações de dileção do Papa Clemente IV e de Henrique III, Rei da Inglaterra.

Provações e santa morte do Rei Cruzado

Decidiu então o Santo lançar uma VII Cruzada, a última da História, para a qual se apresentaram seus filhos e Ricardo, Rei da Inglaterra, além de numerosos príncipes e senhores. Após terem sido tomadas todas as providências, partiram em direção a Túnis, no dia 4 de julho de 1270.

Mais uma vez no mar, e eis que outra grande tempestade dispersa as embarcações, fazendo com que muitas sejam impedidas de partir. São entretanto reparadas e chegam todas a Túnis. Mas o rei daquelas terras, bárbaro, traidor e infiel, que havia chamado São Luís à ≡frica dizendo que queria tornar-se cristão, sequer permitiu que sua armada descesse. O embate começou então ali mesmo, com os franceses assediando vários pontos nevrálgicos dos infiéis e a própria capital. Como esta resistisse, decidiram dominá-la cortando os víveres.

Mas a decomposição da cidade atingiu o exército francês, que foi logo empestado por todos os lados, ceifando inúmeras vidas. São Luís viu morrer seu filho Jean Tristan, nascido por ocasião do seu cativeiro no Egito, e pouco depois ele mesmo entregaria serena e santamente sua bela alma a Deus, o que se deu no dia 25 de agosto de 1270, precisamente 22 anos após sua partida para a VI Cruzada.

As relíquias de São Luís foram levadas para a França por seu filho Filipe, com exceção das entranhas, destinadas à Abadia de Montréal, na Sicília, a pedido do Rei Carlos, irmão do Santo Monarca. O resto de seu corpo repousa na Abadia de Saint-Denis. Seu culto foi juridicamente examinado e aprovado pelo Papa Bonifácio VIII, que o canonizou em 1297.


Créditos à Hélio Viana
Referência: Les Petits Bollandistes, Vie des Saints, Typographie des Célestins, ancienne Maison L. Guérin, 1874, t. V, p. 192 a 217, Bar-le-Duc.
Fonte: Revista Catolicismo | Agosto de 1998
Ilustração: Essa pintura que retrata o Rei Luís de França está na Catedral de Monreale (Duomo di Monreale, em italiano). Está em uma capela que foi criada em 1270 para guardar os restos mortais de São Luís de França e do cardeal Raoul Grosparmi, bispo de Albano. Filipe III da França ordenou a transferência dos restos mortais de seu pai para a catedral da basílica de Saint Denis. Na capela do altar que abrigava o enterro permanece uma urna contendo o coração e as entranhas de São Luís de França. Para pagar o favor recebido, o rei doou à catedral um relicário contendo um "Espinho Sagrado" pertencente à Coroa de Espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

terça-feira, 26 de junho de 2018

São Pelayo, mártir

Retábulo da capela consagrada a São Pelayo
Catedral de Córdoba

Pelayo, nascido em 911 em Albeos, Crecente (Galiza) vivendo, na primeira flor dos seus anos, como outro Tobias, temente a Deus, mereceu ser feito vítima de Cristo. Teve ele excelente criação, em casa do bispo de Tuy, Hermógio, seu tio. Entrou naquele tempo Abderramen, rei de Córdova, III do nome, com um poderoso exército pelas terras dos cristãos, abrasando-as como se fosse um raio. E, não podendo D. Sancho Abarca resistir-lhe, pela desigualdade de forças, chamou em seu socorro a el-rei de Leão D. Ordonho II, contra este comum inimigo. Veio logo em pessoa com grande cópia de soldados, e entre eles dois zelosos bispos para animar os cristãos, Dulcídio, de Salamanca, e Hermógio, de Tuy. Porém, como os sucessos da guerra são vários e dependem do Senhor dos exércitos, declarou-se a vitória por Abderramen, que, usando de todo o gênero de hostilidade com os vencidos, voltou para Córdova rico de despojos e cativos. Um destes foi o bispo Hermógio, que, fechado e maltratado em duríssima masmorra, ofereceu por resgate alguns mouros de seu serviço, que escusava. Aceitou el-rei o partido, e o deu por livre, contanto que deixasse reféns para segurança da dívida. E assim lhe deu a Pelayo, seu sobrinho, que era a melhor jóia que tinha, menino com quase dez anos. O qual se foi logo para o cárcere, não para viver como preso, mas para o santificar, como José em tempo de Faraó, com sua angélica presença. Ali guardava pureza na alma e no corpo, grande honestidade e modéstia, vivendo sempre mui ajustado com a Lei Divina. Fazia calar aos infiéis, se tocavam matérias de religião, e envergonhando-os e confundindo-os com a verdade da católica doutrina. Mas estes, admirados da sua gentileza, julgaram que era alvitre para o seu rei (escravo dos infames vícios da carne) a oferta daquele inocentezinho. Mandou logo levá-lo à sua presença. Para este intento, o vestiram ricamente, ajudando a formosura natural com a artificial, para que deste modo fizesse mais cobiça ao torpe Abderramen. Por estes passos chegou Pelayo aos da morte, que pudera acreditar mil vidas, quando fossem mais largas e menos ilustre que a sua. Entrou o exemplar da castidade na câmara real; e logo, pelas carícias e promessas do bárbaro, conheceu o depravado de seus intentos, e firmou seu coração com uma determinação imortal de envidar todo o resto da sua vida, a troco de não perder a graça de Deus. Começou o rei com razões a querer persuadir-lhe que deixasse a Lei de Cristo pela sua; mas respondeu a todas mais do que prometia a sua idade, porque nas virtudes, que são a da alma, era já provecto. Chegou-se a ele o bárbaro, e começou a pôr-lhe as mãos pelo rosto, e o quis abraçar e dar-lhe ósculos. Levantou o menino a mão, e deu-lhe uma grande punhada na boca, dizendo: Aparta, perro (cão); aparta teu rosto do meu; cuidas que sou algum dos teus afeminados rapazes, com que te desenfadas? E logo rasgou as vestiduras preciosas, ficando mais desembaraçado para a luta que esperava. Neste tempo estava Abderramen já tão cego e empenhado na afeição lasciva que as afrontas e desprezos de Pelayo não foram bastantes para mudar de intento. Pelo que mandou a seus criados que com afagos, branduras e promessas procurassem atraí-lo à seita de Mafoma e rendê-lo à sua vontade lasciva. Durou a porfia muito tempo, porém não serviu senão de fortalecer o ânimo do menino, com grande indignação e pena do rei, quando soube da sua constância. Pelo que, trocado o amor falso em ódio verdadeiro, o mandou atenazar vivo,confiado que tão frágil corpozinho não poderia sustentar tão cruéis tormentos, e que, uma vez deixada a Lei de Cristo, logo não faria melindre de conservar a castidade. Executou-se o ímpio mandato, com tanta crueldade que em breve aquela cândida açucena com o nácar de seu sangue ficou encarnada rosa. E, porque o martírio não o faz a pena senão a causa, publicou este em altas vozes: Cristão sou, e servo indigno de Jesus Cristo, cuja Lei confessarei eternamente, sem haver coisa na vida que dela me aparte um instante. Dada conta a el-rei do que passava, mandou-lhe cortar os membros, um por um, para que o tormento fosse mais prolongado. 




Os algozes arremeteram então àquele cordeirinho como lobos famintos, fazendo nele tal carniçaria que mais pareciam feras do que homens, ou mais demônios que feras. Levantando o menino as mãos para o céu, onde tinha o coração, para oferecer a Deus sacrifício de si mesmo, e impetrar fortaleza para o consumar, lhas derrubaram logo a golpe de alfange. 



E após isto lhe deceparam os braços e pernas, e ultimamente a cabeça, durando a batalha mais de seis horas, em que sempre invocava a Jesus Cristo, de cujo braço omnipotente lhe veio a invencível fortaleza contra tão atrozes tormentos. Suas preciosas relíquias, lançadas pelos tiranos nas correntes do Guadalquibir, as santificaram, até que a piedade e industria dos fiéis as tirou do profundo, e lhes deu honroso depósito na igreja de S. Ginês; e a cabeça se colocou na cabeça de S. Cipriano, com a solenidade possível. E foi tão célebre o triunfo deste santo menino português que logo a fama estendeu pelo mundo as suas asas, de sorte que o celebrou no coração da Alemanha a laureada poetisa Roswita, freira beneditina de ilustre sangue e engenho; e festejam o dia desta vitória (que foi a 26 de junho) muitas igrejas em Espanha, especialmente as que são consagradas a seu nome em Castela, Galiza e Portugal, onde os naturais tomam o seu nome.

Urna que contém os restos mortais de São Pelayo
Monasterio de San Pelayo (Oviedo - Espanha)



Fonte: Capela Santa Maria das Vitórias
Obs: Fiz algumas alterações no texto, como por exemplo o nome do santo. O autor menciona Paio, porém preferi manter o nome em espanhol: Pelayo.

sábado, 23 de junho de 2018

São José Cafasso,confessor.



São José Cafasso: diretor espiritual e mestre de Dom Bosco

Trabalhando sem nenhum alarde, o Pe. Cafasso realizou um extraordinário apostolado ao combater os erros da época; constituiu-se num esteio para a formação dos sacerdotes

por Plinio Maria Solimeo

José Cafasso nasceu em Castelnuovo d’Asti (hoje Castelnuovo Dom Bosco) em 1811. Uma sua irmã foi mãe de outro santo, São José Alamano, fundador da comunidade dos Padres da Consolata.

Desde pequeno José era chamado pelos seus concidadãos de il Santeto, por causa de sua atração para a virtude e coisas santas.

Aos 16 anos entrou para o seminário e vestiu por primeira vez a sotaina. Assim o descreve Dom Bosco, que o encontrou nessa idade: “De pequena estatura, olhos brilhantes, ar afável e rosto angelical”.

Providencial encontro com São João Bosco

Dom Bosco o viu na porta da igreja de sua cidade, durante uma quermesse, e impressionado com a aparência do jovem seminarista, quis conversar com ele. Propôs-se então a mostrar-lhe algum dos espetáculos da feira. E narra deste modo o episódio:

“[José Cafasso] fez-me um sinal para eu me aproximar, e começou a perguntar-me minha idade, meus estudos; se havia já recebido a Primeira Comunhão; com que freqüência me confessava; aonde ia ao catecismo, e coisas semelhantes. Fiquei como encantado ante aquela maneira edificante de falar; respondi com gosto a todas as suas perguntas; depois, quase como para agradecer sua afabilidade, repeti meu oferecimento de acompanhá-lo a visitar qualquer espetáculo ou novidade.

— Querido amigo — disse ele —, os espetáculos dos sacerdotes são as funções da igreja; quanto mais devotamente se celebrem, tanto mais se tornam agradáveis. Nossas novidades são as práticas da Religião, que são sempre novas, e por isso é necessário freqüentá-las com assiduidade; eu só estou esperando que abram a igreja para poder entrar.

Animei-me a seguir a conversação, e acrescentei:

— É verdade o que o Sr. diz; mas há tempo para tudo: tempo para a igreja e tempo para divertir-se.

Ele pôs-se a rir, e terminou com estas memoráveis palavras, que foram como o programa das ações de toda sua vida:

— Quem abraça o estado eclesiástico entrega-se ao Senhor, e nada de quanto teve no mundo deve preocupá-lo, mas sim aquilo que pode servir para a glória de Deus e proveito das almas”.(1)

No Convitto (internato) São Francisco de Assis

José Cafasso era ótimo estudante, e precisou pedir dispensa para ser ordenado mais cedo do que o normal, aos 21 anos de idade, em setembro de 1933. Em vez de aceitar inúmeros convites de paróquias, quis aprofundar seus estudos no Convitto (internato) eclesiástico São Francisco de Assis, de Turim. Nessa espécie de academia eclesiástica ele passou alguns anos de intensa formação intelectual e espiritual, sendo nomeado professor da cátedra de moral. Trabalhou junto ao Cônego Guala, um dos fundadores do estabelecimento e seu reitor. Seu programa era santificar-se cada vez mais e auxiliar os outros para que também se santificassem. Todos admiravam nele esse empenho para em tudo procurar a maior glória de Deus e a santificação própria e dos outros.

Ao morrer o Cônego Guala, José foi aclamado por unanimidade para substituí-lo, e manteve esse cargo durante 12 anos, isto é, até sua morte. Propôs-se como modelos São Francisco de Sales e São Felipe Néri.  Muitos diziam que, na jovialidade e uniformidade de espírito, ele muito se assemelhava a esses santos.

Combate ao jansenismo e ao rigorismo

O Padre Cafasso combateu tenazmente duas filosofias que haviam então penetrado na Itália: uma defendia que só a pessoa muito santa deveria aproximar-se dos sacramentos, principalmente da Eucaristia (jansenismo); e outra se centrava mais na justiça de Deus, quase abstraindo de sua misericórdia, sem procurar ver o equilíbrio existente entre esses dois atributos divinos (rigorismo). O Papa Pio XI, por ocasião do decreto De tuto para a beatificação de José Cafasso,  assinado em 1º de novembro de 1924), afirmou: “Bem depressa logrou Cafasso sentar praça de mestre nas fileiras do jovem clero, inflamado de caridade e radiante de saníssimas idéias, disposto a opor aos males do tempo os oportunos remédios. Contra o jansenismo, levantava um espírito de suave confiança na divina bondade; frente ao rigorismo, colocava uma atitude de justa facilidade e bondade paterna no exercício do ministério; desbancava por fim o regalismo, com uma dignidade soberana e uma consciência respeitosa para com as leis justas e as autoridades legítimas, sem claudicar jamais, antes bem dominado e conduzido pela perfeita observância dos direitos de Deus e das almas, pela devoção inviolável à Santa Sé e ao Pontífice Supremo, e pelo amor filial à Santa Madre Igreja”.(2)

Para contrapor-se ao jansenismo e ao rigorismo, ele apresentava a Religião sob seus mais belos aspectos, concebida como um exercício de amor a um Deus de bondade e misericórdia, que padeceu e morreu para nos salvar. Sem descuidar as verdades essenciais, ele punha o acento naquelas mais belas e acessíveis ao comum dos cristãos, para que praticassem as virtudes. Como se vê, utilizava a tática religiosa preconizada séculos antes por Santo Inácio de Loyola, do agere contra, isto é, agir sempre contra os erros e vícios da época.

Levava seus alunos sacerdotes para visitar os cárceres e os bairros mais pobres da cidade, a fim de despertar neles uma grande sensibilidade para com os deserdados da fortuna.

Amigo e protetor de Dom Bosco

Quando São João Bosco estava ainda no seminário e não podia prosseguir seus estudos por falta de recursos, o Pe. Cafasso pagou-lhe meia bolsa e obteve dos dirigentes do seminário facilitar-lhe a outra metade, servindo o jovem seminarista como sacristão, remendão e barbeiro. E quando ele se ordenou, custeou-lhe o curso no Convitto para sua pós-graduação.

Depois ajudou-o em seu apostolado com os meninos, e, mesmo quando todos abandonaram Dom Bosco, continuou seu acérrimo defensor. Ajudou-o também na recém-fundada Sociedade Salesiana, sendo considerado pelos salesianos um dos seus maiores benfeitores.

Assistência aos condenados na hora da morte

Turim era a capital do Reino da Sabóia e uma cidade em grande desenvolvimento, atraindo toda espécie de aventureiros. Em conseqüência, os cárceres estavam cheios de criminosos de toda ordem, abandonados por todos. Esse foi um dos campos de apostolado preferido por Dom Cafasso. Ele entregava aos prisioneiros roupa, comida, material de asseio e outras coisas. Ia visitá-los, e com paciência e doçura acabava fazendo com que muitos se confessassem e começassem a levar uma vida mais decente. Sua visita semanal era esperada com sofreguidão por aqueles párias da sociedade. Muito diferente dos que hoje pregam os “direitos humanos” dos bandidos, que não buscam a conversão dos mesmos, mas apenas proporcionar-lhes regalias humanas, mantendo-os na mentalidade criminosa.


O maior e mais heróico apostolado exercido por José Cafasso era com os condenados à morte. Quando um criminoso recebia a sentença de morte, o sacerdote preparava-o nos dias que a antecediam, para converter-se e confessar-se, e depois o acompanhava até o lugar do suplício, incutindo-lhe religiosos sentimentos. De 68 condenados que ele acompanhou assim até o derradeiro suplício, nenhum morreu sem confessar-se e mostrar-se verdadeiramente arrependido.

Quando o criminoso ouvia a pena de morte, geralmente exclamava: “Que o Padre Cafasso esteja a meu lado na hora da morte, é o meu último desejo”. Chamavam-no mesmo de outras cidades, para esse benemérito apostolado. Hoje em dia, onde estão os criminosos que pedem assistência espiritual e os bons sacerdotes que queiram dá-la? Como decaímos!

Certo dia o Pe. Cafasso levou Dom Bosco, ainda jovem sacerdote, em uma dessas visitas. Este, só ao ver a forca, caiu desmaiado...(3) O que mostra o domínio que Dom Cafasso deveria ter sobre si mesmo para familiarizar-se com tão difícil apostolado. Mas então tratava-se de salvar uma alma no último momento, e isso bastava para dar-lhe forças.

“Pai dos pobres, conselheiro dos vacilantes”

Um dom que José Cafasso recebeu em alto grau foi o da prudência. À sua porta batiam desde altos eclesiásticos até gente miúda do povinho, à procura de um conselho para resolver situações delicadas. E ele sempre tinha a palavra exata, o conselho certo, a solução definitiva.

Outras qualidades que nele sobressaíam de maneira especial eram sua tranqüilidade imutável e exemplar paciência. No rosto, tinha sempre um sorriso amável para atender as pessoas. Como ele era muito baixo, diziam: “É pequeno de corpo, mas um gigante no espírito”.

São João Bosco, na biografia que escreveu de São José Cafasso, seu diretor e mestre, destaca várias facetas de sua múltipla atividade: “Pai dos pobres, conselheiro dos vacilantes, consolador dos enfermos, auxílio dos agonizantes, alívio dos encarcerados, salvação dos condenados à morte”.(4)

A devoção do Padre Cafasso à Santíssima Virgem era fora do comum. Ele a nutria desde pequeno e falava d’Ela com entusiasmo. Dedicava os sábados em sua honra, e não havia o que se lhe pedisse num desses dias ou em alguma festa de Nossa Senhora, que ele não atendesse.

Três amores: Eucaristia, Nossa Senhora, Papado

Ele dizia constantemente que tinha três amores: a Jesus Sacramentado, à Santíssima Virgem e ao Papa.(5) Esta afirmação era tanto mais importante numa época em que o Papa estava sendo despojado dos Estados Pontifícios.

Num de seus sermões sobre Nossa Senhora, Dom José Cafasso exclamou arrebatado: “Que feliz dita a de morrer num sábado, dia da Virgem, para ser levado por Ela ao Céu!”. Realmente, essa foi a graça que ele obteve, falecendo no sábado, 23 de junho de 1860, aos 49 anos de idade.

José Cafasso foi beatificado por Pio XI em 3 de maio de 1925, e canonizado por Pio XII em 22 de junho de 1947.

E-mail do autor: pmsolimeo@catolicismo.com.br

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NOTAS:

1. São João Bosco, Biografía y Escritos de San Juan Bosco, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 1955, Memorias del Oratorio, p. 97.

2. Giuseppe Usseglio, S.D.B. www.mercaba.org/Santoral/Junio/23-2.htm

3. www.iglesiapotosina.org/admon/santoral/santostodos.cfm?id_santo=332

4. Giuseppe Usseglio, S.D.B., site citado.

5. www.serviciocatolico.com/liturgia%20y%20santoral/santoral/junio/23dejuni.htm



Fonte: Revista Catolicismo | Junho de 2004