terça-feira, 12 de junho de 2018

O fim do Sacerdócio



I
O Sacerdócio, aos olhos dos santos, é um encargo terrível

Dizia S. Clemente de Alexandria que os que estavam verdadeiramente animados do Espírito de Deus, se encontravam possuídos de temor ao receberem o sacerdócio, como um homem que treme à vista dum fardo enorme, que lhe vão lançar sobre os ombros, com perigo de ele ficar esmagado72. Santo Efrém nos diz que não encontrava ninguém que quisesse ser ordenado de presbítero (Ep. ad Joan. hieros.). Um concílio de Cartago decretou que os que fossem julgados dignos do sacerdócio e o recusassem, podiam ser obrigados a deixar-se ordenar. “Ninguém, dizia S. Gregório de Nazianzo, recebe de boa vontade o sacerdócio”73. Refere o diácono Pôncio que S. Cipriano, ao saber que o queriam ordenar sacerdote, correra a esconder-se por humildade: Humiliter secessit (Vita S. Cypr.). O mesmo fez, por igual motivo, S. Fulgêncio. Prevendo que ia ser eleito, correu a esconder-se num lugar desconhecido74. Refere Sozomeno que também Sto. Atanásio fugira para não ser elevado ao sacerdócio. Santo Ambrósio fez grandes resistências, como ele próprio afirma75. S. Gregório procurou disfarçar-se em trajo de negociante para escapar à ordenação, apesar de Deus ter mostrado por milagres que o chamava à ordenação.

Para não ser ordenado, Sto. Efrém se apresentou como insensato e S. Marco cortou o dedo polegar. O mesmo motivo levou Sto. Amon a cortar as orelhas e o nariz; e, como apesar disso o povo insistia em o fazer ordenar, fez-lhe a ameaça de cortar também a língua; então cessaram de o perseguir.

É sabido que S. Francisco, ordenado diácono, não quis receber o presbiterato, porque uma visão lhe tinha revelado que a alma do padre deve ser pura como a água, que lhe fôra mostrada num vaso de cristal. Do mesmo modo o abade Teodoro não era senão diácono, e todavia nunca quis exercer as funções da sua Ordem, porque um dia ao fazer a oração viu uma coluna de fogo e foi-lhe dito: “Se tens o coração inflamado como esta chama, então exerce a tua Ordem”. O abade Motuès era sacerdote, mas não quis celebrar, porque se julgava indigno disso.

Antigamente, entre os monges, cuja vida era tão austera, poucos se encontravam que fossem sacerdotes. Aos olhos deles, aspirar ao sacerdócio era presunção. Por isso S. Basílio, querendo experimentar a obediência dum monge, mandou-lhe que pedisse publicamente o presbiterato; o que foi olhado como um ato de obediência; porque, fazendo um tal pedido, o religioso expunha-se a passar por um grande orgulhoso.

Mas, enquanto os santos, que só vivem para Deus, têm tanta repugnância em receber as Ordens e se crêem indignos delas, — como é que tantos correm às cegas para o sacerdócio e não descansam até que lá cheguem, por caminhos direitos ou tortos? Ai, exclama S. Bernardo, esses são para lamentar; porque, para eles, o estarem no número dos sacerdotes será o mesmo que estarem inscritos na lista dos condenados!

Porquê? Porque de todos esses padres apenas haverá algum que tenha sido chamado por Deus. O que os impediu para o santuário foi o interesse, a ambição, a influência dos pais, e assim não se ordenam para o fim que o sacerdote deve ter em vista, mas para os fins perversos do mundo. Por isso os povos permanecem ao abandono e a Igreja desonrada. Tantas almas se perdem, ao mesmo tempo que tais padres se afundam na ignomínia!

II
O fim do sacerdócio

Quer Deus que todos os homens cheguem a salvar-se, mas nem todos pelos mesmos caminhos: assim como no Céu há diversos graus de glória, também na terra há diversos estados, que assinalam outros tantos caminhos diferentes para ir para o Céu. Entre esses estados, o mais nobre, o mais sublime, que se pode chamar o estado por excelência, é o estado sacerdotal, em razão dos fins altíssimos para que foi estabelecido.

Quais esses fins? Só celebrar missa, recitar o ofício, e viver depois como os seculares? Não, por certo; o fim que Deus se propôs foi estabelecer na terra pessoas públicas, encarregadas de tudo quanto respeita à honra da sua divina majestade e à salvação das almas76: Porque todo o Pontífice, escolhido dentre os homens, é estabelecido o favor dos homens, para exercer as funções do culto para com Deus, e oferecer dons e sacrifícios pelos pecados; deve saber compadecer-se dos que pecam por ignorância77. Assim fala S. Paulo, e o Sábio diz de Aarão que ele fôra escolhido, para desempenhar funções sacerdotais e louvor ao nome de Deus78. Foi assim que o cardeal Hugues aplicou as palavras: Habere laudem. E Cornélio A-Lápide ajunta: Assim como o ofício dos anjos é louvar incessantemente a Deus no Céu, assim o dos sacerdotes é louvá-lo constantemente na terra79.

Estabeleceu Jesus Cristo os padres como cooperadores seus para glória de seu eterno Pai e salvação das almas; por isso ao subir ao Céu declarou que os deixava em seu lugar, para continuarem a obra da redenção, que tinha empreendido e consumado. Conforme a expressão de Sto. Ambrósio80, assim que os constituiu delegados do seu amor. O Salvador disse a seus discípulos: Conforme meu Pai me enviou, assim Eu vos envio a vós81; deixovos, para que façais o que eu próprio vim fazer à terra, isto é, para que manifesteis aos homens o nome de meu Pai.

Dirigindo-se a seu Padre eterno, tinha Ele dito: Glorifiquei-vos na terra; a minha obra está consumada... fiz conhecer o vosso nome aos homens82. Depois tinha orado pelos seus sacerdotes nestes termos: Confiei-lhes a vossa palavra... Santificai-os na verdade!... Assim como vós me enviastes ao mundo, assim Eu os enviei83. Portanto os padres estão colocados neste mundo para fazerem conhecer a Deus: as suas perfeições, a sua justiça, a sua
misericórdia, os seus preceitos, e para lhe conciliarem o respeito, obediência e amor que lhe são devidos. Estão encarregados de procurar as ovelhas desgarradas, e dar a vida por elas, se necessário for. Tal o fim para que Jesus Cristo veio à terra, e instituiu os sacerdotes84.

III
Principais deveres do padre

O próprio Jesus Cristo diz que viera ao mundo para acender o fogo do amor divino85. Eis ao que o padre deve consagrar toda a sua vida e todas as suas forças. Não tem que trabalhar em adquirir tesouros, honras e bens terrenos, mas unicamente em ver a Deus amado de todos os homens. Somos chamadas por Jesus Cristo, diz o autor da Obra imperfeita, não a procurar os nossos próprios interesses, mas a glória de Deus... O amor verdadeiro não se procura a si próprio; deseja em tudo andar à vontade do amado86. Na antiga Lei disse o Senhor: Separei vos de todos os povos, para que fôsseis meus87. Considerai estas palavras como dirigidas aos padres: Para que sejais meus, inteiramente aplicados aos meus louvores, ao meu serviço e ao meu amor; e, segundo S. Pedro Damião, para que sejais os cooperadores e dispensadores dos meus sacramentos88; e segundo Sto Ambrósio: Para serdes os guias e pastores do rebanho de Jesus Cristo89. Acrescenta o santo Doutor que o ministro dos altares não é mais seu mas de Deus90. O próprio Senhor diz que separa dos outros homens os padres, para os ter inteiramente unidos a si91.

O divino Mestre disse: Se alguém me está associado, que me siga; = Si quis mihi ministrat, me sequatur (Jo. 12, 26). Para seguir a Jesus Cristo, deve o padre fugir do mundo, socorrer as almas, fazer amar a Deus, declarar guerra ao pecado. Deve olhar como feitas a si as injúrias contra Deus: Caíram sobre mim os ultrajes dos que vos ofendem92. Entregues aos negócios do mundo, não podem os leigos render a Deus o tributo de homenagem e reconhecimento que lhe é devido; por isso, diz um sábio autor, o Pe. Frassen, é necessário escolher dentre os outros homens alguns que, pelo seu próprio estado, sejam obrigados a prestar ao Senhor a honra que lhe pertence93.

Em todas as cortes dos soberanos, há ministros encarregados de fazer observar as leis, remover os escândalos, reprimir os sediciosos e defender a honra do rei. Foi para os mesmos fins que o Senhor estabeleceu os sacerdotes: são oficiais da sua corte. Isto fez dizer a S. Paulo: Mostremo-nos verdadeiros ministros de Deus94. Estão os ministros sempre atentos a conciliar ao seu soberano o respeito que lhe é devido, e engrandecer a sua glória. Falam dele com veneração; se alguém o censura, logo o defendem com zelo; procuram adivinhar-lhe os desejos, e até expõem a vida para lhe agradar.

É assim que procedem os padres para com Deus? Não há dúvida que são ministros seus; é pelas suas mãos que passam e são tratados os negócios que interessam à sua glória. É por intermédio deles que devem ser tirados do mundo os pecados, — fim para que que Jesus Cristo quis morrer, diz S. Paulo95. Mas, no dia do juízo, como serão reconhecidos por verdadeiros ministros de Jesus Cristo esses padres que, longe de impedirem os pecados dos outros, eles próprios são os primeiros a conjurar-se contra Jesus Cristo?

Que se diria dum ministro que se recusasse a vigiar pelos interesses do seu rei, e se afastasse quando ele reclamasse o seu serviço? É que se diria se este ministro falasse até contra o rei, e conspirasse para o destronar, coligando-se com os seus inimigos?

Segundo o Apóstolo, são os sacerdotes embaixadores de Deus96; são os cooperadores de Deus na salvação das almas97. Deu-lhes Jesus Cristo o Espírito Santo, para que possam salvar as almas, absolvendo-as dos pecados98. Donde conclui o teólogo Habert que o espírito sacerdotal consiste essencialmente num zelo ardente, primeiro pela glória de Deus, e depois pela salvação das almas99.

Não tem pois o padre que se ocupar das coisas do mundo, mas unicamente dos interesses de Deus: = Constituitur in iis quae sunt ad Deum (Hebr. 5, 1). Por esta razão, quis S. Silvestre que, para os eclesiásticos, os dias da semana tivessem o nome de Férias, que quer dizer dias feriados, em que não se cuida dos trabalhos ordinários100. Assim nos adverte que nós os padres nos devemos empregar exclusivamente em servir a Deus e ganhar-lhe almas, ocupação que S. Dionísio Areopagita chama o mais divino dos ministérios: “Será perfeito o sacerdote se imitar a Deus, se se fizer cooperador de Deus, que é a mais divina de todas as ocupações”101.

Segundo Sto. Antonino102, sacerdos significa sacra docens; e segundo Honório d’Autun103, presbyter significa praebens iter. Assim, Sto. Ambrósio dá aos padres o título de guias e pastores do rebanho de Jesus Cristo104. Por S. Pedro é chamado o clero um sacerdócio real, uma nação santa, um povo de conquista105, povo destinado a conquistar, — o quê? Almas e não riquezas, conforme a reflexão de Sto. Ambrósio. Os próprios pagãos não queriam que os seus sacerdotes se ocupassem senão do culto dos seus deuses; por isso lhes era vedado o exercício de qualquer magistratura106.

Este pensamento fazia gemer S. Gregório, que dizia, falando dos padres: “Devemos pôr de parte todos os negócios da terra, para só nos darmos à causa de Deus; mas procedemos ao contrário: deixamos a causa de Deus e só vivemos para os interesses terrenos”107. Moisés, estabelecido por Deus para só cuidar das coisas da sua glória, aplicava-se a decidir pleitos, mas Jetro advertiu-o e disse-lhe: Estás a gastar-te loucamente; deixa esse trabalho para cuidares do povo e das coisas relativas a Deus108.

Que diria Jetro se visse os nossos padres feitos negociantes, servos dos seculares, medianeiros de casamentos, e sem se importarem das obras de Deus? Se os tivesse visto, como observa S. Próspero, empenhados em se fazerem ricos, mas não melhores; em adquirirem mais honras, mas não mais santidade?109

Ó, exclamava a este respeito o venerável João de Ávila, que abuso subordinar o Céu à terra! Que miséria, ajunta S. Gregório, ver tantos padres que procuram adquirir, não os merecimentos duma vida virtuosa, mas as vantagens da vida presente!110 É porque, nas funções do seu ministério, não intentam a glória de Deus, mas somente o lucro que auferem delas, diz Sto. Isodoro de Pelusa111.


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72. Omnes sanctos reperio divini ministerii ingentem veluti molem formidantes (De Fest.
pasch. hom. 1).
73. Nemo laeto animo creatur sacerdos.
74. Vota eligentium velociori praeveniens fuga, latebris incertis absconditur (Vit. S. Fulg. c.
16).
75. Quam resistebam, ne ordinarer! (Ep. 82).
76. Não se estranhe que os mesmos textos sejam repetidos em diversos lugares.
77. Omnis namque Pontifex, ex hominibus assumptus, pro hominibus constituitur in iis quae
sunt ad Deum, ut offerat dona et sacrificia pro peccatis; qui condolere possit iis qui ignorant et
errant (Hebr. 5, 1).
78. Fungi sacerdotio et habere laudem (Eccli. 45, 19).
79. Sicut angelorum est perpetim laudare Deum in coelis, sic sacerdotum officium est eumdem
jugiter laudare in terris.
80. Amoris sui velut vicarium (Petrum) relinquebat (In L. 1. 10, c. ult.).
81. Sicut misit me Pater, et ego mitto vos (Jo. 20, 21).
82. Ego te clarificavi super terram; opus consummavi... Manifestavi nomen tuum hominibus
(Jo. 17, 4).
83. Ego dedi eis sermonem tuum... Sanctifica eos in veritate... Sicut tu me misisti in mundum,
et ego misi eos.
84. Sicut misit me Pater, et ego mitto vos.
85. Ignem veni mittere in terram; et quid volo, nisi ut accendaur (Luc. 12, 49).
86. Ideo vocati sumus a Christo, non ut operemur, quae ad nostrum pertinent usum, sed quae
ad gloriam Dei... Verus amor non quaerit quae sua sunt, sed ad libitum amati cuncta desiderat
perficere (Hom. 34).
87. Separavi vos a coeteris populis, ut essetis mei (Levit. 20, 26).
88. Sacramentorum Dei cooperatores et dispensatores (Opusc. 27, c. 3)
89. Duces et rectores gregis Christi (De dignit. sac. c. 2).
90. Verus minister altaris Deo, non sibi, natus est (In. Ps. 118, s. 8).
91. Separavit vos Deus Israël ab omni populo, et junxit sibi (Num. 16, 9).
92. Opprobria exprobantium tibi ceciderunt super me (Ps. 68, 10).
93. Fuit necessarium aliquos e populo selegi ac destinari, qui ad impendendum debitum Deo
cultum, et sui status obligatione et institutione, intenderent (Scotus acad. De Ord. d. 1, a. 1, q.
1).
94. Exhibeamus nosmetipsos sicut Dei ministros (2. Cor. 6, 4).
95. Crucifixus est, ut destruatur corpus peccati (Rom. 6, 6).
96. Pro Christo legatione fungimur (2. Cor. 5, 20).
97. Dei enim sumus adjutores (1. Cor. 3,9).
98. Insufflavit, et dixit eis: Accipite Spiritum S... (Jo. 20, 22).
99. Ingenium sacerdotale essentialiter consistit in ardenti studio promovendi gloriam Dei et
salutem proximi (De Ord. p. 3, c. 5, q. 3).
100. Quo significaretur quotidie clericos, abjecta caeterarum rerum cura, uni Deo prorsus
vacare debere (Breviar. 31 dec.).
101. In hoc sita est sacerdotis perfectio, ut ad divinam promoveatur imitationem, quodque
divinius est omnium, ipsius etiam Dei cooperatur existat (De Coelest. Hierarch. c. 3).
102. Summ. p. 3, tr. 14, c. 7, § 1.
103. Gemma an. l. 1, c. 181.
104. Duces et Rectores gregis Christi (De Dignit. sac. c. 2).
105. Regale sacerdotium, Gens sancta, Populus acquisitionis (1. Petr. 2, 9).
106. Officium quaestus, non pecuniarum, sed animarum (Serm. 78).
107. Dei causam relinquimus, et ad terrena negotia vacamus (In Evang. hom. 17).
108. Stulto labore consumeris... Esto tu populo in his quae ad Deum pertinent (Exod. 18, 18).
109. Non ut meliores, sed ut ditiores fiant, non ut sanctiores, sed ut honoratiores sint! (De Vita
cont. 1. 1, c. 21).
110. Non virtutum merita, sed subsidia vitae praesentis exquirunt! (Mor 1. 23, c. 26).
111. Ad stipendia dumtaxat oculos habent (Epist. 1. 1, e. 447).


Fonte: Excertos do livro "A Selva" de Santo Afonso Maria de Ligório.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Monsenhor Montini, futuro Papa Paulo VI


NEGOCIAÇÕES SECRETAS
COM OS COMUNISTAS

Aos Aliados, que aconselhavam a Estaline uma política mais condescendente com o Vaticano, o ditador responde: «De quantas divisões dispõe o Papa?»
Mas, no Vaticano, houve quem tentasse secretamente instaurar relações com a União Soviética, mau grado a posição oficial anticomunista dos Papas Pio XI e Pio XII.
Mariano Rampolla del Tindaro, companheiro de estudos de Montini na Academia dos Nobres Eclesiásticos e seu amigo íntimo e estimado, foi organizador e protagonista de um encontro reservadíssimo com homens de fé comunista, para tratar de eventuais relações diplomáticas entre o Vaticano e a União Soviética. O encontro efectua-se em Agosto de 1938 com os expoentes do Partido Comunista Italiano, Donini e Sereni, na Cartuxa suíça de Valsainte, entre montes, longe dos confins italianos.
Mons. Rampolla procura saber dos interlocutores se o Partido estava disposto a sondar o terreno em Moscovo, com vista a eventuais contactos entre a Santa Sé e o Governo Soviético, para normalização das relações diplomáticas. O relatório de Donini, enviado aos dirigentes do Partido Comunista, não foi tido em consideração e não chegou ao responsável Palmiro Togliatti; talvez – julga Donini – porque a proposta foi considerada suspeita.17
No Verão de 1944, quando a guerra estava a acabar, Mons. Montini entrou em negociações de alto nível com os Comunistas italianos, para delinear o papel que o Partido Comunista poderia ter após o período bélico. O seu objectivo era formar uma aliança entre o Partido Democrático Cristão, os Socialistas e os Comunistas.18 Como relatado por Martinez, em 10 de Julho de 1944 houve um encontro entre Mons. Montini, que agia com desconhecimento de Pio XII, e Palmiro Togliatti, chefe indiscutível do Partido Comunista Italiano, que havia pouco tempo regressara a Roma, depois de 18 anos de exílio na União Soviética.19 Este foi o primeiro contacto entre o Vaticano e um líder do Comunismo. Foi esboçado um plano como base de um acordo entre o Partido Democrático Cristão, os Socialista e os Comunistas, que teria conferido aos três partidos o controle total em qualquer governo italiano pós bélico. Por outro lado, o plano definia as condições para futura colaboração entre a Igreja Católica e a União Soviética.20
Outra tentativa para instaurar relações entre a Santa Sé e o Governo Soviético acontece em 1945, nas vésperas da Conferência de Ialta, por iniciativa própria de Mons. Montini: um encontro de Montini com o comunista Eugénio Reale, então Subsecretário de Estado no Ministério dos Estrangeiros. O mesmo Reale refere o assunto do colóquio: possibilidade de um encontro de Sua Santidade com o chefe do Partido Comunista (Togliatti). «Ficou entendido – conclui o relatório de Reale – que se Togliatti aceitasse a ideia de uma visita ao Papa, eu voltaria a Mons. Montini para fixar a data e a modalidade». Parece que este contacto não teve desenvolvimentos.21

Enquanto Mons. Montini desafogava o seu antifascismo em contactos secretos com representantes comunistas de alto nível, a sua família manifestava a mesma paixão política de esquerda de modo ainda mais inquietante. Num artigo escrito pelo Advogado Salvatore Macca, ex Presidente do Tribunal de Brescia, com o título “Os Montini ajudaram o terrorista comunista Speziale a matar gente com a bomba” (publicado em duas partes na revista “Chiesa Viva”),22 lê-se a seguinte informação sobre Montini:
«Tive nas mãos um livro, “Memorie di uno zolfataro”, de Leonardo Speziale, de Serradifalco (1903-1979), por ele datado e registado e transcrito por outros. É uma biografia, cujas passagens salientes são as relativas à sua actividade de partidário comunista na província de Bréscia, depois de 8 de Setembro de 1943, quando estava fugido da França ocupada pelas tropas alemãs.
«Na Sicília viveu até à idade de 27 anos. Acantonou-se em França como fugitivo, dado que a vida no seu país se tornara difícil pelo frequente envolvimento em encontros de rua e sindicais. Era de carácter agressivo, como demonstram os precedentes penais, de que resultaram condenações ou processos por delitos de sangue, com lesões voluntárias, e até por um homicídio voluntário (...). Trabalhando em minas de enxofre, Speziale tinha desenvolvido um abundante ódio de classe. Em França, com a idade de 30 anos, inscreveu-se no Partido Comunista. Depois do advento do fascismo, um pouco por ignorância e um pouco por ódio e fanatismo contra o mesmo, acabou por confundi-lo com a mafia, identificando-o nesta, mas fingindo esquecer, ou, talvez, completamente ignorando, que apenas o Fascismo conseguira debelar o fenómeno mafioso. (...)
«Speziale, depois de 8 de Setembro, aproveitando a confusão daqueles momentos em França, onde estava preso como antifascista comunista, consegue evadir-se e chegar a Itália. Em Bréscia encontrou o terreno adaptado à sua vocação, graças à solidariedade de certo antifascismo local. Encontrou-se, assim, com outros comunistas de origem bresciana que estiveram foragidos em França, como Italo Nicoletto e Luigi Guitti (aliás, Tito), dois guerrilheiros ferozes e sanguinários, que espalharam vítimas pelo seu caminho, com os quais se tornou responsável por emboscadas e assassinatos de militares alemães e da R.S.I. e mesmo de simples civis, adeptos do partido fascista ou simpatizantes dele. Com conhecimento de explosivos adquirido nas minas de enxôfre, pensou iniciar uma verdadeira e própria actividade terrorista por meio de engenhos por si construídos.
«O seu primeiro “heróico empreendimento” consistiu na colocação, em 31 de Outubro de 1943, de um engenho na via Spalti San Marco, em Brescia, que causou a morte do Director do Centro de Detenção Judiciário, Dr. Ciro Miraglia, calabrês, pai de quatro ou cinco filhos, que, de bicicleta, estava de regresso a casa, acompanhado por um soldado de dezanove anos, Andrea Lanfredi, de Ghedi, também de bicicleta. Ambos foram despedaçados pela explosão. O que segue é a fiel transcrição das memórias de Speziale, o qual regressava a Stochetta para comer tranquilamente a ceia preparada pelos Montini, que o hospedavam.
«Escreve: “Naquela tarde explodi um engenho de grande potência, confeccionado com muito cuidado, junto do quartel da tropa anti-aérea, na via Spalti San Marco. A notícia do atentado deu brado...»
O Bispo Mons. Giacinto Tredici, certo de interpretar os próprios sentimentos das pessoas, estigmatizou sem tardança a criminosa iniciativa do ódio e do desejo de vingança do comunismo. (…)
Speziale teve a singular impudência, na lógica típica do comunismo, para o qual o fim justifica os meios, de definir a nota do Bispo como uma “campanha difamatória da Cúria”, acrescentando não estar interessado em tal campanha. Em vez disso, interessava-lhe a solidariedade da base católica (…) e cria tê-la descoberto e completamente demonstrada no seio da família Montini de Stochetta, segundo ele aparentada com o futuro Papa Paulo VI.
«Eis o que afirma Speziale: «A própria hospitalidade oferecida pelos Montini, todos católicos, me parece muito significativa. Não sei quais os laços existentes entre eles e a família de Paulo VI, mas estou certo que entre eles existem relações de parentesco. Mamã e papá Montini sabiam que eu era um dos que colocaram a bomba no quartel dos nazifascistas – eu mesmo confeccionei várias na casa deles – todavia, não obstante a “bula” do Bispo, permaneceram comigo, continuando a oferecer-me hospitalidade, mas sobretudo solidariedade e afecto. Católicos eram também os membros da família em cuja oficina, como já recordei, se confeccionavam os engenhos que usávamos nos atentados. Faziam-no porque convencidos da sua escolha, sabedores do risco que corríamos. Outros, que exaltados!» (…) Diz ainda Speziale, que em Valtrompia tinha conseguido formar um primeiro grupo de partidários, «numericamente forte mas escassamente equipado… que foi fornecido do necessário graças à colaboração preciosa dos irmãos Giacomino e Franco Montini de Stochetta».
«E portanto, não obstante o apelo do Bispo de Brescia, Mons. Giacinto Tredici, num certo sentido muito ingénuo, que tinha condenado sem meios-termos o vil atentado que causara a morte de pessoas inocentes, a família Montini, da qual parece ter sido “extraído” o Papa Paulo VI, deu hospitalidade e assistência, com pleno conhecimento da sua real identidade, a um terrorista comunista que, com criminosos companheiros semelhantes a si, confeccionava engenhos para matar impunemente pessoas inocentes da maneira mais velhaca e odiosa!»

***

Na ignorância dos contactos secretos entre Mons. Montini e o chefe do Comunismo italiano, Pio XII tentou recompensar Mons. Montini e Mons. Tardini com o Cardinalato, pelos seus anos de serviço devotado à Santa Sé, num Consistório secreto de 1952; mas ambos, respeitosamente, declinaram a honra.23 Isto significou que Montini não era membro do Colégio de Cardeais e, assim, não se podia considerar candidato ao Papado em 1958, no Conclave que elegeu Roncalli a Papa João XXIII.
Mas a estima de Pio XII por Mons. Montini desmoronou-se de um só golpe, quando o Pontífice viu as provas irrefutáveis da sua traição confrontando a sua política anticomunista.
Hoje, esta traição faz parte da História!
Estava-se em 1954, quando Pio XII estava já atingido pela doença e debilitado pela velhice. O Coronel Arnauld, Director-geral do Deuxième Bureau (Serviço de Informações de França), após se ter demitido do Deuxième Bureau, dirigiu-se a Roma convocado por Pio XII, que lhe ofereceu o encargo de seu agente pessoal. O Coronel aceitou, prestou juramento ao Pontífice e iniciou a sua nova missão.
No decorrer de uma viagem ao Leste conheceu o Bispo luterano de Upsala, Mons. Brilioth, Primaz da Suécia, que tinha muita estima por Pio XII. No decurso de um destes encontros (Verão de 1954) o Arcebispo de Upsala, de improviso, disse ao Coronel: «As autoridades suecas sabem muito bem que o Vaticano tem relações com os soviéticos»!
Regressado da sua missão, o Coronel avistou-se com Pio XII, o qual, espantado com tudo isso, pede ao Coronel que afirme a Mons. Brilioth que o Vaticano não tinha qualquer relação com os soviéticos.
Mas, no seu regresso à Suécia, o Coronel Arnauld recebe em mão própria, do Arcebispo de Upsala, um sobrescrito sigiloso, endereçado a Pio XII, com o pedido de entregá-lo em mão, sem o dar a conhecer a ninguém mais no Vaticano. Só lhe disse: «Este sobrescrito contém a “PROVA” das relações que a Vaticano mantém com os soviéticos».
Chegado a Roma, o Coronel entregou o sobrescrito a Pio XII, que lê na sua presença, muito pálido. Era breve: o último texto oficial, assinado pelo pró-Secretário de Estado Mons. Montini e datado de 23 de Setembro de 1954.24 Em 1 de Novembro de 1954, Pio XII afasta Mons. Montini da Secretaria de Estado.
Por outras informações sabe-se que, naquele trágico Outono de 1954, Pio XII tinha ainda descoberto que o seu pró-Secretário de Estado, Mons. Montini, “lhe havia escondido todos os despachos relativos ao cisma dos Bispos chineses,25 cujo caso se agravava.
Em 1 de Novembro de 1954, Pio XII nomeou Montini Arcebispo de Milão. A sagração teve lugar em Roma, em 12 de Dezembro de 1954, pelo Card. Eugéne Tisserant.
Mas, porquê entregar a maior diocese do mundo a um traidor ao Papa?

Túmulo da Família de Giuditta Alghisi, mãe de Paulo VI
Símbolos maçônicos em destaque.
A verdadeira razão, conheci-a num “encontro” pessoal com o General G. Leconte, dos “Serviços Secretos” franceses. O General falou-me, primeiro, de muita coisa respeitante à infiltração maçónica na Igreja de hoje; depois, improvisadamente, fez esta pergunta: «Você acredita que também Paulo VI seja maçom?» E sem esperar a minha resposta, passou-me um livro de Carlo Falconi, “Vue et entendu au Concile”, editado antes que Montini fosse Papa; e mostrou-me uma “passagem” do livro, a páginas 69, na qual se lê que uma pessoa influente, grau “33” da Maçonaria, assegurava que também Montini “estaria inscrito numa Loja maçónica”!
Por fim, narrou-me a vicissitude do afastamento de Mons. Montini da Secretaria de Estado por Pio XII, porque realmente trabalhava para a Rússia, com desconhecimento do Papa e, deste modo, traía-o! De facto, Montini, em vida de Pio XII, não pisou mais a soleira do Vaticano!
Minha última pergunta: «Mas, então, porquê Pio XII o mandou para Milão, sé prestigiosa e cardinalícia, depois de o haver “traído”»? O General responde, sorridente: «Não! Não foi Pio XII que o mandou para Milão! Temos outro “dossier” que se intitula “Cardeal Pizzardo”, o qual contém documentos que falam diferentemente! De resto, também Você terá notado que Pio XII não o elevou a Cardeal, se bem que Milão seja tradicionalmente sé cardinalícia, pelo que Montini se encontrou afastado da Cúria Romana e, definitivamente, daquele Papa sob o qual ele tinha exercido não pouca influência; e foi excluído do futuro Conclave porque Pio XII estava resolvido a não o deixar entrar no Sacro Colégio! Até a consagração a Arcebispo, depois da sua nomeação, foi quase ignorada por Pio XII!»
No final do colóquio, o General enviou-me ao Coronel Arnaud, o qual me confirmou que Montini tinha relações obscuras, clandestinas, de sua própria iniciativa, com a Rússia e certas outras potências do Leste, pelo que Pio XII o “expulsou” da Secretaria de Estado. A seguir, disse que Pio XII teve de aceder a que Montini fosse mandado para Milão, mas não o fez Cardeal nem o aceitou mais em audiência (se bem que Pio XII vivesse mais quatro anos!) e que deu a compreender, muitas vezes, a um Cardeal, que não o queria como seu sucessor!
Como se vê, aqui não se trata de “revelação de segredos de Estado”, porque nos “Arquivos Franceses” ainda está tudo aquilo que disse, de pessoal, sobre o “caso” Montini!26
Sobre “relações obscuras clandestinas e de própria iniciativa” de Mons. Montini, contudo, existe também a fonte do arquivo do Card. Tisserant. Era um arquivo continuamente actualizado, contendo “documentos” de valor histórico e também de delicadeza explosiva, entre os quais também o “credo” marxista do então Mons. Battista Montini, o qual, em 1945, se ligou em amizade com Palmiro Togliatti, Secretário do Partido Comunista Italiano, recém-chegado da União Soviética. (…) Por intermédio dos círculos protestantes da Universidade de Upsala e ligações com a ortodoxia russa, Mons. Montini dava a conhecer ao Kremlin que «… nem toda a Igreja e nem todo o Vaticano aprova, para o futuro, as orientações do Papa Pacelli».
Pois bem, no arquivo do Card. Tisserant estavam ainda os “relatórios secretos” que foram entregues a Pio XII pelo Coronel Arnaud. (…) O dossier ad hoc é constituído, principalmente, por “cartas” de Montini, que assinalavam ao KGB – polícia secreta soviética – até mesmo nomes e movimentos de sacerdotes que exerciam clandestinamente o ministério sacerdotal entre a gente oprimida e perseguida dos países comunistas.
Pio XII não sabia explicar a causa do terrível drama do sistemático desaparecimento dos sacerdotes enviados clandestinamente para a Rússia, a não ser um “espião” escondido no Vaticano. Então encarregou detectives secretos, disfarçados de monsenhores, que descobriram, no acto de fotografar “documentos secretos”, o jesuíta Alighiero Tondi, um dos do círculo de Montini, ou melhor, seu conselheiro especial. Interrogado, foi identificado como agente do KGB, instruído em Moscovo e que do Vaticano transmitia ao seu chefe, na URSS, os “documentos” que fotografava no arquivo vaticano.
Da acurada investigação resultou que era ele que também passava aos seus superiores soviéticos a lista dos Bispos e dos Sacerdotes clandestinos enviados à Rússia por Pio XII, os quais, por estas delações, eram presos, mortos ou enviados para a morte nos goulagues soviéticos!
Este é um facto de extrema gravidade, talvez único! Decerto um agir de assassino! Pio XII, após estas “revelações”, teve um colapso e foi obrigado a estar de cama durante muitos dias. Todavia, decidiu a imediata expulsão de Montini do lugar que tinha equiparado a “secretário de Estado”.27


Fonte: Chiesa Viva

Hans Urs von Balthasar, o pai da apostasia ecumênica


Hans Urs von Balthasar
(1905 — 1988)

Chegou a vez de outro representante da "nova teologia", hoje exaltado como "pedra angular da Igreja" (J. Meinvielle), o ex-jesuíta suíco Urs von Balthasar. Se Maurice Blondel encarna o tipo do filósofo modernista e apologeta, se Henri de Luba é o tipo do teólogo modernista, Urs von Balthasar encarna o aspecto pseudomístico e ecumenista do modernismo.

Temos em mãos a obra Urs von Balthasar ― Figura e Opera1, de Karl Lehmann e Walter Kasper, personalidades da "nova teologia". Lemos na orelha do livro: "escrito por seus amigos e discípulos [Henrici, Haas, Lustiger, Roten, Greiner, Treitler, Löaser, Antonio Sicari, Ildefonso Murillo, Dumont, O´Donnel, Guido Sommavilla, Rino Fisichella, Max Shönborn... e Ratzinger], pretende fazer redescobrir toda a importância e o valor de sua obra e de sua pessoa". Descubramo-lo também nós; é de extrema importância.

"Brilhante mas Vazio"

Von Balthasar foi apaixonado, desde a juventude, pela música e, como Montini, pela literatura, mais do que pelos estudos filosóficos e teológicos2. Somente a filosofia "mística" de Plotino teve o poder de fasciná-lo. Ao contrário, a filosofia e a teologia escolástica suscitaram seu horror:

"Todos os meus estudos durante os anos de formação na Ordem dos Jesuítas foram uma luta enfurecida com a desolação da teologia, com o que os homens tinham feito da glória da Revelação; não podia suportar essa figura da palavra de Deus, queria aplicar golpes à direita e à esquerda com a fúria de um Sansão, queria, com sua força, derrubar o templo e nele me enterrar. mas isso era, agora que a missão começava, querer impor meus planos, era viver com minha indignação infinita porque as coisas ficavam assim. Tudo isto eu não dizia praticamente a ninguém. Przywara compreendia tudo, mesmo sem palavras; dos demais ninguém me poderia compreender. Escrevi o "Apocalypse" com essa fúria que se propunha destruir o mundo pela violência e reconstruí-lo a partir das fundações, custasse o que custasse"3


A "missão" do futuro demolidor se esboçava. Pelo momento, o resultado foi que seus estudos na Companhia de Jesus terminaram pela "dupla licença eclesiástica em filosofia e teologia; Balthasar nunca obteve doutorado nessas matérias"4.

Em compensação, porém, o jovem von Balthasar aprendera a correr atrás dos sistemas e tendências agitadas do pensamento moderno, encorajado pelos "grandes animadores da época de seus estudos"5. Erich Przywara, da Universidade de Pullach-Munique, que o forçou a "confrontar Agostinho e Tomás com Hegel, Scheler e Heidegger"6, e Henri de Lubac, da Maison d´études de Lyon Fourvières. "Por sorte e para minha consolação", escreve von Balthasar, "Henri de Lubac morava na casa conosco. Foi ele que, além do material de estudo escolástico, nos levou aos Padres da Igreja e com magnanimidade nos emprestava a nós todos [Balthasar, Daniélou e Bouillard] seus próprios estudos e notas."7 Foi assim que von Balthasar, "durante as aulas, com os ouvidos tapados com algodão, leu todo [Santo] Agostinho" e aprendeu, pelas notas generosamente emprestadas por De Lubac, a opor, com afetação, a patrística à escolástica, cuja linguagem rigorosa não permitia os jogos interpretativos com textos dos Padres da Igreja a que se entregavam os "novos teólogos"8. Ao mesmo tempo, von Balthasar conhecia a poesia francesa: Péguy, Bernanos, Claudel, na tradução dos quais ele trabalhará durante vinte e cinco anos.

No fim de seus estudos, aquele que, segundo De Lubac, seria "o homem mais dotado de nosso século" (outro sistema dos modernistas consiste em criar, uns para os outros, um halo de grandeza inexistente9), leva consigo somente uma poeira, tão vasta quanto superficial, nos domínios que testemunham um verdadeiro diletantismo. O Pe. Labourdette O.P., numa tirada significativa, definiu um dos primeiros artigos de von Balthasar como "uma página brilhante mas vazia"10.

Com esse "defeito de origem", von Balthasar estava pronto para engrossar o número dos eclesiásticos modernistas, "que, sob as aparências de amor à Igreja, absolutamente deficientes em filosofia e teologia sérias, impregnados, ao contrário, até os miolos, de um veneno de erro recebido dos adversários da fé católica, se colocam, sem nenhuma modéstia, como renovadores da Igreja"[ 11.
  
Privado de sólida formação filosófica e teológica, admirador apaixonado da poesia e da música, von Balthasar misturará, com inacreditável superficialidade, a teologia e a literatura, acreditando poder criar uma teologia "dele" com a mesma imaginação com que um artista cria sua obra de arte.

"Somente mais tarde", escreve ele, "quando o brilho da vocação já me acompanhava havia vários anos e quando eu tinha terminado meus estudos filosóficos em Pullach (acompanhado de longe por Erich Przywara) e os quatro anos de teologia em Lyon (inspirados por Henri de Lubac) com meus condiscípulos Daniélou, Varillon, Bouillard e muitos outros, compreendi como seria de grande ajuda para a concepção de minha teologia o conhecimento de Goethe, Hölderin, Nietzsche, Hofmannsthal e, sobretudo, dos Padres da Igreja, para os quais me dirigiu De Lubac. O postulado fundamental de minha obra Gloria foi a capacidade de ver uma 'Gestalt' [forma complexa] na sua coerente totalidade: a visão goethiana devia ser aplicada ao fenômeno de Jesus (sic) e à convergência das teologias neotestamentárias"12

O Conquistador dos (Mal) Convertidos

Em 26 de julho de 1936, von Balthasar foi ordenado padre na igreja de São Miguel em Munique. Em 1939, fez maisw uma vez os exercícios espirituais de trinta dias, com o padre Steger, que "era, no meio alemão, um dos primeiros a compreender a espiritualidade inaciana, não tanto asceticamente quanto misticamente"13. Esta inclinação pela mística, que já manifestara no contato com a filosofia de Plotino, se revelará cada vez mais nociva para von Balthasar, de tanto que era desprovido de sólida base de saber filosófico e teológico. Pouco depois, encontramo-lo como capelão dos estudantes, em Basiléia, onde cultiva música e poesia (desta vez, alemã). Ele também organiza cursos para estudantes e chama, entre outros oradores, Karl Rahner, Congar e De Lubac; no fim dessas noitadas, "sentava-se ao piano e, de memória, tocava o Don Juan de Mozart" 14.

Em Basiléia, ele encontra o protestante Karl Barth, que se torna (depois de Przywara e De Lubac) "o terceiro grande inspirador da teologia de Balthasar". "A teoria da predestinação de Barth", escreve, "atrai-me poderosa e constantemente" 15; mas a influência decisiva que sofreu foi a do "cristocentrismo radical de Barth"16: daí a idéia de um ecumenismo que reúne todos em torno de Cristo, separado de sua inseparável Igreja, um Cristo que é, no final, o solus Christus de Lutero, ainda que filtrado, como veremos, através de Hegel.

O Vaticano II estava, contudo, ainda longe, e então "o encontro com os protestantes acontecia, nesses anos, na Suíça, de modo quase inevitável (sic) sob a perspectiva da conversão"17.

Foi assim que, em 1940, von Balthasar batizou (a contragosto?) o esquerdista Béguin, que, em 1950, deveria suceder ao filocomunista Mounier na direção da revista Esprit (o Osservatore Romano de 3 de março de 1979 dizia que Beguin e Esprit prepararam o Vaticano II). Fato ainda mais importante, von Balthasar batizará a "convertida" Adrienne von Speyr, médica, casada em segundas núpcias com o professor Kaegi, "mulher cheia de humor e de espírito, de língua afiada, bem-vista na sociedade"18.

Em Basiléia, von Balthasar adquiriu rapidamente o renome de "conquistador de convertidos"19. Parece-nos mais exato dizer dos "mal convertidos". Já citamos Beguin. De Adrienne von Speyr convém dizer mais amplamente que, como De Lubac esteve "em simbiose intelectual" com Blondel, von Balthasar esteve em "simbiose teológica e psicológica" com Adrienne von Speyr 20.

Lado a Lado com Adrienne

"Logo depois da conversão [de Adrienne] começaram a crescer os boatos de milagres que, manifestamente, aconteciam durante os colóquios e visitas que ela recebia. Murmurava-se sobre visões que ela tivera." Murmurava-se também sobre esses "longos e regulares encontros com seu diretor espiritual, von Balthasar" 21.

Para publicar os escritos místicos de Adrienne, von Balthasar funda as Edições Johannes; depois, com Adrienne, funda o Instituto Secular Johannes, e ainda para Adrienne, como seus superiores não vissem evidência no misticismo de Adrienne von Speyr, na véspera de sua profissão solene, von Balthasar deixa a Companhia de Jesus, escolhendo a "obediência imediata" a Deus.

A partir de então, von Balthasar trabalhará na sombra de Adrienne, morando na casa de seu marido, ocupando-se de literatura, de teologia estética (e estetizante), de seus ditados "místicos", até que, em 1960, a mobilização neomodernista para o Concílio o engaja na febril preparação do Vaticano II:

"Rádio, televisão, quanta agitação e pedidos sem fim para escrever."22

Em Deus a Contradição é Impossível

"Não é aqui o lugar", lemos na página 51, "de submeter os carismas de Adrienne a um exame teológico-crítico." Ao contrário, teria sido justamente o lugar e o caso, visto que o próprio von Balthasar afirma: "sua obra e a minha não são separáveis nem psicológica nem filologicamente. São as duas metades de um todo que tem por centro uma fundação única"23 E ele começa Il nostro compito (Nossa tarefa) escrevendo:

"Este livro tem como objetivo, sobretudo, impedir que depois de minha morte procurem separar minha obra da de Adrienne von Speyr."24

Teria bastado a von Balthasar aplicar os critérios que a Igreja aplica em tais casos para repudiar como falso o misticismo de Adrienne. Deixaremos de lado a estranheza de "carismas" como os "estigmas" que ela teria recebido quando ainda era protestante, "a possibilidade dada a seu confessor [von Balthasar] de 'transferir Adrienne ao passado', a cada uma das suas idades, para percorrer sua biografia"25, sua virgindade recuperada, segundo ela, depois de dois casamentos etc. Basta-nos, como teria bastado a von Balthasar, aplicar o critério fundamental usado pela Igreja para julgar toda e qualquer pretensa "revelação":

"É preciso considerar como absolutamente falsas as revelações que se opõem ao dogma ou à moral. Em Deus a contradição é impossível."26

Á luz desse critério fundamental examinemos, entre muitos outros, dois pontos que estão na origem de dois gravíssimos desvios conciliares e pós-conciliares:

1) "A teologia da sexualidade" de Adrienne von Speyr;
2) Sua concepção da Igreja, a "Católica".

Mas para Adrienne e von Balthasar, Deus Pode Contradizer-se

Segundo von Speyr, ou segundo von Balthasar (concordamos com Balthasar que é impossível separá-los), Adrienne teria recebido do Céu a missão de "repensar" o "valor positivo da corporeidade [ou ainda da sexualidade] no interior da religião da encarnação" 27.

Acontece que este "valor positivo" é tão positivo que chegar a anular as... conseqüências do pecado original e a advertência do Espírito Santo: "quem ama o perigo nele perecerá". Escreve Adrienne no seu diário: "As receitas de se manterem afastados um do outro, de não se verem, no que concerne à esfera do corporal, hoje estão esgotadas."28 O que é claramente contra o dogma do pecado original e contra o ensinamento tradicional da Igreja no domínio moral. Fiel à sua "revolução sexual", Adrienne concebe e exprime sua relação "espiritual" com von Balthasar pelas categorias mais cruas da sexualidade. Assim, a gênese do instituto secular Johannes é descrita como um gravidez, em que o instituto é a criança, Adrienne a mãe e Balthasar o pai29. Eis, em seguida, como "Inácio" (leia-se Santo Inácio) explica a Adrienne que ela recebeu os estigmas (mesmo sendo protestante) para von Balthasar: "mesmo sendo virgem [Adrienne, casada, só por prodígio, apesar do 'valor positivo' da sexualidade], é um modo pelo qual a mulher podia ser marcada pelo homem"30.

E, para que não tenhamos mais dúvidas sobre a linguagem atribuída pela "mística" a "Inácio", leremos o que segue:

"A fecundidade espiritual do homem será depositada na carne da mulher, para que ela possa levar o fruto. Assim, a fecundidade de Hans Urs von Balthasar foi posta nos estigmas que Adrienne tinha recebido para ele." 31

E isto pode bastar para que se pergunte, com razão, se não estamos diante de um caso de sensualismo pseudomístico.

Entretanto, aqui é importante indicar, na "inteligência do valor positivo da corporeidade", por parte de Adrienne, uma das causas, se não a causa determinante, da exaltação atual da sexualidade, infelizmente em voga, até nos meios religiosos, camuflada pelo slogan "integração afetiva".

E von Balthasar? Ele também não admitia "que se pudesse diminuir o significado dos corpos masculino e feminino (e portanto do ser humano masculino e feminino) [de onde o 'Caros irmãos e irmãs' e as palestras sobre a masculinidade e a feminilidade de João Paulo II!], justamente onde se fala de uma real encarnação do Filho de Deus"32. E, na sua concepção estetizante da teologia, ele deplorava:

"E onde foi parar o Eros no Cântico dos Cânticos [até como poema erótico, naturalmente], que faz parte do centro da teologia?"33

Há pior, porém. Von Balthasar sabe muito bem que a "teologia mística" da visionária não se enquadra na doutrina católica. "Na obra teológica global de Adrienne", escreve ele, "existem passagens particulares que, fora de seu contexto, poderiam parecer às vezes estranhas [também dentro do contexto]"34.

Em seguida, no prefácio, admite claramente que as obras de Adrienne "de início são de espantar e talvez desorientadoras [sic] para alguns leitores"35. Para von Balthasar, contudo, isto não levantava dúvidas sobre o carisma de Adrienne, mas sim sobre a... doutrina católica! "As coisas", escreve ele, "são sempre tais que a teologia atual não é ou não é ainda [sic] capaz de compreender o que é indicado" [nas visões ou nos "ditados" de Adrienne]36. O que só pode ser dito admitindo-se que a doutrina católica possa evoluir em contradição com ela mesma, visto que a "teologia mística" de Adrienne não somente é obscura mas também está em oposição à teologia católica.

Infelizmente, von Balthasar não somente não aplicava (talvez porque não os possuísse) os critérios teológicos, para ver claramente, ao "misticismo" de Adrienne von Speyr, mas dividia com Blondel e De Lubac a nova noção vitalista e evolucionista da verdade, pela qual, em Deus, e portanto no desenvolvimento da doutrina católica, "a contradição é possível". Isto aparecerá de modo ainda mais evidente no segundo ponto que nos propomos examinar e que permitirá compreender a borrasca de loucura ecumênica que levou alguns responsáveis da Igreja Católica a ceder sem nenhum freio.

A "Católica" Não-Católica

Adrienne afirma que uma missão eclesial foi confiada pelo Céu a von Balthasar e a ela própria. Urs von Balthasar fala disso em Il nostro compito37. Adrienne, numa visão "marial", diz a Deus:

"Nós [Adrienne e von Balthasar] queremos amar-te, servirt-te e agradecer-te a 'Igreja que nos confias' [...]. Estas últimas palavras foram pronunciadas de modo improvisado e ditadas pela Mãe de Deus, isto é, nós [a Mãe de Deus e Adrienne] o dissemos as duas juntas, e o filho (o nosso [de Adrienne e de von Balthasar], você sabe), ela colocou-o uma fração de segundos nos braços, mas não era somente a criança, era a Una Sancta em miniatura, e assim me parece que é uma justa unidade de tudo o que nos foi confiado e que é trabalho em Deus para a Católica."

O que é então esta outra "criança" de Adrienne e de von Balthasar, essa "Igreja" dita "Católica", que Deus lhes teria confiado?

Na introdução de Mystique objectiva de Adrienne von Speyr, de Bárbara Albrecht38, lemos acerca da "mística" Adrienne esta afirmação espantosa: "Ainda que [Adrienne] se tenha afastado claramente e de modo decisivo da forma protestante do cristianismo, por uma necessidade interior, falta a seu conceito de 'católica' certa delimitação confessional." Então, se o afastamento de Adrienne do protestantismo foi claro e decisivo, sua conversão ao catolicismo não foi nada clara e decisiva. A menos que se dê ao termo "católica" um significado completamente diferente do habitual.

Note-se, de passagem, que o que escreve Bárbara Albrecht corresponde exatamente ao testemunho da governanta italiana de Adrienne, a qual, como boa católica veneziana, afirma claramente:

"Eu li também... essa história de 'Mística'. Eu não gosto nada disso. Por que escrever essas bobagens? Madame não era da Igreja, ela ia à missa somente duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa."39

O mesmo conceito de "católico", privado de "certa determinação confessional", encontramos em von Balthasar, que afirma ser também devedor de Adrienne von Speyer. Em Katholisch, uma obra que publicou em 1975, ele escreve:
  
"Essa pequena obra é, ao mesmo tempo, uma homenagem a meus mestres E. Pryzwara e H. de Lubac e igualmente a Adrienne von Speyr, pois todos, em face de uma teologia escolástica, me mostraram a dimensão da realidade católica, vasta como o mundo."

E nessa "catolicidade que não omite nada"40, tudo encontra lugar e justificação: a verdadeira e as falsas religiões, a Igreja Católica e as seitas heréticas e/ou cismáticas, o sagrado e o profano, a religião e o ateísmo; abreviando: o erro e a verdade, o bem e o mal. Exatamente como na dialética hegeliana.
  
O Iceberg
  
Aprofundemos a conversa. Urs von Balthasar ― admite a revista Communio ― é exaltado como "teólogo da beleza" e "ao mesmo tempo é criticado por seu estilo hermético e complicado"41. Além disso, escreve ainda Communio, o que se conhece e o que se diz dele "representa ― mal haja quem nisto põe malícia ― somente a ponta do iceberg". Lancemos pois um olhar para a parte submersa do iceberg, isto é, para o que se esconde sob o estilo hermético e complicado, para ver se há ou não razão para pensar mal dele.
  
Aparentemente, os escritos de von Balthasar são obscuros e herméticos e seu comportamento é incompreensível. Por exemplo, ele trabalha para demolir a teologia católica e a Roma católica, mas critica asperamente Karl Rahner e o "complexo anti-romano"; quer o ecumenismo mais vasto possível, que abrace até as religiões pagãs e idólatras, mas critica a "tendência à liquidação" dos católicos pós-conciliares. Entretanto, basta possuir a boa chave interpretativa de sua teologia para que tudo se torne claro. Esta chave interpretativa é o idealismo em geral e a lógica hegeliana em particular, que, sabe-se, é diametralmente oposta não só à lógica aristotélica e tomista mas também ao bom senso comum. Enquanto a lógica aristotélica, de fato, tem por fundamento o princípio de identidade e de não-contradição, segundo o qual os opositores se excluem, a lógica hegeliana é fundada no princípio exatamente contrário: os opostiores não se excluem, mas são a alma da realidade, sendo momentos necessários, apesar de abstratos; realidade que é uma síntese de opositores na qual os ditos opostos (afirmação e negação, teses e antíteses) encontrarão sua realização e sua verdadeira realidade.
  
Urs von Balthasar aplicou à eclesiologia essa lógica obscura e hermética, porque ele ignora "o medo da contradição", medo que é natural a qualquer homem de bom senso, mas que foge das preocupações do... ecumenismo atual: tantas "Igrejas", tantas "religiões", o ateísmo, com suas contradições, não espantam von Balthasar e, segundo seu julgamento, não devem espantar ninguém, porque são somente os momentos (teses e antíteses, afirmações e negações) desse processo que conduzirá inevitavelmente, por necessidade intrínseca, à síntese, que é a "Católica" (a catolicidade que não omite nada, a universalidade sem exclusão alguma), na qual se realizará (finalmente, depois de dois mil anos) a verdadeira Igreja de Cristo.
  
Uma vez possuindo esta "chave", a teologia de von Balthasar de hermética se torna transparente e todo o mundo pode ver a enormidade do iceberg que navega sob a água contra a santa Igreja de Deus.

Do "Delírio Filosófico" ao Delírio Ecumênico

Do "delírio filosófico" de Hegel (assim o define Schopenhauer) só poderia nascer o atual delírio ecumênico.

Com esta chave interpretativa, de fato, é possível compreender todos os enigmas de von Balthasar e do ecumenismo atual, de que ele é mestre e autor. Compreende-se, de fato, porque no diálogo ecumênico "uma única coisa fica: fiar-se nas configurações eclesiais e teológicas e na rivalidade entre elas"42. Só o jogo necessário dos opositores é que conduzirá à síntese: "Se esta indicação é levada a sério [fiar-se nas rivalidades]", escreve von Balthasar, "então ela exige muito daqueles que lutam cristãmente pela catolicidade, sobretudo o não fixar-se em nenhum sistema [católico ou não] que, a priori, se suponha onicompreensível e ofereça a mais ampla perspectiva, e não desprezar os pontos de vista opostos."43 Essa onicompreensividade, de fato, será dada somente à "Católica", que é a síntese, e não aos sistemas atuais (incluindo o "sistema" católico"), que são as teses e antíteses destinadas a ser ultrapassadas, aniquilando-se mutuamente, na síntese.

Aos "sistemas" atuais pede-se somente duas coisas: por um lado, que favoreçam a síntese, o "relaxamento e o degelo" de seu próprio bloqueio em torno de um ponto de vista que exclui os pontos de vista opostos; por outro lado, a "competição", o deixar agir a "rivalidade" com os outros sistemas, incluindo as "formas de cristianismo anônimo"44. A síntese, de fato, brota justamente do jogo dos contrários. Tudo isso é incompreensível pela lógica aristotélico-tomista, que é a lógica do bom senso, mas não pela lógica hegeliana.

Compreende-se, então, por que o atual ecumenismo (ver Assis45) põe no mesmo plano e até mantém separadas as diversas "religiões" ("não queremos sincretismo", e é verdade) e, ainda quando promove o insensato diálogo, quer que os budistas sejam bons budistas, os católicos bons católicos (segundo a "nova teologia", é claro), os protestantes bons protestantes e assim por diante: a "competição", o jogo das "rivalidades", de contradições e oposições é essencial ao processo que conduzirá à super-Igreja ecumênica, a "Católica", síntese de todas as religiões, na qual enfim as contradições e oposições serão ultrapassadas.

Compreende-se também por que von Balthasar teve, como De Lubac, sua "crise" pessoal pós-conciliar, que, entretanto, também para ele não foi uma conversão46. Não entrava em sua lógica hegeliana que os católicos abandonassem assim sua identidade: a "Católica" é, também ela, "comunhão entre aquilo que aparentemente se exclui"47. Assim, os contrastes são essenciais à realização da dita "comunhão", exatamente como, na lógica de Hegel, a tese e a antítese são essenciais à realização da síntese, pois, se a tese se retira da "competição" e se torna também antítese, nunca haverá "síntese"48.

Eis por que a Igreja Católica não deve "pôr entre parênteses" mas deve "integrar" (é a palavra-chave para von Balthasar) no "todo católico" (= a "Católica") tudo o que é visto atualmente como "excesso católico"49. No seu livro, enganador e mal-compreendido, Le Complexe antiromain, que tem o incrível e significativo (e freqüentemente omitido) subtítulo Como Integrar o Papado na Igreja Universal (= "Católica"?), von Balthasar sugere justamente a maneira de integrar "esse elemento, que parece atrapalhar, ao todo católico", que claramente não é a Igreja Católica. Eis a maneira sugerida: a Igreja deve ser não somente de Pedro mas também de Paulo, de Maria e de João50. E assim o primado de jurisdição, definido pelo Vaticano I, se apaga atrás de um vago primado da caridade inventado por von Balthasar (e por seus "irmãos separados"), para o qual João Paulo II, como São Paulo, percorre o mundo há anos, explicando aos jornalistas que ele recebera não somente o carisma de Pedro mas também o de Paulo!

A Apostasia

Basta conhecer o Catecismo da Igreja Católica (o antigo, não o novo) para compreender que o ecumenismo de Balthasar é uma verdadeira proposta de apostasia.

Christophe Schönborn, secretário de redação (aviso ao leitor!) do novo "Catecismo", por ocasião do primeiro aniversário da morte de von Balthasar ilustrou o ecumenismo na Igreja de Santa Maria em Basiléia51.

O que é, então, o ecumenismo para von Balthasar? É a "integração no todo da Católica"52, a qual "Católica" não existe ainda e no momento é "somente uma promessa, uma esperança escatológica". Eis como Schönborn explica "a importância ecumênica" da "figura" de Maria em von Balthasar: "em Maria a Igreja aparece como a Igreja santa e imaculada, em quem a plena figura da Igreja, sua 'catolicidade', é não somente promessa, esperança escatológica, mas antes plenitude já realizada". Então, contrariamente à Fé constante e infalível da Igreja, repetida por Pio XI em Mortalium Animos, e contrariamente ao dogma que todo e qualquer católico tem o dever de professar (Credo Ecclesiam unam, sanctam, catholicam), a catolicidade da Igreja não é uma realidade, realizada há dois mil anos, mas uma realidade que ainda está por se realizar, uma simples "promessa, uma esperança escatológica". E o que é, então, a atual Igreja Católica para von Balthasar? Um "sistema" entre outros, uma das numerosas "configurações eclesiais", teses ou antíteses (consoante ela recusa ou é recusada), que será ultrapassada e aniquilada na "Católica", como as seitas, as religiões pagãs e idólatras e os diversos "marxismos".

No catolicismo, não menos que no protestantismo, para von Balthasar, a "negação do outro, a recusa da comunhão", teria produzido uma unidade que, no fundo, consistia somente na reunião em torno de um ponto de vista rígido". 53

A Igreja Católica é a "realização romana da Catolicidade"54; tanto a Igreja Católica como as seitas heréticas e/ou cismáticas, o próprio judaísmo e as "formas anônimas do Cristianismo" são "o todo em fragmentos", onde o todo é a "Católica" e a Igreja Católica é um dos numerosos fragmentos que, inevitavelmente, retornam ao todo. "Cada fragmento", escreve von Balthasar, "faz logo pensar no vasto sagrado de que ele provém, cada pedaço brilha pelo espírito, a partir da obra inteira completa"55, e a Igreja Católica é um "fragmento", um pedaço entre os outros.

Vê-se claramente, então, por que já não se ensina que a Igreja de Cristo "é" a Igreja Católica, mas continua-se a ensinar, com o Vaticano II (ver o novo "Catecismo"), que a Igreja de Cristo "subsist in", subsiste na Igreja Católica, exatamente como o "todo no fragmento"! Eis por que, no diálogo ecumênico, em matéria de fé, o católico concorda em aprender tanto quanto os outros:

"Para os católicos é imperativo afastar a voz daqueles que nos sugerem e nos levam de volta a algum pedaço que falta [sic] ou medianamente valorizado da integridade da fé."56

É por isso que hoje, como escreve Romano Amerio, "se professa abertamente que a união não se deve fazer por conversões individuais, mas pelo acordo das grandes coletividades [as diversas teses e antíteses] que são as Igrejas", e que essa união deve fazer-se não por um retorno dos separados da Igreja Católica, mas "por um movimento de todas as confissões para um centro que está fora de cada uma delas [a síntese evolutiva]"57

E aqui a proposta de apostasia, isto é, de abandono de toda e qualquer doutrina de fé, se torna flagrante. Onde achar a Revelação Divina na sua integridade e na sua pureza senão na Igreja Católica? Propor aos católicos, de maneira mais ou menos dúbia, o êxodo da Igreja Católica é propor a apostasia:

"A fé em Jesus Cristo não ficará pura e incontaminada se não for sustentada e defendida pela fé na Igreja, coluna e fundamento da verdade (1 Tm 3, 15)."58

O Desprezo do Magistério

Em conclusão, é importante assinalar que von Balthasar, como também Blondel e De Lubac, cultivou "sua" teologia com evidente desprezo pelo Magistério da Igreja e especialmente por São Pio X, que, na encíclica Pascendi (1907), condenou o ecumenismo, em que desemboca inevitavelmente o naturalismo dos modernistas; e por Pio XII, que em Humani Generis condena tanto as tentativas de conciliar o idealismo, e portanto Hegel, com a teologia católica como o ecumenismo, em que todos se teriam, "sim, unidos, mas em ruína geral". Em 1946, escrevia o Pe. Garrigou-Lagrange: "Para onde vai a nova teologia com os novos mestres em que se inspira? Para onde senão o caminho do ceticismo, da fantasia e da heresia?" E os novos "mestres" eram Hegel e Blondel, que Fessard (da "turma" de De Lubac) chamava, não sem razão, "nosso Hegel"59. Hoje, no domínio ecumênico, mais do que na fantasia, estamos no delírio. Num dos documentos "ecumênicos" dos mais escandalosos: "Indicações Úteis para Apresentar Corretamente o Judaísmo", da Comissão para Relações com o Judaísmo, presidida pelo cardeal Willebrands60, pode-se ler que os católicos e os judeus, "ainda que partindo de pontos de vista diferentes [ler:opostos], tendem para fins análogos [sic], a vinda ou o retorno [é a mesma coisa!] do Messias". É textualmente o pensamento de von Balthasar, que, como Hegel, encontra o modo de conciliar todos os opostos, fazendo violência à realidade dos fatos:

"Pedro, o renegado, abandona o julgamento do Senhor e se solidariza [sic] com os judeus [que crucificaram Cristo] [...]; juntamente com vós, judeus, também nós, cristãos, esperamos a (re)vinda [sic] do Messias."61

Contudo, von Balthasar e seus companheiros da "nova teologia" nunca teriam conseguido impor na Igreja suas nebulosas elucubrações, que não têm a seu favor nem a força da verdade da razão nem a força da verdade revelada, se João Batista Montini não tivesse subido ao trono de Pedro, mas... daquele mal teólogo filomodernista, posto ao serviço da "nova teologia", sua alta autoridade e seu sucessor foram os propagadores eufóricos. Voltaremos a falar nisso.

Sim Sim Não Não, no. 14, fevereiro de 1994

1. Ed. Piemme.
2.Figura e opera, pp. 29 ss.
3.Ibid., p. 35, citado da introdução de Erde und Himmel (Terra e Céu).
4.Ibid., 33-34.
5. P. 35.
6. Urs von Balthasar, Priifet Alles, p. 9.
7. Ibid.
8. Ver Figura e opera, p. 36.
9. Ver São Pio X, Pascendi.
10. Ibid., pp. 47-48.
11. São Pio X, Pascendi.
12. Il nostro compito (Nossa tarefa), Jaca Book, p. 29.
13. Ibid., p. 37.
14. Ibid., p. 39 ss.
15. Unser Auftrag, p. 85.
16. Figura e opera, cit., p. 43.
17. Henrici S.J., op. cit., p. 44.
18. Ibid., p. 45.
19. Ibid., p. 44.
20. Op. cit., p. 147.
21. Idem.
22. Ibid., p. 59.
23. P. 60, citado de Rechenschaft ou, em italiano, Il filo di Arianna attraverso la mia opera.
24. P. 13.
25. Il nostro compito, p. 13, nota 1.
26. Antonio Royo Marin O.P., Teologia della perfezione cristiana, p. 1077.
27. Il nostro compito, p. 25.
28. P. 1.703; ver Il nostro compito, p. 91.
29. Communio, mai-jun de 1989, pg. 91.
30. Ibid., pp. 91 ss, citando o parágrafo 1.645 de Erde und Himmel, obra póstuma de Adrienne.
31. Erde und Himmel, II § 680.
32. A. Siccari O.C.D., Communio, nov-dez. de 1991, p. 89.
33. Figura e opera, cit., pp. 58 ss.
34. Il nostro compito, p. 14.
35. Ibid., p. 9.
36. Ibid., p. 16.
37. P. 61; Unser Auftrag, p. 78; ver Communio, mai.-jun. de 1989, p. 102, que dá, entre parênteses, as explicações necessárias.
38. Jaca Book, p. 72.
39. Il Popolo de Pordenone, 16 de agosto de 1992.
40. Ibid., p. 32.
41. Mai.-jun. de 1989, p. 83.
42. Figura e opera, cit., p. 417.
43. Ibid., citado por Anspruch auf Katholizität, p. 66.
44. Ibid., pp. 69-70.
45. Na cidade italiana de Assis, em 1986, deu-se uma reunião de representantes de todas as religiões, convocada por João Paulo II, e que, dando origem ao chamado “espírito de Assis”, se vem repetindo desde então todos os anos, em diferentes cidades. Já provocou diversos escândalos, como uma imagem de Buda posta sobre um sacrário.
46. Ver Figura e opera, pp. 417-418.
47. Communio, jul-ago de 1992, art. H. Urs von Balthasar, Communion: un programme.
48. Ver Figura e opera, p. 417.
49. Ibid., p. 446.
50. Ibid., p. 447.
51. Ver Figura e opera, pp. 31 ss: “A Contribuição de Hans Urs Balthasar ao Ecumenismo”.
52. Ibid., p. 448.
53. Ver Figura e opera, p. 407.
54. Ibid., p. 405.
55. Citado em Figura e opera, p. 409.
56. H. U. von Balthasar, Kleine Fibel, p. 92, citado em Figura e opera, p. 444.
57. R. Amerio, Iota Unum, Nouvelles Editions Latines, p. 461.
58. Pio XI, Mit Brennender Sorge.
59. Ver A. Russo, H. de Lubac: Théologie et dogme dans l´Histoire. L´Influence de Blondel.
60. Ver Sì Sì No No, ed. francesa, no. 64, outubro de 1985.
61. H. U. von Balthasar, Communio, jul.-ago. de 1992, p. 57.


segunda-feira, 14 de maio de 2018

São Bonifácio de Tarso, Mártir

14/05 Segunda- feira
Festa de Quarta Classe 
Paramentos Brancos

São Bonifácio, por Dmitry Korin - 1887

Princípios do quarto século sob o império de Galério Máximo. Foi causa de admiração na Igreja uma dessas brilhantes convenções que o senhor opera algumas vezes para reanimar a confiança dos pecadores, ora para descobrir aos homens os tesouros de suas misericórdias. Havia em Roma uma jovem de distinção, rica e poderosa chamada Aglaê, filha de Acácio, que tinha sido pro cônsul de família senatorial; amava a vaidade e o fausto a ponto de dar ao povo jogos públicos á sua custa. Era cristã; mas desonrava esta augusta qualidade por sua condução. Toda preocupada do espírito do mundo, dava-se inteiramente aos prazeres, da dissolução, era um objeto de escândalo para todos os fiéis. Vivia em relações criminosas com o intendente da casa era este um moço bem-apessoado, mas vicioso dado ao vinho e toda a sorte de intemperança chamava-se Bonifácio e era cristão; mas de cristão só tinha o nome que desonrava por sua libertinagem. Entre tantos defeitos admiravam-se lhe boas qualidades, a compaixão pelos infelizes, a caridade para com os pobres, e a hospitalidade para com os estrangeiros. Havia muito tempo que BONIFÁCIO levava, a vida tão desregrada quando o Deus das misericórdias tocou o seu coração daquela que o tinha pervertido. Aglaê, prevenida por uma graça interior, abriu os olhos a sua desordem e aterrada a vista do número dos seus pecados com o coração despedaçado por uma viva e sincera, dor resolveu aplacar a cólera de Deus por suas esmolas e pronta penitencia. A conversão de Aglaê foi bem depressa seguida por Bonifácio; os escândalos que haviam dado aos fiéis foram vantajosamente reparados pela mudança de costumes e pelos grandes exemplos de piedade de ambos. Aglaê fez logo o sacrifício a Deus de todos os seus enfeites e de todas as suas jóias, tornou-se defesos todos os divertimentos e a concorrência a todas as assembleias mundanas. A oração, o jejum, o cilício e muitas outras austeridades sucederam a seus criminosos divertimentos, esforçando-se por com as suas esmolas resgatar seus pecados, sepultou-se em um profundo retiro, resolvida a passar o resto dos seus dias nos gemidos e nas lágrimas. Bonifácio por sua parte nada esquecia para se tornar fiel a graça de Deus e dava todos os dias novas provas da sua conversão. Aglaê, tendo sabido que Galério Máximo continuava no oriente a perseguição contra os cristãos que havia alguns anos cessara em Roma e que cada dia algum generoso servidor de JESUS CRISTO selava sua fé como seu sangue, chamou Bonifácio e lhe disse com as lágrimas nos olhos:

"Não ignoras quanta é a necessidade que temos tu e eu de procurar a proteção dos santos mártires, que é tão poderosa junto de Deus. Tenho ouvido dizer, que se alguém serve os santos (mártires) que combatem por JESUS CRISTO merece que estes santos intercedam por ele junto do soberano juiz. A perseguição inflama-se cada vez mais no oriente, aí aumenta todos os dias o número dos mártires. Vai pois e traz-nos relíquias. Nada poupes para possuir o corpo dum desses mártires; traz-mo e eu o receberei com honra e mandarei edificar em seu nome um santuário." 

Bonifácio contente com uma tal comissão, preparou-se com uma grande equipagem. Leva uma avultada soma de dinheiro, tanto para resgatar os corpos dos mártires, como para assistir aos servos de DEUS que estavam em ferros e para dar esmola aos pobres. Tomando doze cavalos, três liteiras e diversos perfumes para embalsamar os corpos dos mártires, parte para Cilica. Despedindo-se de sua ama: 

"Senhora, lhe diz, gracejando, mandais-me para que vos traga o corpo de um mártir e se DEUS me fizesse a graça de dar a vida pela fé e vos trouxessem o meu corpo, recebê-lo-ias como uma relíquia".
"Não é tempo de gracejar", lhe responde Aglaê, "a coroa do martírio não é para tão grandes pecadores. Torna-te digno de me trazeres um tão santo depósito e por tua piedade esforça-te por merecer a proteção daquele cujas relíquias me trouxerem". 

Estas palavras fizeram impressão sobre o nosso santo. Proibiu-se o uso de carne e vinho durante a viagem. Juntando a esta abstinência preces continuas que dirigia a DEUS e lágrimas de contrição que derramava dispunha-as para a graça do martírio. Tendo Bonifácio chegado a Tarso da Cilicia, mandou as pessoas da sua equipagem para a hospedaria, e ele foi procurar pela cidade cristãos, dos quais pudesse saber o que se passava pouco tardou em se instruir perfeitamente; ao chegar a uma grande praça viu os mártires em tormentos, em número de vinte. Uns estavam pendurados de cabeça para a terra, tendo por baixo fogo, outros distendidos entre quatro postes, despedaçados de uma maneira horrível, alguns eram esquartejados, outros pregados, serrados, empalados, fustigados, até expirarem; e atormentados de maneira tão cruel que os espectadores não o bastante de serem pagãos, tinham horror. São Bonifácio animado de um desejo de martírio e de uma nova coragem, cheio de confiança na misericórdia daquele que lha inspirava, abre caminho através da multidão e aproximando-se dos mártires, abraça-os, beija-os, exclamando:

"Como é grande o DEUS dos cristãos. Como é poderoso o DEUS que estes santos adoram e por cuja glória tem a dita de derramar seu sangue! Suplico-vos que peçais a Jesus Cristo por mim e que me obtenhais a graça por bem grande pecador que eu seja, de ter parte em vossos combates e em vossas vitórias."

Em seguida assentado a seus pés e osculando-os, exclama em alta voz: 

"Coragem mártires de Jesus Cristo combatei por aquele que combate convosco confundi todo o inferno por vossa fé e vossa constância: já não tendes senão alguns momentos de vida a sofrer o combate e breve a recompensa e eterna e imensa". 

O governador Simplício que estava advertindo-o mandou que o trouxessem ao seu tribunal. Pergunta-lhe que é e o que pretende com aqueles entusiasmos. 

"Eu sou cristão" responde, Bonifácio com tom firme e ousado, "tenho inveja desses mártires benditos, que a honra de dar o seu sangue por um DEUS, QUE tendo-se feito homem para nos resgatar quis dar o seu sangue e a sua vida por nós". 

O governador surpreendido desta ousadia, disse:
"Como te chamas?"
"Eu, já vo-lo disse, sou cristão, e se quereis saber o meu nome, sou Bonifácio."
"Tu és bem temerário replicou o governador, para vires insultar-me até ao meu próprio tribunal e a vista dos suplícios. Eis um altar levantado para aqueles teus correligionários que quiserem evitar o ultima suplício e possam oferecer seus sacrifícios a nossos deuses; sacrifica já ao grande Júpiter, se não vais ser atormentado de mil maneiras." 
"Vós podeis fazer de mim o que aprouver, responde Bonifácio, eu já vos disse muitas vezes que sou cristão e que não ofereço sacrifícios a demônios infames."

O governador furioso ao ouvir esta resposta, manda-o fustigar até se lhe verem os ossos, e aguçando canas faz-lhas meter por entre as unhas e os dedos. A dor era viva e aguda, e Bonifácio sofreu-a com um rosto alegre. Simplício, crendo-se insultado por esta serenidade de semblante, manda derreter chumbo, e deitar-lho na boca.

Bonifácio conhecendo que este suplício ia tirar-lhe o uso da fala, da palavra, quis prevenir essa perda para consagrar a DEUS o derradeiro exercício dela; levantando pois os olhos ao céu, fez a DEUS esta oração.

«Meu DEUS e meu SENHOR, JESUS CRISTO, dou-vos graças por vos dignardes aceitar o sacrifício que vos faço da minha vida, vinde em socorro do vosso servo e perdoai-lhe todas as suas iniquidades; fazei que expie em seu sangue e que sua morte lhe sirva de penitência, sustentai-me com vossa graça e não permitais que no meio de tormentos eu tenha algum desfalecimento.»

Tendo acabado esta oração gritou aos outros mártires:

"Irmãos, peço-vos que rezeis por mim". 

Todos os mártires se recomendam igualmente em alta vós as suas orações. O povo comoveu-se e de repente começou a gritar:

"Oh! Como é grande o DEUS dos cristãos! Não há outro DEUS. O DEUS dos mártires é o único DEUS, Jesus Cristo, filho de DEUS, salvai-nos; nós cremos todos em vós". 

Ao mesmo tempo o povo derruba o altar e lançam pedras contra o governador, obrigando-o a esconder-se até que o tumulto passasse. No entanto Bonifácio foi levado á prisão. No dia seguinte o juiz tendo-o encontrado tão invencível como no dia precedente, mandou-o mergulhar em uma caldeira de azeite a ferver. Bonifácio ao entrar nela fez o sinal da cruz e a caldeira arrebentou por todos os lados e o azeite espalha-se em torrente contra todas as pessoas presentes. O governador espantado do poder de Jesus Cristo e receando uma nova sedição, mandou-lhe cortar a cabeça. E assim, Bonifácio expiou os pecados da sua vida passada derramando o seu sangue por Jesus Cristo nosso senhor. Sua morte no dia 14 de Maio, foi seguida de um grande tremor de terra, que aterrou os pagãos, dos quais muitos se converteram. Neste entrementes as pessoas da comitiva de Bonifácio inquietas por o não terem visto voltar as hospedarias havia já dois dias, procuravam-no por toda a parte, alguns mesmo suspeitando que ele tivesse ido a alguma taverna, ou algum alcouce. Como o reclamavam debaixo do nome de um estrangeiro, chegado de Roma, de estatura regular louro e frisado vestido de manto escarlate, encontraram o irmão do carcereiro que pelo retrato que lhe fizeram, lhes disse que era certamente aquele que tendo sido preso como cristão havia dois dias, perdera a cabeça.

Não seria possível, lhe disseram, mostra-nos o seu corpo? Segui-me; disse o irmão do carcereiro, o encontraríeis na arena. Logo que o reconheceram transportados pela admiração de alegria e de sentimentos pelos juízos desfavoráveis que dele tinham feito, se prostraram a seus pés, derramando copiosas lágrimas. A cabeça de Bonifácio por um milagre estupendo abriu os olhos e fixando-os com um doce sorriso, lhes causou interiormente um arrependimento consolador. Depois de haverem satisfeito a sua devoção, perguntaram ao oficial se lhes era permitido levar o corpo. Consentiu nisso mediante a soma de quinhentos soldos de ouro que lhe contaram. Tendo-o embalsamado envolvido em panos preciosos, puseram-no em uma das liteiras, e retomando o caminho de Roma, não cessando de louvar a DEUS por um fim tão ditoso para Bonifácio. Nesse tempo estando Aglaê em oração, ouviu uma voz do céu que lhe disse:

"Aquele que era teu doméstico e agora nosso irmão, recebe-o como teu senhor e dá-lhe um lugar condigno porque é singularmente por sua intercessão que DEUS TE perdoará todos os teus pecados". 

Ergueu-se prontamente transportada de alegria da graça de DEUS, pela misericórdia que usara para com o seu intendente, tendo solicitado de alguns eclesiásticos que a acompanhassem, dirigiu-se ao encontro das santas relíquias, fazendo preces pelo caminho, com círios e perfumes. Teriam andado um quarto de légua quando o corpo de Bonifácio chegou. É indizível a veneração e as lágrimas de alegria com que foi recebido. Como eram terras de Aglaê mandou logo levantar um rico túmulo, e alguém anos depois um magnífico santuário. Tendo inteiramente renunciado ao mundo deu todos os seus bens aos pobres, deu a liberdade aos seus escravos, não retendo ao pé de si senão algumas donzelas que a serviam; levantou um cemitério junto da capela de Bonifácio o santo mártir onde viveu ainda treze anos nos exercícios da mais edificante piedade. Morreu certamente declarando o senhor a santidade de sua serva por muitos milagres.