segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

São Raimundo de Penaforte, Confessor.

23/01 Segunda-feira
Festa de Terceira Classe
Paramentos Brancos



São Raimundo de Penaforte, do catalão Raimon de Penyafort (Vilafranca del Penedès, c. 1175 - Barcelona, 6 de Janeiro de 1275) é o santo patrono da lei canônica e dos advogados canônicos.

São Raimundo dedicou-se desde jovem aos estudos filosóficos e jurídicos. Aos 20 anos de idade ensinava filosofia e direito canônico em Barcelona, onde foi cônego. Em 1210 foi ensinar para Bolonha (Itália), onde ficou até 1222. Foi capelão do papa Alexandre IV, e confessor de do rei Jaime I de Aragão, ao qual repreendeu pela vida licenciosa.

Entrou depois na Ordem dos Pregadores, no convento de Santa Catalina e fez uma intervenção na proclamação da cruzada contra Maiorca.

A sua colaboração com Pedro Nolasco foi essencial na fundação da Ordem de Nossa Senhora das Mercês para a Redenção dos Cativos, obtendo o consentimento de Jaime I para a fundação da Ordem.Por ordem do Papa Gregório IX, voltou a Roma em 1230 para editar a coleção das «Decretais» e fazer a codificação da Lei canônica, que previamente estava espalhada por inúmeros documentos. A sua organização tornou-se um padrão por quase 700 anos, e a Lei canônica foi completamente codificada só em 1917.

Porém, quando o Papa disse que iria nomeá-lo Arcebispo de Tarragona, sentiu-se tão consternado que caiu gravemente enfermo. Quando os seus conhecidos amigos Dominicanos de Bolonha chegaram em Barcelona, abandonou tudo para vestir o hábito branco de São Domingos.

Em 1238 tornou-se terceiro Superior da Ordem Geral dos Dominicanos, por dois anos visitando a pé todos os conventos da Ordem. Redigiu também as suas novas constituições, promulgadas em Paris em 1240), apesar de renunciar ao seu cargo alegando motivos de fraca saúde.

Durante este tempo dedicou-se a converter judeus e muçulmanos ao Catolicismo a unica religião de Cristo, e para cumprir este objectivo introduziu o ensino das línguas árabe e hebraica nas escolas dos dominicanos.

Exercendo a sua influência sobre o Jaime I de Aragão, persuadiu-o a convocar um debate público sobre o judaísmo e o cristianismo, entre Moshe ben Nachman (também chamado El Rab de España ou Bonastruc de Porta), um rabino de Gerona, e Pablo Christiani, um judeu convertido de Montpellier que pertencia à Ordem Dominicana. Neste debate, que teve lugar no palácio real de Barcelona (20-24 de Julho de 1263), na presença do rei e do alto clero, Raimundo teve um papel importante. Liderava os teólogos presentes e, com a concordância do rei, deu liberdade de expressão ao rabino, mas observando que não deveria blasfemar contra o cristianismo. A isto, Moshe ben Nachman respondeu que sabia o que as leis da propriedade exigiam. No sabbath imediatamente após o debate, os cristãos visitaram a sinagoga, onde Raimundo pregou a Santíssima Trindade, negada pelo rabino.

Raimundo obteve a permissão de Jaime I para que Pablo Christiani continuasse as suas viagens missionárias, e também a ordem para que todos os judeus sob a sua soberania fossem obrigados a ouvir os sermões deste e de todos os outros dominicanos. Para além disso, deu um prazo de três meses para eliminar dos livros destes tudo o que estivesse contra a religião cristã. A comissão de censura nomeada consistia em Arnaldo de Guerbo, bispo de Barcelona, Raimundo, e os dominicanos Arnoldo de Legarra, Raymundo Martin (autor de Pugio Fidei) e Pedro de Janua, ou Génova.


Muitos e  grandes milagres obrou Deus por meio do seu servo, dos quais o mais conhecido é o seguinte:  Jaime I, rei de Aragônia, era penitente de Raimundo. Numa viagem que ia fazer à Ilha Majorca, desejava ter seu confessor como companheiro.   No mesmo trajeto, o rei levou uma mulher, com a qual  tinha relações ilícitas. Raimundo muito lhe pediu que a despedisse,  no que o rei prometeu atendê-lo, mas a mulher ficou.   Chegados a Majorca,  Raimundo fez  a  sua permanência na côrte depender do afastamento da concubina da  casa real; no caso contrário, voltaria  para Barcelona .  Jaime ordenou a  todos os barqueiros e proprietários de navios que, sob pena de morte, nenhum se  atrevesse a transportar  o frade para a Espanha. Raimundo, ignorando a  ordem do Rei, dirigiu-se  ao porto, para embarcar num daqueles navios que  iam para o continente,  mas não achou entre os marinheiros  quem  o  quisesse transportar. Adiantou-se então o santo homem até um rochedo, que estava mais para dentro do mar, tomou a capa, estendeu sobre a água, tomou o bastão, fez o sinal da cruz e pôs-se sobre a capa, como se entrasse numa barca. Chamou um companheiro para que fosse com ele. Este, porém, não teve o ânimo de segui-lo e, estupefato, presenciou aquele singular embarque. Raimundo pôs então o bastão no meio, levantou uma parte da capa a  modo de vela, uniu-a com a extremidade do bordão e  começou a navegar.  Em seis horas fez a viagem até barcelona percorrendo uma distância de  160 milhas.  Chegando a Barcelona, saltou em terra, tirou a  capa, que estava enxuta, e foi para o convento.  Aos 70 anos voltou a ensinar. Foi também um escritor fecundo.  Entre os seus escritos, destaca-se a Summa Casuum para a administração recta e proveitosa do sacramento da Penitência, e também a Summa de poenitentia et matrimonio, a Summa contra gentes sobre muçulmanos e judeus e a Summa pastorales.

Raimundo morreu em 6 de Janeiro de 1275 e está enterrado na catedral de Barcelona. O papa Clemente VIII procedeu à sua canonização em 29 de Abril de 1601. É o santo padroeiro da Lei canónica e dos seus advogados, e na Espanha é padroeiro de todos os advogados. A sua festa religiosa celebra-se a 23 de Janeiro.
  

Leitura da Epístola

Eclesiástico 31,8-11
8 Bem-aventurado o rico que foi achado sem mácula, que não correu atrás do ouro, que não colocou sua esperança no dinheiro e nos tesouros! 9 Quem é esse homem para que o felicitemos? Ele fez prodígios durante sua vida. 10 Àquele que foi tentado pelo ouro e foi encontrado perfeito, está reservada uma glória eterna: ele podia transgredir a lei e não a violou; ele podia fazer o mal e não o fez. 11 Por isso seus bens serão fortalecidos no Senhor, e toda a assembléia dos santos louvará suas esmolas.  

Sequência do Santo Evangelho

São Lucas 12,35-40
35 Estejam cingidos os vossos rins e acesas as vossas lâmpadas. 36 Sede semelhantes a homens que esperam o seu senhor, ao voltar de uma festa, para que, quando vier e bater à porta, logo lha abram. 37 Bem-aventurados os servos a quem o senhor achar vigiando, quando vier! Em verdade vos digo: cingir-se-á, fá-los-á sentar à mesa e servi-los-á. 38 Se vier na segunda ou se vier na terceira vigília e os achar vigilantes, felizes daqueles servos! 39 Sabei, porém, isto: se o senhor soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria sem dúvida e não deixaria forçar a sua casa. 40 Estai, pois, preparados, porque, à hora em que não pensais, virá o Filho do Homem.


Ilustração: Autor desconhecido

domingo, 22 de janeiro de 2017

O que faz o réprobo no inferno?


Peccator videbit et irascetur, dentibus suis fremet et tabescet; desiderium peccatorum peribit — “Vê-lo-á o pecador e se indignará; rangerá os dentes e se consumirá; o desejo dos pecadores perecerá” (Ps. 111, 10).


O réprobo no inferno, vendo-se oprimido pelos seus tormentos inefáveis e desesperando de jamais remediar os seus males, será devorado por um ódio contínuo de Deus e amaldiçoará todos os benefícios que dele recebeu. Assim como amaldiçoa a Deus, amaldiçoará também todos os Anjos e Santos, e especialmente à divina Mãe, cuja intercessão não quis aproveitar. Ah, meu Jesus! Seja cortada antes a minha língua; protesto que nunca Vos quero amaldiçoar, mas sim louvar-Vos para sempre no paraíso.

A alma, criada para amar o seu Criador, não pode deixar de sentir um impulso natural ao amor de seu último fim. Na vida presente, as trevas do pecado e os afetos terrenos podem entorpecer a inclinação da alma para se unir a Deus, e por isso não se aflige muito com a separação. Mas, quando sai do corpo e se vê livre dos sentidos, então vê claramente que só Deus a pode contentar. Pelo que procura ir logo unir-se a seu supremo Bem; mas achando-se em estado de pecado, vê que é repelida por Deus, como sua inimiga. Ainda que repelida, não deixará de se sentir sempre atraída à união com Deus, e o seu inferno consistirá em ver que sempre é atraída para Deus e sempre repelida por Ele.

Se a desgraçada, já que perdeu seu Deus e não O pode contemplar, pudesse ao menos consolar-se amando-O! Mas não, pelo abandono da graça, a sua vontade está pervertida. Por um lado, pois, ver-se-á sempre atraída a amar seu Deus; por outro, ver-se-á obrigada a odiá-Lo. Portanto, ao mesmo tempo que reconhece ser Deus digno de amor e louvor infinitos, odeia-O e amaldiçoa-O.  Se ainda naquela prisão de tormentos, pudesse resignar-se à vontade de Deus e bendizer a mão que com justiça a castiga, como fazem as almas do purgatório! Não pode, porém, resignar-se, pois que para isto deveria ser auxiliada pela graça; mas esta (como já ficou dito) abandonou-a; pelo que a sua vontade é inteiramente contraria à vontade divina.

Tudo isso faz com que a infeliz vire todo o seu ódio contra si própria, e assim viverá sempre dilacerada por afetos opostos. Quisera sempre viver para odiar a Deus, objeto de seu ódio mais profundo, e sempre quisera morrer para não sentir a pena de O ter perdido. Vê, porém, que não mais pode morrer, e assim viverá numa incessante agonia. Roguemos a Deus, pelos merecimentos de Jesus Cristo, que nos livre do inferno, particularmente deve rogar assim quem em sua vida perdeu Deus pelo pecado mortal.

II. Contempla qual será a eterna ocupação do réprobo no inferno. Continuamente odiará e amaldiçoará a Deus, e, amaldiçoando a Deus, amaldiçoará também os benefícios que d’Ele recebeu: a criação, a redenção, os sacramentos, em particular, o batismo e a penitência. Sobretudo amaldiçoará o Santíssimo Sacramento do altar, que ele profanou tantas vezes e recebeu talvez sacrilegamente. O desgraçado odiará todos os Anjos e Santos, especialmente o Anjo da guarda e os seus santos Padroeiros, e mais que todos, a divina Mãe, odiará as três Pessoas divinas e, em particular, o Filho de Deus, morto para o salvar, amaldiçoando-Lhe as chagas, o sangue, os sofrimentos e a morte: O pecador verá e se indignará; rangerá os dentes, e se consumirá; o desejo dos pecadores perecerá.

Ah, meu doce Redentor Jesus! Ah, minha amadíssima Corredentora, Maria! Se jamais meu coração se sentiu enternecido e compungido à vista de suas culpas, eis que agora Vô-lo demonstram as lágrimas que derramo aos vossos pés. Misericórdia! † Meu Jesus, misericórdia!Quem me dera nunca Vos ter ofendido! No futuro, quero antes perder mil vezes a vida do que tornar a ofender-Vos. Não é o temor do inferno que me faz falar assim, mas o temor de ter que blasfemar contra Vós nesse abismo.

Ó Meu Deus, se por desgraça me condenar, terei de Vos amaldiçoar eternamente? Os meus lábios que agora Vos bendizem e exortam os outros a vosso louvor, estes lábios terão de sempre Vos amaldiçoar? Ó Senhor, não o consintais! Antes se me seque a garganta, antes se me corte a língua, seja eu antes reduzido a cinza pelo raio de vossa ira; mas protesto que nunca Vos quero amaldiçoar. Desejo ao contrário, ir ao céu para Vos louvar e bendizer, juntamente com Maria Santíssima, com os Anjos e os Santos, por toda a eternidade. Mas deveis ajudar-me com a vossa graça. Ó meu Jesus, fazei-o pelos merecimentos de vossa Paixão e pelas dores de vossa querida Mãe. (*II 292.)


(Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso Maria de Ligório)


Fonte: Dominus Est
Ilustração: Autor desconhecido

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

São Tomás responde: É lícito julgar?

Michelangelo Buonarroti, O Último Julgamento (entre 1537 e 1541), Capela Sistina



Parece que não é lícito julgar:

1. Com efeito, só se inflige castigo a uma ação ilícita. Ora, os que julgam são ameaçados de um castigo, de que está isento quem não julga, como diz o Evangelho: “Não julgueis, se não quereis ser julgados” (Mt 72, 1). Logo, julgar é ilícito.

2. Além disso, diz também a Escritura: “Quem és tu para julgar o servo alheio? Só depende de seu senhor que ele caia ou fique de pé” (Rm 14, 4). Ora, o Senhor de todos é Deus Logo, a nenhum homem é lícito julgar.

3. Ademais, ninguém é sem pecado: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos”, diz João (I Jo 1, 8). Ora, não é permitido ao pecador julgar, segundo o testemunho da Carta aos Romanos: “Quem quer que sejas, és inescusável, ó homem que julgas. Pois, naquilo que julgas os outros a ti mesmo te condenas, praticando aquilo que julgas” (2, 1). Logo, a ninguém é lícito julgar.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, está escrito no Deuteronômio: “Estabelecerás juízes e magistrados em todas as tuas portas, para que julguem o povo com justiça” (16, 18).

O julgamento é lícito na medida em que é um ato de justiça. Ora, como já se explicou, para que o julgamento seja um ato de justiça, se requerem três condições: 1º que proceda de uma inclinação vindo da justiça; 2º que emane da autoridade competente; 3º que seja proferido segundo a reta norma da prudência. A falta de qualquer desses requisitos torna o juízo vicioso e ilícito. Assim, em primeiro lugar, se vai contra a retidão da justiça, é perverso e injusto. Em seguida, se alguém julga sem autoridade, o juízo será usurpado. Enfim, se carece da certeza, quando, por exemplo, se julga de coisas duvidosas e obscuras, apoiando-se em simples conjecturas, o juízo será qualificado de suspeito e temerário.

Quanto às objeções iniciais, portanto, deve-se dizer que:

1. No lugar citado, o Senhor proíbe o juízo temerário, tendo por objeto as intenções secretas do coração ou outros domínios incertos, como diz Agostinho. Ou então, interdiz que se julgue das coisas divinas, pois estando acima de nós, não as devemos julgar mas crer nelas simplesmente, assim o explica Hilário. Ou condena todo julgamento inspirado não pela benevolência, mas pelo ressentimento amargo. Tal é a interpretação de Crisóstomo.

2. O juiz é constituído ministro de Deus. Por isso, diz a Escritura: “Julgai segundo a justiça” (Dt 1, 6). E acrescenta: “Tal é o juízo de Deus”.

3. Os que estão em pecados graves não devem julgar os culpados das mesmas altas ou de faltas menores, como explica Crisóstomo. Mas, sobretudo, se os pecados são públicos, pois isso provocaria o escândalo nos corações dos outros. Se não são públicos, mas ocultos, e a necessidade do ofício exija que se julgue com urgência, pode-se argüir ou julgar, fazendo-o com humildade e temor. Daí a exortação de Agostinho: “Se nos encontrarmos no mesmo vício, havemos e gemer juntos, incitando-nos reciprocamente aos mesmos esforços”. Contudo, nem por isso o homem que julga se condena a si mesmo, incorrendo em uma nova condenação, a não ser que, condenando os outros, ele se mostre merecedor de condenação semelhante por estar no mesmo pecado ou em pecado semelhante.


Suma Teológica II-II, q.60, a.2



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A conversão de Ludwig von Pastor



Ludwig von Pastor (1854-1928)
Papa Leão XIII (1810-1903)


O historiador alemão Ludwig von Pastor era protestante e, certa ocasião, desafiou publicamente a Igreja Católica a abrir os seus arquivos secretos. Tinha certeza, afirmava, de que eles jamais seriam abertos, para não serem revelados horrores tremendos...

Na ocasião, acabava de ser eleito Papa Leão XIII, que mandou dizer a Pastor que os arquivos do Vaticano estavam inteiramente abertos para ele. No início, Pastor não acreditou, mas viajou para Roma e ali encontrou, realmente, todas as facilidades em seu trabalho de pesquisa. Nada lhe foi negado, nada lhe foi escondido. Ele passou anos trabalhando e produziu uma obra monumental, em 40 volumes, com a história dos Papas desde a Renascença até o final do século XVIII. Nessa obra, registrou todos os horrores (e foram realmente horrores, é inegável) de Papas renascentistas.

A certa altura da sua pesquisa, solicitou e obteve uma audiência com Leão XIII. Apresentou-se ao Papa, agradeceu as facilidades que obtivera na pesquisa e, para grande surpresa de Leão XIII, declarou que desejava tornar-se católico. 

O Papa, muito espantado, respondeu:
- Mas, Professor, antes de conhecer por dentro os horrores praticados por antecessores meus, o Sr. era contra a Igreja Católica, e agora, que conhece tudo documentadamente, quer ser católico? Não estou compreendendo sua atitude.

A resposta de Ludwig von Pastor foi muito interessante:
- Santidade, eu me convenci de que a Igreja Católica é realmente uma instituição divina. Se nem Papas conseguiram destruí-la, é porque é divina mesmo!

Autor: Armando Alexandre dos Santos - Jornalista e diretor da Revista da Academia Piracicabana de Letras



quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Formas de atitude egocêntrica

Dietrich von Hildebrand (1889-1977)


"Existem diversas formas de atitude egocêntrica. Há pessoas que, por exemplo, se sentem permanentemente ameaçadas ou constrangidas em seus 'direitos'. Andam em contínuo sobressalto, preocupadas se são tratadas com respeito ou se estão sendo ajudadas naquilo a que aspiram, não raro de maneira incongruente quanto às situações concretas de suas vidas pletóricas de vontadezinhas por satisfazer. (...) Assim, perdem a serenidade necessária à apreciação criteriosa da realidade, encerram-se num dédalo de sofismas amargurantes e, com isto, estão sempre prestes a cometer injustiças em seus juízos relativos ao proceder alheio, induzidas pela valoração hipertrofiada dos seus presumíveis direitos. Acabam por se perder nas malhas agônicas da auto-exaltação, da indulgência culpável para com os vícios mentais a que sucumbem com freqüência". 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Boas disposições de uma alma católica


Preparações Divinas



Por Dom Columba Marmion, O.S.B.


É verdade que Jesus Cristo já vive em nós pela graça santificante que nos faz nascer filhos de Deus; mas a Igreja quer que esta graça se renove e que vivamos uma vida nova, mais livre do pecado, que sejamos menos imperfeitos, mais desprendidos de nós mesmos e das criaturas: (…) [pois,] se é verdade que Ele nasceu, viveu e morreu por nós (…) também é verdade que a aplicação dos Seus merecimentos e a dispensação das Suas graças se realiza na alma na medida dessas disposições.

Quais são essas disposições? Podem resumir-se em quatro.

1. PUREZA de coração. Vejamos: quem estava mais bem preparado para a vinda do Verbo Incarnado à terra? Era, sem dúvida, a Virgem Maria. No momento em que o Verbo veio ao mundo, achou o coração desta Virgem perfeitamente preparado e capaz de receber as liberalidades divinas de que a queria cumular.

O seio de Deus, de brilho imaculado, é a morada natural do Filho único de Deus; o Verbo está sempre in sinu Patris; mas, incarnando, quis também, por inefável condescendência, ser in sinu Virginis Matris; era mister que o tabernáculo que lhe oferecia a Virgem Lhe lembrasse, por sua pureza incomparável, o seio eterno onde, como Deus, vive sempre: Christus sinus erat in Deo Patre divinitas, in Maria Matre virginitas¹.

2. A primeira disposição que atrai Jesus Cristo é uma grande pureza. Nós, porém, pecadores que somos, não podemos oferecer ao Verbo, a Jesus, essa pureza imaculada que Ele tanto ama. O que poderá substituí-la em nós? A HUMILDADE.

Se não temos a pureza da Virgem Maria, peçamos ao menos ao menos a humildade da Madalena, o amor da contrição e da penitência.

3. Todavia, a consideração das nossas enfermidades não nos deve desanimar; pelo contrário. Quanto mais sentirmos a nossa fraqueza, tanto mais devemos abrir nossa alma à CONFIANÇA, porque a salvação vem unicamente de Jesus Cristo.

O Verbo desposou a nossa natureza; tomou sobre Si as nossas enfermidades para experimentar o que é o sofrimento; vem a nós para que tomemos parte na Sua vida divina; possui todas as graças que podemos esperar, e possui-as em plenitude para no-las conceder.

4. Esta confiança manifestar-se-á sobretudo em DESEJOS ARDENTES de ver Jesus Cristo em nós para reinar mais ainda: Adveniat regnum tuum! A Liturgia desenvolve em nós estes desejos. Ao mesmo tempo que põe diante de nós e nos faz reler as profecias, sobretudo as de Isaías, a Igreja leva aos nossos lábios as aspirações e anelos dos antigos justos.

Sabeis muito bem que Deus é senhor dos Seus dons; Ele é soberanamente livre e ninguém pode pedir-Lhe contas das Suas preferências; mas na aplicação ordinária de Sua Providência «Ele guia-se pelas súplicas dos humildes que Lhe expõem as suas necessidades»: Desiderium pauperum exaudivit Dominus².

Portanto, se queremos que (…) uma fonte de abundantes graças para a Igreja e para nós, procuremos purificar os nossos corações, tenhamos uma humildade cheia de confiança, e sobretudo dilatemos a nossa alma pela grandeza e veemência dos nossos desejos.



Fonte: Dom Columba Marmion, O. S. B. — “Jesus Cristo nos Seus Mistérios”, Mosteiro de Singeverga, Edições “Ora & Labora”, tradução de 1958 do original de 1919, páginas 127 a 133.

Retirado do blog: Nordeste Tridentino
Fotografia: Apenas para ilustração. Desconheço o nome do autor.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Por que Cristo nasceu em 25 de Dezembro e Por que Isso Importa



INTRODUÇÃO

A Igreja Católica, desde pelo menos o século II, afirmou que Cristo nasceu em 25 de dezembro. No entanto, é comumente alegado que o nosso Senhor Jesus Cristo não nasceu neste dia e que esta data foi importada do Paganismo.

Neste presente texto iremos demonstrar como Cristo nasceu em 25 Dezembro e refutar as principais acusações. Por uma questão de simplicidade, vamos colocar apenas as objeções mais usuais para a data e responder cada uma delas.



COMO DESCOBRIR A DATA DO ANIVERSÁRIO DE CRISTO?

Agora vamos estabelecer o aniversário de Cristo a partir da Escritura Sagrada em duas etapas. O primeiro passo é usar a Escritura para determinar o aniversário de São João Batista. O segundo passo é usar o aniversário João Batista como a chave para encontrar o aniversário de Cristo.

Podemos descobrir que Cristo nasceu no final de Dezembro, observando primeiro a época do ano em que Lucas descreve Zacarias no templo. Isso nos fornece a data da concepção aproximada de João Batista. A partir daí podemos seguir a cronologia que São Lucas dá, e que nos leva ao final de Dezembro.

Lucas relata que Zacarias servia na “classe de Abdias" (Lc 1, 5), que os registros bíblicos mencionam como a oitava classe entre as vinte e quatro classes sacerdotais (Ne 12, 17). Cada classe de sacerdotes servia uma semana no templo duas vezes por ano. A classe de Abdias servia durante a oitava semana e a trigésima segunda semana no ciclo anual. No entanto, quando é que o ciclo de classes começa?

Josef Heinrich Friedlieb convincentemente estabeleceu que a primeira classe sacerdotal de Joiaribe estava de plantão durante a destruição de Jerusalém no nono dia do mês judaico de Av.[1] Assim, a classe sacerdotal de Joiaribe estava de plantão durante a segunda semana de Av. Consequentemente, a classe sacerdotal de Abdias (A classe de Zacarias) estava, sem dúvida, servindo durante a segunda semana do mês judaico de Tishrei – a própria semana do Dia da Expiação, no décimo dia de Tishri. Em nosso calendário, o Dia da Expiação cai em qualquer dia entre 22 de Setembro e 8 de outubro.

Zacarias e Isabel conceberam João Batista imediatamente após Zacarias servir na sua classe. Isto implica que São João Batista teria sido concebido por volta do final de setembro, colocando assim o nascimento de João no final de junho do ano posterior, o que confirma a celebração da Natividade de São João Batista em 24 de junho. Quando o anjo Gabriel anunciou a Maria em Lucas 1, 36, disse que Isabel já estava no sexto mês de gravidez, logo se João Batista foi concebido em setembro, seis meses depois estariam em Março, logo Maria ficou grávida de Jesus em Março, em uma gravidez normal, Março é mês 3, mais 9 meses de gravidez, vamos cair irremediavelmente em Dezembro.

O protoevangelho de Tiago do segundo século também confirma a concepção de João Batista no final de setembro uma vez que a obra descreve Zacarias como Sumo Sacerdote e entrando no Santo dos Santos, não apenas no lugar santo do altar do incenso. Este é um erro fatual porque Zacarias não era o sumo sacerdote, mas um dos principais sacerdotes. Ainda assim, o protoevangelho refere se a Zacarias como um sumo sacerdote, e este o associa com o Dia da Expiação, que desembarca no décimo dia do mês hebreu de Tishrei (aproximadamente o final do nosso setembro). Imediatamente após esta entrada ao templo e a mensagem do Arcanjo Gabriel, Zacarias e Isabel conceberam João Batista. Tendo quarenta semanas (nove meses) de gestação, isso coloca o nascimento de João Batista no final de junho e, mais uma vez confirmando a data Católica para o Nascimento de João Batista em 24 de junho.

O resto da datação é bastante simples. Vamos recapitular: Lemos que, logo após a Imaculada Virgem Maria conceber Cristo, ela foi visitar sua prima Isabel que estava grávida de seis meses de João Batista. Isso significa que João Batista era seis meses mais velho que o nosso Senhor Jesus Cristo (Lc 1, 24-27, 36). Se você adicionar seis meses a 24 de junho, quando João nasceu, você tem 24-25 Dezembro como o nascimento de Cristo. Então, se você subtrair nove meses a partir de 25 de Dezembro que você tem a Anunciação em 25 de Março. Todas as datas coincidem perfeitamente. Assim, pois, se João Batista foi concebido logo após o Dia judaico da Expiação, em seguida, as datas católicas tradicionais são essencialmente corretas. O nascimento de Cristo seria por volta ou em 25 de dezembro.

Além disso, os testemunhos dos antigos revelam que os Padres da Igreja alegavam 25 de Dezembro como o aniversário de Cristo antes da conversão de Constantino e do Império Romano. O registro mais antigo desta situação é que o Papa São Telesforo (reinou 126- 137 d.C) que instituiu a tradição da Missa do Galo na véspera de Natal. Embora o Liber Pontificalis não nos dá a data do Natal, ele assume que o Papa já estava comemorando o Natal e que uma missa à meia-noite era realizada. Durante este tempo, também lemos as seguintes palavras de Teófilo (115-181 d.C), bispo católico de Cesaréia na Palestina:

“Devemos comemorar o aniversário de Nosso Senhor, a cada 25 de dezembro isso deve acontecer.” (Magdeburgenses, Cent. 2. c. 6. Hospinian, De origine Festorum Chirstianorum.)

Pouco tempo depois, no século II, Santo Hipólito (170-240 AD) escreveu em uma passagem, que o nascimento de Cristo ocorreu em 25 de dezembro:

“O Primeiro Advento de nosso Senhor na carne ocorreu quando Ele nasceu em Belém, era 25 de dezembro, uma quarta-feira, enquanto Augustus estava em seu quadragésimo segundo ano, que é de cinco mil e quinhentos anos desde Adão. Ele morreu no trigésimo terceiro ano, 25 de março, sexta-feira, no décimo oitavo ano de Tibério César, enquanto Rufus e Roubellion eram cônsules.” (Comentário sobre Daniel 4, 23) [2]

Observe também, na citação acima, o significado especial de 25 de Março, que marca a morte de Cristo (25 de março correspondia ao mês hebraico de Nisan 14 - a data tradicional da crucificação)  Cristo, como o homem perfeito, acreditava-se ter sido concebido e morrido no mesmo dia de 25 de março  em seu Chronicon, Santo Hipólito afirma que a Terra foi criada em 25 de março de 5500 a.C. Assim, 25 de março foi identificado pelos Padres da Igreja, como a data de criação do universo, como a data da Anunciação e Encarnação de Cristo, e também como a data da morte de Cristo, nosso Salvador.

Na Igreja síria, 25 de março ou a Festa da Anunciação era vista como uma das festas mais importantes de todo o ano. É indicado o dia em que Deus assumiu a sua residência no seio da Virgem. Na verdade, se a Anunciação e Sexta-Feira Santa entram em conflito no calendário, a Anunciação superou isso, tão importante foi o dia na tradição síria. Desnecessário será dizer que a Igreja síria preservou algumas das mais antigas tradições cristãs e tinha uma devoção doce e profunda a Maria e a Encarnação de Cristo.

25 de março foi consagrado na tradição cristã primitiva, e a partir desta data, é fácil discernir a data do nascimento de Cristo. 25 de Março (Cristo concebido pelo Espírito Santo), mais nove meses nos leva a 25 de dezembro (o nascimento de Cristo em Belém).

Santo Agostinho confirma esta tradição de 25 março como a concepção messiânica e 25 de dezembro como o Seu nascimento:

“É crido que ele foi concebido no dia 25 de março, dia em que também ele sofreu; de modo que o seio da Virgem, no qual ele foi concebido, onde ninguém dos mortais foi gerado, corresponde à nova sepultura na qual ele foi enterrado, na qual ninguém havia sido posto (Jo 19,41), nem antes nem depois dele. Mas ele nasceu, segundo a tradição, em 25 de dezembro.” (Sobre a Trindade Livro 4,  Capítulo 5)

Por volta do ano 400 d.C, Santo Agostinho também observou como os donatistas cismáticos comemoravam 25 de dezembro como o nascimento de Cristo, mas que os cismáticos se recusavam a celebrar a Epifania em 6 de janeiro, uma vez que eles consideravam Epifania como uma nova festa sem uma base na Tradição Apostólica. O cisma donatista originou-se em 311 d.C o que indica que a Igreja Latina celebrava o Natal em 25 de dezembro. Qualquer que seja o caso, a celebração litúrgica do nascimento de Cristo foi comemorada em Roma em 25 de dezembro muito antes de o cristianismo se tornar legalizado e muito antes de qualquer registro mais antigo de uma festa pagã para o aniversário do Sol Invicto. Por estas razões, é razoável e com razão, que Cristo nasceu em 25 de dezembro no ano 1 a.C e que ele morreu e ressuscitou em Março do ano 33 d.C.



REFUTANDO OBJEÇÕES

Objeção I:

25 de dezembro foi escolhido para substituir o festival pagão romano de Saturnália. Saturnália era uma festa popular do inverno e assim a Igreja Católica prudentemente substituiu o Natal em seu lugar.



Reposta a Objeção I:

Na Saturnalia comemorava-se o solstício de inverno. No entanto, o solstício de inverno cai em 22 de dezembro. É verdade que as celebrações da Saturnalia começavam mais cedo por volta de 17 de dezembro e era prorrogado até 23 de dezembro. Ainda assim, as datas não coincidem.



Objeção II:

25 de dezembro foi escolhido para substituir o feriado pagão romano Natalis Solis Invicti que significa “Aniversário do Sol Invícto.”



Resposta à Objeção II:

Vamos examinar primeiro o culto do Sol Invicto. O imperador Aureliano introduziu o culto do Sol Invictus ou Sol Invicto a Roma em 274 d.C. Aureliano encontrou tração política com esse culto, porque o seu próprio nome de Aureliano deriva da palavra latina aurora denotando “nascer do sol”. Moedas revelam que chamava a si mesmo imperador Aureliano o Pontifex Solis ou Pontífice do Sol. Assim, Aureliano simplesmente acomodou um culto solar genérico e identificou o seu nome com ele no final do terceiro século depois de Cristo.

Mais importante ainda, não há nenhum registro histórico para uma celebração do Natalis Sol Invictus em 25 de dezembro antes de 354 depois de Cristo. Dentro de um manuscrito iluminado do ano de 354 d.C, há uma entrada de 25 de dezembro de leitura "N INVICTI CM XXX." Aqui N significa “natividade”. Invicti significa “do Invicto”. CM significa “circenses missus” ou “jogos ordenados.” o XXX numeral romano é igual a trinta. Assim, a inscrição significa que trinta jogos foram encomendados para a natividade do Invicto para 25 de dezembro. Note-se que a palavra “sol” não está presente. Além disso, o mesmo codex também lista “Christus natus in Betleem Iudeae” no dia de 25 de dezembro. A frase é traduzida como “nascimento de Cristo em Belém da Judéia.”[3]

A data de 25 de dezembro só se tornou o “Aniversário do Sol Invicto” sob o imperador Juliano o Apóstata. Juliano, o Apóstata que tinha sido um cristão, mas que havia apostatado e retornou ao paganismo romano. A história revela que ele foi um ex-imperador cristão odioso que erigiu um feriado pagão em 25 de dezembro. Pense nisso por um momento. O que ele estava tentando substituir? Estes fatos históricos revelam que o Sol Invicto não era provavelmente uma divindade popular no Império Romano. O povo romano não precisava ser tirado de um chamado “feriado antigo”. Além disso, a tradição de uma celebração em 25 de dezembro não encontra lugar no calendário romano até depois da cristianização de Roma. O feriado do “Aniversário do Sol Invicto” era pouco tradicional e dificilmente popular. Saturnalia (mencionado acima) foi muito mais popular, tradicional e divertido. Parece, antes, que Juliano, o Apóstata tinha tentado introduzir um feriado pagão, a fim de substituir o cristão! Ou seja, ao invés do cristianismo tentar copiar uma festa pagã, foram os pagãos que tentaram substituir uma festa Cristã.



Objeção 3:

Cristo não poderia ter nascido em dezembro já que Lucas descreve pastores com seus rebanhos nas áreas vizinhas de Belém. Pastores não arrebanham durante o inverno. Assim, Cristo não nasceu no inverno.



Resposta à objeção III:

Quem faz esta objeção acha que a palestina tem um inverno tal qual a Europa. Vale lembrar que a Palestina não é a Inglaterra, Rússia, ou Alasca. Belém está situada na latitude de 31.7. Dallas, no Texas tem latitude de 32,8, e ainda é bastante confortável do lado de fora em Dezembro. Como o grande Cornelio em uma Lapide observa durante sua vida, ainda se podia ver pastores e ovelhas nos campos da Itália durante o final de dezembro, e a Itália tem maior latitude que Belém.

Podemos ver no site do accuweather, um dos mais respeitados sites de meteorologia do mundo, que a temperatura média de Jerusalém no mês de Dezembro varia entre 10 e 20 ºC em todo o mês de Dezembro. Claro que estamos falando de 2015 anos de diferença, porém por projeção e sabendo que não houve uma drástica mudança climática em Jerusalém neste tempo, podemos afirmar que esta era a temperatura média que Maria e José enfrentavam quando Jesus nasceu. Em outros locais com temperatura menor que esta, várias atividades são feitas normalmente, nada impediria pastores estarem com seus rebanhos no campo, mesmo levando em conta a temperatura mínima e mesmo que houvesse neve.

Ovelhas durante a neve no campo

A Bíblia confirma plenamente a capacidade de pastores estarem nos campos, vigiando seus rebanhos em dezembro. Refere-se especificamente que Jacó vigiava rebanhos de Labão pela geada do inverno à noite (Gn 31, 40). As fotos abaixo foram tiradas em Belém no Natal de 1890 e 2006. Como pode ser visto, o clima é perfeitamente adequado para estar do lado de fora. Por isso, não há simplesmente nenhuma base para essa objeção.

Natal em Belém em 1890


Natal em Belém em 2006




NOTAS

[1] Josef Heinrich Friedlieb’s Leben J. Christi des Erlösers. Münster, 1887, p. 312.

[2] O  “25 de Dezembro” não se encontra na NFPF tradução do protestante Philip Schaff, sobre isso ler aqui: http://www.roger-pearse.com/weblog/2010/01/12/the-text-tradition-of-hippolytus-commentary-on-daniel/

[3] The Chronography of AD 354. Part 12: Commemorations of the Martyrs. MGH Chronica Minora I (1892), pp. 71-2.



domingo, 25 de dezembro de 2016

Nascimento do Menino Jesus: momento sublimíssimo

Giotto di Bondone entre 1302 e 1306,
Capela degli Scrovegni, Pádua (Itália)

O afresco representa o Nascimento do Menino Jesus e é de autoria do célebre pintor italiano Giotto. 

São José está dormindo, as ovelhinhas estão por perto, o burrico também, e os Anjos enchem o céu, cantando a Glória de Deus.

Os pastores estão ouvindo o cântico celeste: “Glória a Deus no mais alto dos Céus, e paz na Terra aos homens de boa vontade”. 

É exatamente o que a Liturgia, na noite do dia 24 para 25, deve celebrar. 

É noite, e Nossa Senhora acaba de dar à luz o Menino Jesus, de modo misterioso e maravilhoso.

O gesto d'Ela, a sua atitude, são apresentados como os de uma pessoa inteiramente sadia, que se empenha em aconchegar o Menino Deus. Mas Ela o faz com um desembaraço físico de movimentos, que não é o da mãe comum após o parto. 

O processo de nascimento é dolorido e difícil, em virtude do pecado original. Contudo, tendo Nossa Senhora sido virgem antes, durante e depois do parto, esse nascimento se deu de modo milagroso. 

Não representou nenhum esforço para a Virgem Santíssima. Ela parece ter acordado de um sono brando. 


É uma cena lindíssima, que empolga. Pode-se imaginar a situação de Nossa Senhora ao ver — pela primeira vez com seus olhos terrenos, seus olhos carnais — o fruto do Divino Espírito Santo concebido em suas próprias entranhas. E que fisionomia apresenta o Homem-Deus que acaba de nascer d'Ela! 

O Menino Jesus aparenta a atitude de uma criança recém-nascida. É preciso notar que — como Nosso Senhor foi concebido sem pecado original e sua natureza humana estava ligada à natureza divina, mediante a união hipostática, com a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade — sua inteligência era plena desde o primeiro instante em que Nossa Senhora O concebeu. 

E já no claustro materno Ele rezava, oferecia reparações a Deus, O adorava e implorava pelos homens. Ele começou a sua vida inteiramente consciente.

De maneira que essa Criança teve comunicações com Nossa Senhora, de caráter místico, durante o período da gestação. 

Ela sabia que o olhar daquele Menino era lúcido e cheio de amor. Os dois estavam se conhecendo. Ele analisava o rosto de sua Mãe e Ela estava fixando a fisionomia de Seu Divino Filho. É um momento sublimíssimo da vida de ambos. 

Podemos imaginar o auge de amor de Deus que Ela atingiu nesse momento. E o Divino Infante, desde logo, que olhar de amor dirigiu à Sua Mãe Santíssima! 



Fonte: As Cruzadas

sábado, 24 de dezembro de 2016

Convocação da II Cruzada

Em memória aos cristãos que foram massacrados pelos muçulmanos há 870 anos. Aos valentes católicos que guardaram a fé. Aos cruzados que deram a vida para salvar os cristãos de Edessa. Descansem em paz!


Beato Eugênio III Papa,
convocou a II Cruzada

Em 1146, o principado de Edessa, dominado pelos cruzados, caiu em mãos dos muçulmanos ressurgentes. Assim, o Bem-Aventurado Papa Eugênio III apelou a uma nova cruzada - a segunda. Foi entusiasticamente apoiado nesta convocação por seu mentor, São Bernardo de Claraval.

O Bem-aventurado Pontífice redigiu para esse efeito a Bula “Quantum predecessores”, de 1º de dezembro de 1154, que diz:

O Bispo Eugênio, servo dos servos de Deus, a Luis, seu filho mais amado em Cristo, ilustre rei dos franceses; aos príncipes, seus filhos bem amados, e a todos os fiéis de Deus estabelecidos por toda a Gália, saudação e bênção apostólica.
Sabemos pelas narrações dos antigos e por seus escritos quanto os romanos pontífices, Nossos antecessores, fizeram pela libertação da Igreja no Oriente. Nosso predecessor de venerada memória, o Papa Urbano, soou como que uma trombeta celeste a fim de levantar, para a sua libertação, os filhos da Santa Igreja Romana em todos os cantos da terra.
É verdade que à sua voz os ultramontanos, e especialmente os mais bravos e fortes guerreiros do reino francês, bem como os da Itália, inflamados com ardente amor, uniram-se num mui grande exército e, não sem grande derramamento do seu próprio sangue, com divino auxílio libertaram da sujeira dos pagãos a cidade em que nosso Salvador quis sofrer por nós e onde nos deixou seu glorioso sepulcro como memorial de sua Paixão, além de muitos outros que, por amor à brevidade, abstemo-nos de mencionar.
Essas cidades, pela graça de Deus, e do zelo de vossos pais, que de tempos em tempos têm se esforçado na medida do possível para defendê-las e divulgar o nome de Cristo naquelas partes, foram mantidas pelos cristãos até hoje; e eles tem corajosamente invadido outras cidades dos infiéis. Agora, porém, por causa de nossos pecados e os do povo ‒ coisa que não podemos anunciar sem grande dor e pranto ‒ a cidade de Edessa, em nossa língua chamada Rohais foi tomada e muitos de seus castelos ocupados pelos pagãos. 


Cristo gladífero à testa dos cruzados

Logo Edessa, que no tempo em que todo o Oriente era dominado por pagãos, servia sozinha a Deus sob o poder dos cristãos. Por outro lado, o arcebispo dessa cidade, juntamente com seu clero e muitos outros cristãos foram mortos e as relíquias dos santos entregues ao pisoteio dos infiéis e dispersas.
Cientes estamos todos de quão grande é o perigo que ora ameaça a Igreja de Deus e toda a Cristandade. Pois é sabido que a maior prova de nobreza e probidade é que as coisas adquiridas pela bravura dos pais sejam corajosamente defendidas pelos filhos – os senhores. Mas, que Deus nos livre, se tal não ocorrer, a valentia dos pais terá diminuído em seus filhos.
Exortamos-vos a todos em Deus, portanto, e vos pedimos e comandamos, e para a remissão dos pecados recomendamos, que os que são de Deus, e, sobretudo os mais nobres cinjam-se de coragem e se esforcem de modo a opor-se à multidão dos infiéis que ora se alegra com a vitória sobre nós obtida.
E que, assim fazendo, defendam a Igreja oriental, liberta de sua tirania por tão grande derramamento do sangue de seus antepassados, como já dissemos, a fim de arrebatar milhares de vossos irmãos cativos de suas mãos e promover a dignidade do nome cristão e fazer vossa valentia elogiada por todo o mundo, permanecendo intacta e inabalável.
Sirva o bom Matias de exemplo para vós, ele que, para preservar as leis de seus pais, sem a menor hesitação expôs-se à morte com seus filhos e parentes, deixando tudo que no mundo possuía.
E que, com a ajuda divina, depois de muitos trabalhos e de longo tempo, corajosamente obteve, bem como os seus descendentes, um varonil triunfo sobre seus inimigos.
Mais ainda, com paternal solicitude paternal para a tranqüilidade dos combatentes e para o restabelecimento da mesma igreja do Oriente, concedemos e confirmamos pela autoridade a Nós por Deus concedida, aos que instados pela graça se decidam a realizar obra tão santa e necessária, a remissão dos pecados conforme instituiu Nosso predecessor, o Papa Urbano.
E decretamos que suas esposas e filhos, bem como suas posses e bens permaneçam sob Nossa proteção e a dos arcebispos, bispos e outros prelados da Igreja de Deus. 

São Bernardo foi grande pregador da Cruzada convocada pelo santo Papa

Outrossim, por Nossa autoridade apostólica proibimos que qualquer bem sobre o qual tivessem posse incontroversa ao tomarem a cruz, seja isento de qualquer processo até que se tenha notícias certas sobre seu retorno ou sua morte.
Além disso, tendo em vista que os que guerreiam pelo Senhor não devem de modo algum preparar-se com vestes preciosas nem preocupar-se com sua aparência pessoal, nem com cães e falcões, ou outras coisas que possam pressagiar licenciosidade, exortamos vossa prudência no Senhor para que os que decidirem realizar tão santa obra não busquem as coisas acima mas mostrem todo zelo e diligência com suas armas, cavalos e outras coisas com as quais possam combater os infiéis.
Os que, oprimidos por dívidas, de coração puro se lancem nessa santa jornada não devem pagar juros pelo tempo nela decorrido; e se eles ou outros em seu lugar forem obrigados por juramento ou promessa a pagar juros, de tal obrigação os absolvemos por Nossa autoridade apostólica.
É-lhes também permitido, quando as pessoas de suas relações, conhecendo sua situação, ou seus senhores, a quem são tributários, não lhes queiram avançar o dinheiro necessário, penhorar livremente, sem qualquer promessa de recuperação, suas terras ou outros bens a igrejas, pessoas eclesiásticas ou a qualquer dos fiéis.
Segundo instituiu Nosso citado predecessor, pela autoridade do Deus Todo-Poderoso e pela de São Pedro, chefe dos apóstolos, a nós por Deus outorgada, concedemos a remissão e o perdão dos pecados àquele que devotamente encete tão sagrada missão e a cumpra, ou morra durante a mesma.
Concedemos-lhe a absolvição de todos os pecados que confesse com coração humilde e contrito, recebendo assim o eterno prêmio do Remunerador de todos.
Passado em Vetralle, nas calendas de Dezembro.


Fonte: Doeberl, Monumenta Germania Selecta, Vol 4, p. 40, trans in Ernest F. Henderson, Select Historical Documents of the Middle Ages, (London: George Bell and Sons, 1910), pp. 333-336. Quantum praedecessores


Publicação retirada do blog As Cruzadas