segunda-feira, 11 de junho de 2018

Hans Urs von Balthasar, o pai da apostasia ecumênica


Hans Urs von Balthasar
(1905 — 1988)

Chegou a vez de outro representante da "nova teologia", hoje exaltado como "pedra angular da Igreja" (J. Meinvielle), o ex-jesuíta suíco Urs von Balthasar. Se Maurice Blondel encarna o tipo do filósofo modernista e apologeta, se Henri de Luba é o tipo do teólogo modernista, Urs von Balthasar encarna o aspecto pseudomístico e ecumenista do modernismo.

Temos em mãos a obra Urs von Balthasar ― Figura e Opera1, de Karl Lehmann e Walter Kasper, personalidades da "nova teologia". Lemos na orelha do livro: "escrito por seus amigos e discípulos [Henrici, Haas, Lustiger, Roten, Greiner, Treitler, Löaser, Antonio Sicari, Ildefonso Murillo, Dumont, O´Donnel, Guido Sommavilla, Rino Fisichella, Max Shönborn... e Ratzinger], pretende fazer redescobrir toda a importância e o valor de sua obra e de sua pessoa". Descubramo-lo também nós; é de extrema importância.

"Brilhante mas Vazio"

Von Balthasar foi apaixonado, desde a juventude, pela música e, como Montini, pela literatura, mais do que pelos estudos filosóficos e teológicos2. Somente a filosofia "mística" de Plotino teve o poder de fasciná-lo. Ao contrário, a filosofia e a teologia escolástica suscitaram seu horror:

"Todos os meus estudos durante os anos de formação na Ordem dos Jesuítas foram uma luta enfurecida com a desolação da teologia, com o que os homens tinham feito da glória da Revelação; não podia suportar essa figura da palavra de Deus, queria aplicar golpes à direita e à esquerda com a fúria de um Sansão, queria, com sua força, derrubar o templo e nele me enterrar. mas isso era, agora que a missão começava, querer impor meus planos, era viver com minha indignação infinita porque as coisas ficavam assim. Tudo isto eu não dizia praticamente a ninguém. Przywara compreendia tudo, mesmo sem palavras; dos demais ninguém me poderia compreender. Escrevi o "Apocalypse" com essa fúria que se propunha destruir o mundo pela violência e reconstruí-lo a partir das fundações, custasse o que custasse"3


A "missão" do futuro demolidor se esboçava. Pelo momento, o resultado foi que seus estudos na Companhia de Jesus terminaram pela "dupla licença eclesiástica em filosofia e teologia; Balthasar nunca obteve doutorado nessas matérias"4.

Em compensação, porém, o jovem von Balthasar aprendera a correr atrás dos sistemas e tendências agitadas do pensamento moderno, encorajado pelos "grandes animadores da época de seus estudos"5. Erich Przywara, da Universidade de Pullach-Munique, que o forçou a "confrontar Agostinho e Tomás com Hegel, Scheler e Heidegger"6, e Henri de Lubac, da Maison d´études de Lyon Fourvières. "Por sorte e para minha consolação", escreve von Balthasar, "Henri de Lubac morava na casa conosco. Foi ele que, além do material de estudo escolástico, nos levou aos Padres da Igreja e com magnanimidade nos emprestava a nós todos [Balthasar, Daniélou e Bouillard] seus próprios estudos e notas."7 Foi assim que von Balthasar, "durante as aulas, com os ouvidos tapados com algodão, leu todo [Santo] Agostinho" e aprendeu, pelas notas generosamente emprestadas por De Lubac, a opor, com afetação, a patrística à escolástica, cuja linguagem rigorosa não permitia os jogos interpretativos com textos dos Padres da Igreja a que se entregavam os "novos teólogos"8. Ao mesmo tempo, von Balthasar conhecia a poesia francesa: Péguy, Bernanos, Claudel, na tradução dos quais ele trabalhará durante vinte e cinco anos.

No fim de seus estudos, aquele que, segundo De Lubac, seria "o homem mais dotado de nosso século" (outro sistema dos modernistas consiste em criar, uns para os outros, um halo de grandeza inexistente9), leva consigo somente uma poeira, tão vasta quanto superficial, nos domínios que testemunham um verdadeiro diletantismo. O Pe. Labourdette O.P., numa tirada significativa, definiu um dos primeiros artigos de von Balthasar como "uma página brilhante mas vazia"10.

Com esse "defeito de origem", von Balthasar estava pronto para engrossar o número dos eclesiásticos modernistas, "que, sob as aparências de amor à Igreja, absolutamente deficientes em filosofia e teologia sérias, impregnados, ao contrário, até os miolos, de um veneno de erro recebido dos adversários da fé católica, se colocam, sem nenhuma modéstia, como renovadores da Igreja"[ 11.
  
Privado de sólida formação filosófica e teológica, admirador apaixonado da poesia e da música, von Balthasar misturará, com inacreditável superficialidade, a teologia e a literatura, acreditando poder criar uma teologia "dele" com a mesma imaginação com que um artista cria sua obra de arte.

"Somente mais tarde", escreve ele, "quando o brilho da vocação já me acompanhava havia vários anos e quando eu tinha terminado meus estudos filosóficos em Pullach (acompanhado de longe por Erich Przywara) e os quatro anos de teologia em Lyon (inspirados por Henri de Lubac) com meus condiscípulos Daniélou, Varillon, Bouillard e muitos outros, compreendi como seria de grande ajuda para a concepção de minha teologia o conhecimento de Goethe, Hölderin, Nietzsche, Hofmannsthal e, sobretudo, dos Padres da Igreja, para os quais me dirigiu De Lubac. O postulado fundamental de minha obra Gloria foi a capacidade de ver uma 'Gestalt' [forma complexa] na sua coerente totalidade: a visão goethiana devia ser aplicada ao fenômeno de Jesus (sic) e à convergência das teologias neotestamentárias"12

O Conquistador dos (Mal) Convertidos

Em 26 de julho de 1936, von Balthasar foi ordenado padre na igreja de São Miguel em Munique. Em 1939, fez maisw uma vez os exercícios espirituais de trinta dias, com o padre Steger, que "era, no meio alemão, um dos primeiros a compreender a espiritualidade inaciana, não tanto asceticamente quanto misticamente"13. Esta inclinação pela mística, que já manifestara no contato com a filosofia de Plotino, se revelará cada vez mais nociva para von Balthasar, de tanto que era desprovido de sólida base de saber filosófico e teológico. Pouco depois, encontramo-lo como capelão dos estudantes, em Basiléia, onde cultiva música e poesia (desta vez, alemã). Ele também organiza cursos para estudantes e chama, entre outros oradores, Karl Rahner, Congar e De Lubac; no fim dessas noitadas, "sentava-se ao piano e, de memória, tocava o Don Juan de Mozart" 14.

Em Basiléia, ele encontra o protestante Karl Barth, que se torna (depois de Przywara e De Lubac) "o terceiro grande inspirador da teologia de Balthasar". "A teoria da predestinação de Barth", escreve, "atrai-me poderosa e constantemente" 15; mas a influência decisiva que sofreu foi a do "cristocentrismo radical de Barth"16: daí a idéia de um ecumenismo que reúne todos em torno de Cristo, separado de sua inseparável Igreja, um Cristo que é, no final, o solus Christus de Lutero, ainda que filtrado, como veremos, através de Hegel.

O Vaticano II estava, contudo, ainda longe, e então "o encontro com os protestantes acontecia, nesses anos, na Suíça, de modo quase inevitável (sic) sob a perspectiva da conversão"17.

Foi assim que, em 1940, von Balthasar batizou (a contragosto?) o esquerdista Béguin, que, em 1950, deveria suceder ao filocomunista Mounier na direção da revista Esprit (o Osservatore Romano de 3 de março de 1979 dizia que Beguin e Esprit prepararam o Vaticano II). Fato ainda mais importante, von Balthasar batizará a "convertida" Adrienne von Speyr, médica, casada em segundas núpcias com o professor Kaegi, "mulher cheia de humor e de espírito, de língua afiada, bem-vista na sociedade"18.

Em Basiléia, von Balthasar adquiriu rapidamente o renome de "conquistador de convertidos"19. Parece-nos mais exato dizer dos "mal convertidos". Já citamos Beguin. De Adrienne von Speyr convém dizer mais amplamente que, como De Lubac esteve "em simbiose intelectual" com Blondel, von Balthasar esteve em "simbiose teológica e psicológica" com Adrienne von Speyr 20.

Lado a Lado com Adrienne

"Logo depois da conversão [de Adrienne] começaram a crescer os boatos de milagres que, manifestamente, aconteciam durante os colóquios e visitas que ela recebia. Murmurava-se sobre visões que ela tivera." Murmurava-se também sobre esses "longos e regulares encontros com seu diretor espiritual, von Balthasar" 21.

Para publicar os escritos místicos de Adrienne, von Balthasar funda as Edições Johannes; depois, com Adrienne, funda o Instituto Secular Johannes, e ainda para Adrienne, como seus superiores não vissem evidência no misticismo de Adrienne von Speyr, na véspera de sua profissão solene, von Balthasar deixa a Companhia de Jesus, escolhendo a "obediência imediata" a Deus.

A partir de então, von Balthasar trabalhará na sombra de Adrienne, morando na casa de seu marido, ocupando-se de literatura, de teologia estética (e estetizante), de seus ditados "místicos", até que, em 1960, a mobilização neomodernista para o Concílio o engaja na febril preparação do Vaticano II:

"Rádio, televisão, quanta agitação e pedidos sem fim para escrever."22

Em Deus a Contradição é Impossível

"Não é aqui o lugar", lemos na página 51, "de submeter os carismas de Adrienne a um exame teológico-crítico." Ao contrário, teria sido justamente o lugar e o caso, visto que o próprio von Balthasar afirma: "sua obra e a minha não são separáveis nem psicológica nem filologicamente. São as duas metades de um todo que tem por centro uma fundação única"23 E ele começa Il nostro compito (Nossa tarefa) escrevendo:

"Este livro tem como objetivo, sobretudo, impedir que depois de minha morte procurem separar minha obra da de Adrienne von Speyr."24

Teria bastado a von Balthasar aplicar os critérios que a Igreja aplica em tais casos para repudiar como falso o misticismo de Adrienne. Deixaremos de lado a estranheza de "carismas" como os "estigmas" que ela teria recebido quando ainda era protestante, "a possibilidade dada a seu confessor [von Balthasar] de 'transferir Adrienne ao passado', a cada uma das suas idades, para percorrer sua biografia"25, sua virgindade recuperada, segundo ela, depois de dois casamentos etc. Basta-nos, como teria bastado a von Balthasar, aplicar o critério fundamental usado pela Igreja para julgar toda e qualquer pretensa "revelação":

"É preciso considerar como absolutamente falsas as revelações que se opõem ao dogma ou à moral. Em Deus a contradição é impossível."26

Á luz desse critério fundamental examinemos, entre muitos outros, dois pontos que estão na origem de dois gravíssimos desvios conciliares e pós-conciliares:

1) "A teologia da sexualidade" de Adrienne von Speyr;
2) Sua concepção da Igreja, a "Católica".

Mas para Adrienne e von Balthasar, Deus Pode Contradizer-se

Segundo von Speyr, ou segundo von Balthasar (concordamos com Balthasar que é impossível separá-los), Adrienne teria recebido do Céu a missão de "repensar" o "valor positivo da corporeidade [ou ainda da sexualidade] no interior da religião da encarnação" 27.

Acontece que este "valor positivo" é tão positivo que chegar a anular as... conseqüências do pecado original e a advertência do Espírito Santo: "quem ama o perigo nele perecerá". Escreve Adrienne no seu diário: "As receitas de se manterem afastados um do outro, de não se verem, no que concerne à esfera do corporal, hoje estão esgotadas."28 O que é claramente contra o dogma do pecado original e contra o ensinamento tradicional da Igreja no domínio moral. Fiel à sua "revolução sexual", Adrienne concebe e exprime sua relação "espiritual" com von Balthasar pelas categorias mais cruas da sexualidade. Assim, a gênese do instituto secular Johannes é descrita como um gravidez, em que o instituto é a criança, Adrienne a mãe e Balthasar o pai29. Eis, em seguida, como "Inácio" (leia-se Santo Inácio) explica a Adrienne que ela recebeu os estigmas (mesmo sendo protestante) para von Balthasar: "mesmo sendo virgem [Adrienne, casada, só por prodígio, apesar do 'valor positivo' da sexualidade], é um modo pelo qual a mulher podia ser marcada pelo homem"30.

E, para que não tenhamos mais dúvidas sobre a linguagem atribuída pela "mística" a "Inácio", leremos o que segue:

"A fecundidade espiritual do homem será depositada na carne da mulher, para que ela possa levar o fruto. Assim, a fecundidade de Hans Urs von Balthasar foi posta nos estigmas que Adrienne tinha recebido para ele." 31

E isto pode bastar para que se pergunte, com razão, se não estamos diante de um caso de sensualismo pseudomístico.

Entretanto, aqui é importante indicar, na "inteligência do valor positivo da corporeidade", por parte de Adrienne, uma das causas, se não a causa determinante, da exaltação atual da sexualidade, infelizmente em voga, até nos meios religiosos, camuflada pelo slogan "integração afetiva".

E von Balthasar? Ele também não admitia "que se pudesse diminuir o significado dos corpos masculino e feminino (e portanto do ser humano masculino e feminino) [de onde o 'Caros irmãos e irmãs' e as palestras sobre a masculinidade e a feminilidade de João Paulo II!], justamente onde se fala de uma real encarnação do Filho de Deus"32. E, na sua concepção estetizante da teologia, ele deplorava:

"E onde foi parar o Eros no Cântico dos Cânticos [até como poema erótico, naturalmente], que faz parte do centro da teologia?"33

Há pior, porém. Von Balthasar sabe muito bem que a "teologia mística" da visionária não se enquadra na doutrina católica. "Na obra teológica global de Adrienne", escreve ele, "existem passagens particulares que, fora de seu contexto, poderiam parecer às vezes estranhas [também dentro do contexto]"34.

Em seguida, no prefácio, admite claramente que as obras de Adrienne "de início são de espantar e talvez desorientadoras [sic] para alguns leitores"35. Para von Balthasar, contudo, isto não levantava dúvidas sobre o carisma de Adrienne, mas sim sobre a... doutrina católica! "As coisas", escreve ele, "são sempre tais que a teologia atual não é ou não é ainda [sic] capaz de compreender o que é indicado" [nas visões ou nos "ditados" de Adrienne]36. O que só pode ser dito admitindo-se que a doutrina católica possa evoluir em contradição com ela mesma, visto que a "teologia mística" de Adrienne não somente é obscura mas também está em oposição à teologia católica.

Infelizmente, von Balthasar não somente não aplicava (talvez porque não os possuísse) os critérios teológicos, para ver claramente, ao "misticismo" de Adrienne von Speyr, mas dividia com Blondel e De Lubac a nova noção vitalista e evolucionista da verdade, pela qual, em Deus, e portanto no desenvolvimento da doutrina católica, "a contradição é possível". Isto aparecerá de modo ainda mais evidente no segundo ponto que nos propomos examinar e que permitirá compreender a borrasca de loucura ecumênica que levou alguns responsáveis da Igreja Católica a ceder sem nenhum freio.

A "Católica" Não-Católica

Adrienne afirma que uma missão eclesial foi confiada pelo Céu a von Balthasar e a ela própria. Urs von Balthasar fala disso em Il nostro compito37. Adrienne, numa visão "marial", diz a Deus:

"Nós [Adrienne e von Balthasar] queremos amar-te, servirt-te e agradecer-te a 'Igreja que nos confias' [...]. Estas últimas palavras foram pronunciadas de modo improvisado e ditadas pela Mãe de Deus, isto é, nós [a Mãe de Deus e Adrienne] o dissemos as duas juntas, e o filho (o nosso [de Adrienne e de von Balthasar], você sabe), ela colocou-o uma fração de segundos nos braços, mas não era somente a criança, era a Una Sancta em miniatura, e assim me parece que é uma justa unidade de tudo o que nos foi confiado e que é trabalho em Deus para a Católica."

O que é então esta outra "criança" de Adrienne e de von Balthasar, essa "Igreja" dita "Católica", que Deus lhes teria confiado?

Na introdução de Mystique objectiva de Adrienne von Speyr, de Bárbara Albrecht38, lemos acerca da "mística" Adrienne esta afirmação espantosa: "Ainda que [Adrienne] se tenha afastado claramente e de modo decisivo da forma protestante do cristianismo, por uma necessidade interior, falta a seu conceito de 'católica' certa delimitação confessional." Então, se o afastamento de Adrienne do protestantismo foi claro e decisivo, sua conversão ao catolicismo não foi nada clara e decisiva. A menos que se dê ao termo "católica" um significado completamente diferente do habitual.

Note-se, de passagem, que o que escreve Bárbara Albrecht corresponde exatamente ao testemunho da governanta italiana de Adrienne, a qual, como boa católica veneziana, afirma claramente:

"Eu li também... essa história de 'Mística'. Eu não gosto nada disso. Por que escrever essas bobagens? Madame não era da Igreja, ela ia à missa somente duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa."39

O mesmo conceito de "católico", privado de "certa determinação confessional", encontramos em von Balthasar, que afirma ser também devedor de Adrienne von Speyer. Em Katholisch, uma obra que publicou em 1975, ele escreve:
  
"Essa pequena obra é, ao mesmo tempo, uma homenagem a meus mestres E. Pryzwara e H. de Lubac e igualmente a Adrienne von Speyr, pois todos, em face de uma teologia escolástica, me mostraram a dimensão da realidade católica, vasta como o mundo."

E nessa "catolicidade que não omite nada"40, tudo encontra lugar e justificação: a verdadeira e as falsas religiões, a Igreja Católica e as seitas heréticas e/ou cismáticas, o sagrado e o profano, a religião e o ateísmo; abreviando: o erro e a verdade, o bem e o mal. Exatamente como na dialética hegeliana.
  
O Iceberg
  
Aprofundemos a conversa. Urs von Balthasar ― admite a revista Communio ― é exaltado como "teólogo da beleza" e "ao mesmo tempo é criticado por seu estilo hermético e complicado"41. Além disso, escreve ainda Communio, o que se conhece e o que se diz dele "representa ― mal haja quem nisto põe malícia ― somente a ponta do iceberg". Lancemos pois um olhar para a parte submersa do iceberg, isto é, para o que se esconde sob o estilo hermético e complicado, para ver se há ou não razão para pensar mal dele.
  
Aparentemente, os escritos de von Balthasar são obscuros e herméticos e seu comportamento é incompreensível. Por exemplo, ele trabalha para demolir a teologia católica e a Roma católica, mas critica asperamente Karl Rahner e o "complexo anti-romano"; quer o ecumenismo mais vasto possível, que abrace até as religiões pagãs e idólatras, mas critica a "tendência à liquidação" dos católicos pós-conciliares. Entretanto, basta possuir a boa chave interpretativa de sua teologia para que tudo se torne claro. Esta chave interpretativa é o idealismo em geral e a lógica hegeliana em particular, que, sabe-se, é diametralmente oposta não só à lógica aristotélica e tomista mas também ao bom senso comum. Enquanto a lógica aristotélica, de fato, tem por fundamento o princípio de identidade e de não-contradição, segundo o qual os opositores se excluem, a lógica hegeliana é fundada no princípio exatamente contrário: os opostiores não se excluem, mas são a alma da realidade, sendo momentos necessários, apesar de abstratos; realidade que é uma síntese de opositores na qual os ditos opostos (afirmação e negação, teses e antíteses) encontrarão sua realização e sua verdadeira realidade.
  
Urs von Balthasar aplicou à eclesiologia essa lógica obscura e hermética, porque ele ignora "o medo da contradição", medo que é natural a qualquer homem de bom senso, mas que foge das preocupações do... ecumenismo atual: tantas "Igrejas", tantas "religiões", o ateísmo, com suas contradições, não espantam von Balthasar e, segundo seu julgamento, não devem espantar ninguém, porque são somente os momentos (teses e antíteses, afirmações e negações) desse processo que conduzirá inevitavelmente, por necessidade intrínseca, à síntese, que é a "Católica" (a catolicidade que não omite nada, a universalidade sem exclusão alguma), na qual se realizará (finalmente, depois de dois mil anos) a verdadeira Igreja de Cristo.
  
Uma vez possuindo esta "chave", a teologia de von Balthasar de hermética se torna transparente e todo o mundo pode ver a enormidade do iceberg que navega sob a água contra a santa Igreja de Deus.

Do "Delírio Filosófico" ao Delírio Ecumênico

Do "delírio filosófico" de Hegel (assim o define Schopenhauer) só poderia nascer o atual delírio ecumênico.

Com esta chave interpretativa, de fato, é possível compreender todos os enigmas de von Balthasar e do ecumenismo atual, de que ele é mestre e autor. Compreende-se, de fato, porque no diálogo ecumênico "uma única coisa fica: fiar-se nas configurações eclesiais e teológicas e na rivalidade entre elas"42. Só o jogo necessário dos opositores é que conduzirá à síntese: "Se esta indicação é levada a sério [fiar-se nas rivalidades]", escreve von Balthasar, "então ela exige muito daqueles que lutam cristãmente pela catolicidade, sobretudo o não fixar-se em nenhum sistema [católico ou não] que, a priori, se suponha onicompreensível e ofereça a mais ampla perspectiva, e não desprezar os pontos de vista opostos."43 Essa onicompreensividade, de fato, será dada somente à "Católica", que é a síntese, e não aos sistemas atuais (incluindo o "sistema" católico"), que são as teses e antíteses destinadas a ser ultrapassadas, aniquilando-se mutuamente, na síntese.

Aos "sistemas" atuais pede-se somente duas coisas: por um lado, que favoreçam a síntese, o "relaxamento e o degelo" de seu próprio bloqueio em torno de um ponto de vista que exclui os pontos de vista opostos; por outro lado, a "competição", o deixar agir a "rivalidade" com os outros sistemas, incluindo as "formas de cristianismo anônimo"44. A síntese, de fato, brota justamente do jogo dos contrários. Tudo isso é incompreensível pela lógica aristotélico-tomista, que é a lógica do bom senso, mas não pela lógica hegeliana.

Compreende-se, então, por que o atual ecumenismo (ver Assis45) põe no mesmo plano e até mantém separadas as diversas "religiões" ("não queremos sincretismo", e é verdade) e, ainda quando promove o insensato diálogo, quer que os budistas sejam bons budistas, os católicos bons católicos (segundo a "nova teologia", é claro), os protestantes bons protestantes e assim por diante: a "competição", o jogo das "rivalidades", de contradições e oposições é essencial ao processo que conduzirá à super-Igreja ecumênica, a "Católica", síntese de todas as religiões, na qual enfim as contradições e oposições serão ultrapassadas.

Compreende-se também por que von Balthasar teve, como De Lubac, sua "crise" pessoal pós-conciliar, que, entretanto, também para ele não foi uma conversão46. Não entrava em sua lógica hegeliana que os católicos abandonassem assim sua identidade: a "Católica" é, também ela, "comunhão entre aquilo que aparentemente se exclui"47. Assim, os contrastes são essenciais à realização da dita "comunhão", exatamente como, na lógica de Hegel, a tese e a antítese são essenciais à realização da síntese, pois, se a tese se retira da "competição" e se torna também antítese, nunca haverá "síntese"48.

Eis por que a Igreja Católica não deve "pôr entre parênteses" mas deve "integrar" (é a palavra-chave para von Balthasar) no "todo católico" (= a "Católica") tudo o que é visto atualmente como "excesso católico"49. No seu livro, enganador e mal-compreendido, Le Complexe antiromain, que tem o incrível e significativo (e freqüentemente omitido) subtítulo Como Integrar o Papado na Igreja Universal (= "Católica"?), von Balthasar sugere justamente a maneira de integrar "esse elemento, que parece atrapalhar, ao todo católico", que claramente não é a Igreja Católica. Eis a maneira sugerida: a Igreja deve ser não somente de Pedro mas também de Paulo, de Maria e de João50. E assim o primado de jurisdição, definido pelo Vaticano I, se apaga atrás de um vago primado da caridade inventado por von Balthasar (e por seus "irmãos separados"), para o qual João Paulo II, como São Paulo, percorre o mundo há anos, explicando aos jornalistas que ele recebera não somente o carisma de Pedro mas também o de Paulo!

A Apostasia

Basta conhecer o Catecismo da Igreja Católica (o antigo, não o novo) para compreender que o ecumenismo de Balthasar é uma verdadeira proposta de apostasia.

Christophe Schönborn, secretário de redação (aviso ao leitor!) do novo "Catecismo", por ocasião do primeiro aniversário da morte de von Balthasar ilustrou o ecumenismo na Igreja de Santa Maria em Basiléia51.

O que é, então, o ecumenismo para von Balthasar? É a "integração no todo da Católica"52, a qual "Católica" não existe ainda e no momento é "somente uma promessa, uma esperança escatológica". Eis como Schönborn explica "a importância ecumênica" da "figura" de Maria em von Balthasar: "em Maria a Igreja aparece como a Igreja santa e imaculada, em quem a plena figura da Igreja, sua 'catolicidade', é não somente promessa, esperança escatológica, mas antes plenitude já realizada". Então, contrariamente à Fé constante e infalível da Igreja, repetida por Pio XI em Mortalium Animos, e contrariamente ao dogma que todo e qualquer católico tem o dever de professar (Credo Ecclesiam unam, sanctam, catholicam), a catolicidade da Igreja não é uma realidade, realizada há dois mil anos, mas uma realidade que ainda está por se realizar, uma simples "promessa, uma esperança escatológica". E o que é, então, a atual Igreja Católica para von Balthasar? Um "sistema" entre outros, uma das numerosas "configurações eclesiais", teses ou antíteses (consoante ela recusa ou é recusada), que será ultrapassada e aniquilada na "Católica", como as seitas, as religiões pagãs e idólatras e os diversos "marxismos".

No catolicismo, não menos que no protestantismo, para von Balthasar, a "negação do outro, a recusa da comunhão", teria produzido uma unidade que, no fundo, consistia somente na reunião em torno de um ponto de vista rígido". 53

A Igreja Católica é a "realização romana da Catolicidade"54; tanto a Igreja Católica como as seitas heréticas e/ou cismáticas, o próprio judaísmo e as "formas anônimas do Cristianismo" são "o todo em fragmentos", onde o todo é a "Católica" e a Igreja Católica é um dos numerosos fragmentos que, inevitavelmente, retornam ao todo. "Cada fragmento", escreve von Balthasar, "faz logo pensar no vasto sagrado de que ele provém, cada pedaço brilha pelo espírito, a partir da obra inteira completa"55, e a Igreja Católica é um "fragmento", um pedaço entre os outros.

Vê-se claramente, então, por que já não se ensina que a Igreja de Cristo "é" a Igreja Católica, mas continua-se a ensinar, com o Vaticano II (ver o novo "Catecismo"), que a Igreja de Cristo "subsist in", subsiste na Igreja Católica, exatamente como o "todo no fragmento"! Eis por que, no diálogo ecumênico, em matéria de fé, o católico concorda em aprender tanto quanto os outros:

"Para os católicos é imperativo afastar a voz daqueles que nos sugerem e nos levam de volta a algum pedaço que falta [sic] ou medianamente valorizado da integridade da fé."56

É por isso que hoje, como escreve Romano Amerio, "se professa abertamente que a união não se deve fazer por conversões individuais, mas pelo acordo das grandes coletividades [as diversas teses e antíteses] que são as Igrejas", e que essa união deve fazer-se não por um retorno dos separados da Igreja Católica, mas "por um movimento de todas as confissões para um centro que está fora de cada uma delas [a síntese evolutiva]"57

E aqui a proposta de apostasia, isto é, de abandono de toda e qualquer doutrina de fé, se torna flagrante. Onde achar a Revelação Divina na sua integridade e na sua pureza senão na Igreja Católica? Propor aos católicos, de maneira mais ou menos dúbia, o êxodo da Igreja Católica é propor a apostasia:

"A fé em Jesus Cristo não ficará pura e incontaminada se não for sustentada e defendida pela fé na Igreja, coluna e fundamento da verdade (1 Tm 3, 15)."58

O Desprezo do Magistério

Em conclusão, é importante assinalar que von Balthasar, como também Blondel e De Lubac, cultivou "sua" teologia com evidente desprezo pelo Magistério da Igreja e especialmente por São Pio X, que, na encíclica Pascendi (1907), condenou o ecumenismo, em que desemboca inevitavelmente o naturalismo dos modernistas; e por Pio XII, que em Humani Generis condena tanto as tentativas de conciliar o idealismo, e portanto Hegel, com a teologia católica como o ecumenismo, em que todos se teriam, "sim, unidos, mas em ruína geral". Em 1946, escrevia o Pe. Garrigou-Lagrange: "Para onde vai a nova teologia com os novos mestres em que se inspira? Para onde senão o caminho do ceticismo, da fantasia e da heresia?" E os novos "mestres" eram Hegel e Blondel, que Fessard (da "turma" de De Lubac) chamava, não sem razão, "nosso Hegel"59. Hoje, no domínio ecumênico, mais do que na fantasia, estamos no delírio. Num dos documentos "ecumênicos" dos mais escandalosos: "Indicações Úteis para Apresentar Corretamente o Judaísmo", da Comissão para Relações com o Judaísmo, presidida pelo cardeal Willebrands60, pode-se ler que os católicos e os judeus, "ainda que partindo de pontos de vista diferentes [ler:opostos], tendem para fins análogos [sic], a vinda ou o retorno [é a mesma coisa!] do Messias". É textualmente o pensamento de von Balthasar, que, como Hegel, encontra o modo de conciliar todos os opostos, fazendo violência à realidade dos fatos:

"Pedro, o renegado, abandona o julgamento do Senhor e se solidariza [sic] com os judeus [que crucificaram Cristo] [...]; juntamente com vós, judeus, também nós, cristãos, esperamos a (re)vinda [sic] do Messias."61

Contudo, von Balthasar e seus companheiros da "nova teologia" nunca teriam conseguido impor na Igreja suas nebulosas elucubrações, que não têm a seu favor nem a força da verdade da razão nem a força da verdade revelada, se João Batista Montini não tivesse subido ao trono de Pedro, mas... daquele mal teólogo filomodernista, posto ao serviço da "nova teologia", sua alta autoridade e seu sucessor foram os propagadores eufóricos. Voltaremos a falar nisso.

Sim Sim Não Não, no. 14, fevereiro de 1994

1. Ed. Piemme.
2.Figura e opera, pp. 29 ss.
3.Ibid., p. 35, citado da introdução de Erde und Himmel (Terra e Céu).
4.Ibid., 33-34.
5. P. 35.
6. Urs von Balthasar, Priifet Alles, p. 9.
7. Ibid.
8. Ver Figura e opera, p. 36.
9. Ver São Pio X, Pascendi.
10. Ibid., pp. 47-48.
11. São Pio X, Pascendi.
12. Il nostro compito (Nossa tarefa), Jaca Book, p. 29.
13. Ibid., p. 37.
14. Ibid., p. 39 ss.
15. Unser Auftrag, p. 85.
16. Figura e opera, cit., p. 43.
17. Henrici S.J., op. cit., p. 44.
18. Ibid., p. 45.
19. Ibid., p. 44.
20. Op. cit., p. 147.
21. Idem.
22. Ibid., p. 59.
23. P. 60, citado de Rechenschaft ou, em italiano, Il filo di Arianna attraverso la mia opera.
24. P. 13.
25. Il nostro compito, p. 13, nota 1.
26. Antonio Royo Marin O.P., Teologia della perfezione cristiana, p. 1077.
27. Il nostro compito, p. 25.
28. P. 1.703; ver Il nostro compito, p. 91.
29. Communio, mai-jun de 1989, pg. 91.
30. Ibid., pp. 91 ss, citando o parágrafo 1.645 de Erde und Himmel, obra póstuma de Adrienne.
31. Erde und Himmel, II § 680.
32. A. Siccari O.C.D., Communio, nov-dez. de 1991, p. 89.
33. Figura e opera, cit., pp. 58 ss.
34. Il nostro compito, p. 14.
35. Ibid., p. 9.
36. Ibid., p. 16.
37. P. 61; Unser Auftrag, p. 78; ver Communio, mai.-jun. de 1989, p. 102, que dá, entre parênteses, as explicações necessárias.
38. Jaca Book, p. 72.
39. Il Popolo de Pordenone, 16 de agosto de 1992.
40. Ibid., p. 32.
41. Mai.-jun. de 1989, p. 83.
42. Figura e opera, cit., p. 417.
43. Ibid., citado por Anspruch auf Katholizität, p. 66.
44. Ibid., pp. 69-70.
45. Na cidade italiana de Assis, em 1986, deu-se uma reunião de representantes de todas as religiões, convocada por João Paulo II, e que, dando origem ao chamado “espírito de Assis”, se vem repetindo desde então todos os anos, em diferentes cidades. Já provocou diversos escândalos, como uma imagem de Buda posta sobre um sacrário.
46. Ver Figura e opera, pp. 417-418.
47. Communio, jul-ago de 1992, art. H. Urs von Balthasar, Communion: un programme.
48. Ver Figura e opera, p. 417.
49. Ibid., p. 446.
50. Ibid., p. 447.
51. Ver Figura e opera, pp. 31 ss: “A Contribuição de Hans Urs Balthasar ao Ecumenismo”.
52. Ibid., p. 448.
53. Ver Figura e opera, p. 407.
54. Ibid., p. 405.
55. Citado em Figura e opera, p. 409.
56. H. U. von Balthasar, Kleine Fibel, p. 92, citado em Figura e opera, p. 444.
57. R. Amerio, Iota Unum, Nouvelles Editions Latines, p. 461.
58. Pio XI, Mit Brennender Sorge.
59. Ver A. Russo, H. de Lubac: Théologie et dogme dans l´Histoire. L´Influence de Blondel.
60. Ver Sì Sì No No, ed. francesa, no. 64, outubro de 1985.
61. H. U. von Balthasar, Communio, jul.-ago. de 1992, p. 57.


segunda-feira, 14 de maio de 2018

São Bonifácio de Tarso, Mártir

14/05 Segunda- feira
Festa de Quarta Classe 
Paramentos Brancos

São Bonifácio, por Dmitry Korin - 1887

Princípios do quarto século sob o império de Galério Máximo. Foi causa de admiração na Igreja uma dessas brilhantes convenções que o senhor opera algumas vezes para reanimar a confiança dos pecadores, ora para descobrir aos homens os tesouros de suas misericórdias. Havia em Roma uma jovem de distinção, rica e poderosa chamada Aglaê, filha de Acácio, que tinha sido pro cônsul de família senatorial; amava a vaidade e o fausto a ponto de dar ao povo jogos públicos á sua custa. Era cristã; mas desonrava esta augusta qualidade por sua condução. Toda preocupada do espírito do mundo, dava-se inteiramente aos prazeres, da dissolução, era um objeto de escândalo para todos os fiéis. Vivia em relações criminosas com o intendente da casa era este um moço bem-apessoado, mas vicioso dado ao vinho e toda a sorte de intemperança chamava-se Bonifácio e era cristão; mas de cristão só tinha o nome que desonrava por sua libertinagem. Entre tantos defeitos admiravam-se lhe boas qualidades, a compaixão pelos infelizes, a caridade para com os pobres, e a hospitalidade para com os estrangeiros. Havia muito tempo que BONIFÁCIO levava, a vida tão desregrada quando o Deus das misericórdias tocou o seu coração daquela que o tinha pervertido. Aglaê, prevenida por uma graça interior, abriu os olhos a sua desordem e aterrada a vista do número dos seus pecados com o coração despedaçado por uma viva e sincera, dor resolveu aplacar a cólera de Deus por suas esmolas e pronta penitencia. A conversão de Aglaê foi bem depressa seguida por Bonifácio; os escândalos que haviam dado aos fiéis foram vantajosamente reparados pela mudança de costumes e pelos grandes exemplos de piedade de ambos. Aglaê fez logo o sacrifício a Deus de todos os seus enfeites e de todas as suas jóias, tornou-se defesos todos os divertimentos e a concorrência a todas as assembleias mundanas. A oração, o jejum, o cilício e muitas outras austeridades sucederam a seus criminosos divertimentos, esforçando-se por com as suas esmolas resgatar seus pecados, sepultou-se em um profundo retiro, resolvida a passar o resto dos seus dias nos gemidos e nas lágrimas. Bonifácio por sua parte nada esquecia para se tornar fiel a graça de Deus e dava todos os dias novas provas da sua conversão. Aglaê, tendo sabido que Galério Máximo continuava no oriente a perseguição contra os cristãos que havia alguns anos cessara em Roma e que cada dia algum generoso servidor de JESUS CRISTO selava sua fé como seu sangue, chamou Bonifácio e lhe disse com as lágrimas nos olhos:

"Não ignoras quanta é a necessidade que temos tu e eu de procurar a proteção dos santos mártires, que é tão poderosa junto de Deus. Tenho ouvido dizer, que se alguém serve os santos (mártires) que combatem por JESUS CRISTO merece que estes santos intercedam por ele junto do soberano juiz. A perseguição inflama-se cada vez mais no oriente, aí aumenta todos os dias o número dos mártires. Vai pois e traz-nos relíquias. Nada poupes para possuir o corpo dum desses mártires; traz-mo e eu o receberei com honra e mandarei edificar em seu nome um santuário." 

Bonifácio contente com uma tal comissão, preparou-se com uma grande equipagem. Leva uma avultada soma de dinheiro, tanto para resgatar os corpos dos mártires, como para assistir aos servos de DEUS que estavam em ferros e para dar esmola aos pobres. Tomando doze cavalos, três liteiras e diversos perfumes para embalsamar os corpos dos mártires, parte para Cilica. Despedindo-se de sua ama: 

"Senhora, lhe diz, gracejando, mandais-me para que vos traga o corpo de um mártir e se DEUS me fizesse a graça de dar a vida pela fé e vos trouxessem o meu corpo, recebê-lo-ias como uma relíquia".
"Não é tempo de gracejar", lhe responde Aglaê, "a coroa do martírio não é para tão grandes pecadores. Torna-te digno de me trazeres um tão santo depósito e por tua piedade esforça-te por merecer a proteção daquele cujas relíquias me trouxerem". 

Estas palavras fizeram impressão sobre o nosso santo. Proibiu-se o uso de carne e vinho durante a viagem. Juntando a esta abstinência preces continuas que dirigia a DEUS e lágrimas de contrição que derramava dispunha-as para a graça do martírio. Tendo Bonifácio chegado a Tarso da Cilicia, mandou as pessoas da sua equipagem para a hospedaria, e ele foi procurar pela cidade cristãos, dos quais pudesse saber o que se passava pouco tardou em se instruir perfeitamente; ao chegar a uma grande praça viu os mártires em tormentos, em número de vinte. Uns estavam pendurados de cabeça para a terra, tendo por baixo fogo, outros distendidos entre quatro postes, despedaçados de uma maneira horrível, alguns eram esquartejados, outros pregados, serrados, empalados, fustigados, até expirarem; e atormentados de maneira tão cruel que os espectadores não o bastante de serem pagãos, tinham horror. São Bonifácio animado de um desejo de martírio e de uma nova coragem, cheio de confiança na misericórdia daquele que lha inspirava, abre caminho através da multidão e aproximando-se dos mártires, abraça-os, beija-os, exclamando:

"Como é grande o DEUS dos cristãos. Como é poderoso o DEUS que estes santos adoram e por cuja glória tem a dita de derramar seu sangue! Suplico-vos que peçais a Jesus Cristo por mim e que me obtenhais a graça por bem grande pecador que eu seja, de ter parte em vossos combates e em vossas vitórias."

Em seguida assentado a seus pés e osculando-os, exclama em alta voz: 

"Coragem mártires de Jesus Cristo combatei por aquele que combate convosco confundi todo o inferno por vossa fé e vossa constância: já não tendes senão alguns momentos de vida a sofrer o combate e breve a recompensa e eterna e imensa". 

O governador Simplício que estava advertindo-o mandou que o trouxessem ao seu tribunal. Pergunta-lhe que é e o que pretende com aqueles entusiasmos. 

"Eu sou cristão" responde, Bonifácio com tom firme e ousado, "tenho inveja desses mártires benditos, que a honra de dar o seu sangue por um DEUS, QUE tendo-se feito homem para nos resgatar quis dar o seu sangue e a sua vida por nós". 

O governador surpreendido desta ousadia, disse:
"Como te chamas?"
"Eu, já vo-lo disse, sou cristão, e se quereis saber o meu nome, sou Bonifácio."
"Tu és bem temerário replicou o governador, para vires insultar-me até ao meu próprio tribunal e a vista dos suplícios. Eis um altar levantado para aqueles teus correligionários que quiserem evitar o ultima suplício e possam oferecer seus sacrifícios a nossos deuses; sacrifica já ao grande Júpiter, se não vais ser atormentado de mil maneiras." 
"Vós podeis fazer de mim o que aprouver, responde Bonifácio, eu já vos disse muitas vezes que sou cristão e que não ofereço sacrifícios a demônios infames."

O governador furioso ao ouvir esta resposta, manda-o fustigar até se lhe verem os ossos, e aguçando canas faz-lhas meter por entre as unhas e os dedos. A dor era viva e aguda, e Bonifácio sofreu-a com um rosto alegre. Simplício, crendo-se insultado por esta serenidade de semblante, manda derreter chumbo, e deitar-lho na boca.

Bonifácio conhecendo que este suplício ia tirar-lhe o uso da fala, da palavra, quis prevenir essa perda para consagrar a DEUS o derradeiro exercício dela; levantando pois os olhos ao céu, fez a DEUS esta oração.

«Meu DEUS e meu SENHOR, JESUS CRISTO, dou-vos graças por vos dignardes aceitar o sacrifício que vos faço da minha vida, vinde em socorro do vosso servo e perdoai-lhe todas as suas iniquidades; fazei que expie em seu sangue e que sua morte lhe sirva de penitência, sustentai-me com vossa graça e não permitais que no meio de tormentos eu tenha algum desfalecimento.»

Tendo acabado esta oração gritou aos outros mártires:

"Irmãos, peço-vos que rezeis por mim". 

Todos os mártires se recomendam igualmente em alta vós as suas orações. O povo comoveu-se e de repente começou a gritar:

"Oh! Como é grande o DEUS dos cristãos! Não há outro DEUS. O DEUS dos mártires é o único DEUS, Jesus Cristo, filho de DEUS, salvai-nos; nós cremos todos em vós". 

Ao mesmo tempo o povo derruba o altar e lançam pedras contra o governador, obrigando-o a esconder-se até que o tumulto passasse. No entanto Bonifácio foi levado á prisão. No dia seguinte o juiz tendo-o encontrado tão invencível como no dia precedente, mandou-o mergulhar em uma caldeira de azeite a ferver. Bonifácio ao entrar nela fez o sinal da cruz e a caldeira arrebentou por todos os lados e o azeite espalha-se em torrente contra todas as pessoas presentes. O governador espantado do poder de Jesus Cristo e receando uma nova sedição, mandou-lhe cortar a cabeça. E assim, Bonifácio expiou os pecados da sua vida passada derramando o seu sangue por Jesus Cristo nosso senhor. Sua morte no dia 14 de Maio, foi seguida de um grande tremor de terra, que aterrou os pagãos, dos quais muitos se converteram. Neste entrementes as pessoas da comitiva de Bonifácio inquietas por o não terem visto voltar as hospedarias havia já dois dias, procuravam-no por toda a parte, alguns mesmo suspeitando que ele tivesse ido a alguma taverna, ou algum alcouce. Como o reclamavam debaixo do nome de um estrangeiro, chegado de Roma, de estatura regular louro e frisado vestido de manto escarlate, encontraram o irmão do carcereiro que pelo retrato que lhe fizeram, lhes disse que era certamente aquele que tendo sido preso como cristão havia dois dias, perdera a cabeça.

Não seria possível, lhe disseram, mostra-nos o seu corpo? Segui-me; disse o irmão do carcereiro, o encontraríeis na arena. Logo que o reconheceram transportados pela admiração de alegria e de sentimentos pelos juízos desfavoráveis que dele tinham feito, se prostraram a seus pés, derramando copiosas lágrimas. A cabeça de Bonifácio por um milagre estupendo abriu os olhos e fixando-os com um doce sorriso, lhes causou interiormente um arrependimento consolador. Depois de haverem satisfeito a sua devoção, perguntaram ao oficial se lhes era permitido levar o corpo. Consentiu nisso mediante a soma de quinhentos soldos de ouro que lhe contaram. Tendo-o embalsamado envolvido em panos preciosos, puseram-no em uma das liteiras, e retomando o caminho de Roma, não cessando de louvar a DEUS por um fim tão ditoso para Bonifácio. Nesse tempo estando Aglaê em oração, ouviu uma voz do céu que lhe disse:

"Aquele que era teu doméstico e agora nosso irmão, recebe-o como teu senhor e dá-lhe um lugar condigno porque é singularmente por sua intercessão que DEUS TE perdoará todos os teus pecados". 

Ergueu-se prontamente transportada de alegria da graça de DEUS, pela misericórdia que usara para com o seu intendente, tendo solicitado de alguns eclesiásticos que a acompanhassem, dirigiu-se ao encontro das santas relíquias, fazendo preces pelo caminho, com círios e perfumes. Teriam andado um quarto de légua quando o corpo de Bonifácio chegou. É indizível a veneração e as lágrimas de alegria com que foi recebido. Como eram terras de Aglaê mandou logo levantar um rico túmulo, e alguém anos depois um magnífico santuário. Tendo inteiramente renunciado ao mundo deu todos os seus bens aos pobres, deu a liberdade aos seus escravos, não retendo ao pé de si senão algumas donzelas que a serviam; levantou um cemitério junto da capela de Bonifácio o santo mártir onde viveu ainda treze anos nos exercícios da mais edificante piedade. Morreu certamente declarando o senhor a santidade de sua serva por muitos milagres.




quinta-feira, 19 de abril de 2018

São Leão IX, Papa


Nascido Brunone di Egisheim-Dagsburg (21 de junho de 1002, Eguisheim, Alsácia – 19 de abril de 1054, Roma), coroado papa em 12 de fevereiro de 1049 sob o nome de Leão IX, foi o 153º papa da Igreja Católica. Foi principalmente um papa viajante, trabalhando pela paz na Europa.

Ele nasceu em Eguisheim, na Alsácia. No entanto, certas pessoas afirmam que ele nasceu em Dabo, outras em Walscheid, ambas na Moselle. Depois de estudar em Toul, tornou-se cônego de Saint-Étienne em 1017 e bispo desta cidade em 1026.

Torna-se papa em 1049. Neste mesmo ano proíbe o casamento de Guilherme I da Inglaterra (conhecido como Guilherme, o Bastardo) e de Matilde de Flandres. Apesar disso, o casamento acaba por ser realizado.

Leão IX foi um reformador, tendo-se inscrito na reforma dita «gregoriana». Convoca durante seu pontificado 12 Concílios.

Suas principais lutas foram contra:
- a taxa eclesiástica (a simonia);
- o casamento bem como a concubinagem dos padres (o nicolaísmo);
- os bispos não deveriam ser príncipes do Império, mas simples teólogos;
- o retorno dos valores do cristianismo primitivo.

De junho de 1053 a março de 1054 ele foi mantido prisioneiro em Benevento, numa prisão honorável; ele não sobreviveu muito tempo após seu retorno a Roma, onde morreu em 19 de abril de 1054. O dia de São Leão é festejado em 19 de abril, dia do aniversário da sua morte. Seu corpo repousa na basílica de São Pedro.

Placa comemorativa no castelo de Eguisheim:

Antes de sua morte, Leão IX enviou um legado papal, o Cardeal Humberto de Silva Candida, a Constantinopla, para negociar com o patriarca de Constantinopla Miguel Cerulário (1043-1059), em resposta a suas ações sobre a Igreja no sul da Itália. Humberto rapidamente parou as negociações, e excomungou e depôs o patriarca em nome do papa. Este ato, embora juridicamente inválido devido à morte do Papa da época, foi respondida pelo próprio Patriarca Miguel com a excomunhão contra o Humberto e seus associados e é popularmente considerado a separação oficial entre as Igrejas orientais e ocidentais no que é chamado de Grande Cisma do Oriente.


Fonte: Escravas de Maria

Obs: Quem souber inglês, eu recomendo que leia Aqui, pois está mais completo.

domingo, 15 de abril de 2018

Santas Anastácia e Basilissa, Mártires


Martirizadas em torno do ano 68 d.C.

A tradição diz que duas nobres romanas, Anastácia e Basilissa, foram convertidas ao Cristianismo pelas pregações dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, dos quais receberam a missão e o privilégio de enterrarem seus corpos, após os dois Apóstolos terem sido martirizados em Roma.

Isto teria enfurecido as autoridades que acabaram descobrindo quem havia enterrado os Apóstolos; elas foram presas e levadas diante do tribunal de Nero para renunciarem a sua fé e confessarem onde tinham enterrado os dois, para seus corpos serem exumados e queimados. Nenhuma das duas confessou o local e tiveram as suas línguas arrancadas, os braços e pés cortados antes de serem finalmente decapitadas.

Os restos mortais das duas gloriosas mártires, segundo o Diário Romano de 1926, ainda hoje são guardados na Igreja de Santa Maria della Pace.

Em edições anteriores o Martyrologium Romanum recordava as Santas Anastásia e Basilissa no dia 15 de abril, mas as últimas reformas reuniram todos os primeiros mártires cristãos de Roma em uma única comemoração no dia 30 de junho.

Na arte litúrgica da Igreja, Anastácia e Basilissa são mostradas com as suas mãos e pés cortados fora. Em outras gravuras são mostradas enterrando os corpos de São Pedro e São Paulo.

Etimologia: Anastácia = do grego Anastasios, “que ressurgiu (pelo Batismo à vida nova)”; Basilissa = do grego, “rainha”.


Texto de Fabio Arduino, do site "Santi e Beati", com modificações de Zeni, do blog Heroínas da Cristandade e revisão feita por este que vos escreve.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

São Sabas, o Godo

  12/04 Quinta-feira
 Festa de Quarta Classe
Paramentos Brancos


São Sabas, o Godo 
Em Romeno: Sava Gotul 
Em Grego: Σάββας ο Γότθος


Morto em 372. A descrição do martírio de São Sabas foi narrada em uma carta logo após sua morte nas mãos do governo dos Gothes ao norte do Danúbio. São Jerônimo conta que o Rei Athanaric iniciou a perseguição aos cristãos em 370. Sabas convertido ao cristianismo desde jovem era padre em Sensala (hoje Targovite na moderna România).

São Sabas era um cristão exemplar com virtudes de obediência e humildade e amava cantar hinos nas igrejas e decorar os altares. Seu desejo por castidade era tão grande que ele até mesmo se refreava em falar com mulheres a menos que fosse absolutamente necessário. Mais que tudo, Sabas amava a verdade. Sabas denunciou a prática de alguns cristãos que pretendiam comer carne oferecida aos deuses pagãos embora na verdade os animais não tinham sido sacrificados aos deuses e era um “falso arranjo” com alguns oficias corruptos. Ele disse que esses cristãos deveriam renunciar a sua fé por esta falsidade. Por isto ele foi forçado em exílio, mas mais tarde foi permitido retornar.

Durante outras perseguições, no ano seguinte, vários cristãos disseram que não havia nenhum cristão entre eles, mas Sabas anunciou em voz alta que era cristão. Com isto foi preso, mas depois solto como um cristão insignificante que não tinha nem roupas nas suas costas e não poderia causar nenhum mau. 

Logo antes da Páscoa de 372 a perseguição retornou com mais fúria. 

Athanarius e suas tropas entraram onde Sabas dormia o prenderam. 

Eles o tiraram da cama sem permitir que se vestisse acabaram de despi-lo e o acoitaram e o arrastaram sobre um solo cheiro de pedras.

Ao nascer do sol ele disse aos seus perseguidores “Você não me arrastaram através de solo duro e cheio de pedras? Veja se meus pés estão feridos ou se os socos que me deram deixaram qualquer impressão no meu corpo”. Seu corpo não tinha nenhuma marca de arranhões ou hematomas. O que deixou seus carrascos furiosos e eles o levaram para um "rack" improvisado em uma casa próxima e o esticaram.

São Sebas recusou a oportunidade de escapar quando a dona da casa o desamarrou a noite. Ele passou o resto da noite ajudando a mulher a preparar os alimentos para a sua família. No dia seguinte foi pendurado pelos dedos em dois madeirames da casa e ofereceram carne de animais que haviam sido sacrificados aos ídolos. Ele recusou . Um dos escravos de Atharidus bateu com a ponta de sua queixada de Javali, no peito de Sabas, com tal força que todos os presentes pensaram que ele havia morrido. Mas ele estava sem nenhum ferimento. Nesta hora Athanridus declarou que Sabas fosse afogado.

Em uma das margens do rio os soldados queriam deixá-lo ir. Ouvindo-os Sabas perguntou por que eles eram tão preguiçosos em obedecer às ordens e continuou: “Eu vejo o que vocês não podem: Eu vejo uma pessoa do outro lado do rio pronto para receber a minha alma, Ele somente espera o momento que ela deixar o meu corpo”.

Em seguida ele foi amarrado a um poste e enfiado de cabeça para baixo no Rio Buzau (Mussovo) até que estivesse morto.Esta morte por madeira e água, disse um dos estudiosos, é exatamente o símbolo da salvação pois é o símbolo do batismo e da cruz!

Depois que ele morreu, eles os retiraram d’água e deixaram sem enterrá-lo, mas cristãos das proximidades protegeram seu corpo dos animais e aves predadoras.

Jonius Soranus , duque de Scythia, um homem temente a Deus enviou o corpo para a Cappadócia, com uma carta enviada com as relíquias para a igreja da Cappadocia governada por São Basil, narrando o martírio de São Sabas.

Na arte litúrgica da Igreja Sabas é mostrado suspenso pelos dedos em uma figueira ou sendo atirado no rio. Ele é muito venerado na Romênia.


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

São João da Cruz, Confessor e Doutor


São João da Cruz e a sublimidade do sofrimento


 24/11 Sexta-feira
Festa de Terceira Classe
Paramentos Brancos

A Providência Divina confirmou em graça e amoldou perfeitamente à Cruz de Cristo um religioso escolhido para secundar Santa Teresa de Jesus na extraordinária obra da Reforma do Carmelo

por Plinio Maria Solimeo


Certo dia, a imagem de Cristo Padecente perguntou a Frei João da Cruz o que ele desejava em paga do seu amor puro e exclusivo a Deus.

– “Padecer, Senhor, e ser desprezado por causa de Vós”, respondeu generosamente o heróico carmelita, esteio da reforma carmelitana empreendida por Santa Teresa.

Em sua boca, esse dito não era figura de retórica, mas exprimia o élan generoso de sua alma de fogo.

É conveniente analisar o ambiente familiar em que nasceu um dos maiores místicos da História da Igreja, Doutor da Igreja, cujas obras espirituais constituem um tesouro inapreciável.

A família do Santo

Gonzalo de Yepes era de ilustre família, com brasão e antepassados notáveis nas armas e na ciência, pertencente à aristocracia da antiga capital espanhola, Toledo. Órfão, criado por um tio eclesiástico, trabalhava na administração e contadoria com outros dois tios, mercadores de seda.

Ora, Gonzalo enamorou-se de Catarina Alvares, jovem e bela tecelã, órfã como ele, mas de origem humilde. Com ela casou-se, apesar da oposição dos tios. Foi repudiado por eles e posto fora de casa.

Justamente aqueles anos foram tão estéreis, que em Castela “não se acha pão por nenhum dinheiro”[1]. Não conseguindo encontrar trabalho no seu ramo, Gonzalo viu-se obrigado a aprender com a esposa a profissão de tecelão, para sustentar o novo lar.

Os filhos começaram a chegar: Francisco, Luís, João... Este último, o nosso santo, mal conheceu o pai, pois Gonzalo, depois de dolorosa enfermidade, faleceu deixando mulher e filhos na miséria.  Luís, fraco e mal nutrido, logo seguiu o pai no sepulcro.

Catarina viu-se obrigada a mudar-se para localidade maior a fim de procurar ganhar o sustento dos seus. Francisco, o mais velho, já adolescente, aprendeu o ofício da mãe para auxiliá-la.

Em Medina del Campo tiveram que separar-se do caçula, João, recebido  no Colégio da Doutrina, espécie de orfanato que, a par da manutenção física, dava a seus assistidos formação religiosa e escolar.

Na infância, milagres revelam proteção divina

Do período de infância de João de Yepes narram-se três fatos miraculosos.

Quando o pequeno tinha por volta de seis anos, brincava com outros meninos de sua idade enfiando uma varinha numa lagoa. Em determinado momento, perdeu o equilíbrio e caiu na água. Foi para o fundo, depois flutuou. Nesse momento viu Nossa Senhora, que lhe estendia sua puríssima e alva mão. O pequeno João, considerando aquela mão tão pura da Mãe de Deus, julgou-se indigno de tocá-la. E encolheu a sua. Surgiu então em cena um lavrador, que o “pescou” da água.

Outro fato se deu quando a família se trasladava para Medina. À entrada da cidade, saiu de um charco um enorme  monstro, pronto a devorar o menino. Este fez o sinal da Cruz e o monstro desapareceu nas águas.

O terceiro fato ocorreu quando João, coroinha no convento da Madalena, brincava no pátio com outros meninos. Estando perto de um fundo poço, um amigo estabanado deu-lhe um encontrão, e Joãozinho nele caiu. Quando todos pensavam que se afogara, viram-no flutuando à flor d’água. Ele mesmo pediu uma corda que atou à cintura, sendo assim resgatado. O menino afirmou aos espantados circunstantes que Nossa Senhora o sustentara sobre a água.

Do convento das monjas, João, então já adolescente, trasladou-se para o Hospital da Conceição, onde teria três ocupações: a de ajudante de enfermeiro, de coletor de esmolas para a instituição, e nas horas livres, de estudante no Colégio da Companhia de Jesus.

Seu benfeitor no hospital queria que ele se  ordenasse e ficasse capelão da instituição. Mas João de Yepes tinha outra idéia. Apenas terminou seu curso no colégio aos 21 anos, dirigiu-se furtivamente ao Convento carmelitano da cidade, onde pediu admissão com o nome de João de São Matias. Para terminar seu estudo de teologia, os superiores o enviaram para Salamanca.

Em vida, confirmado em graça

Formado desde o berço na escola da pobreza e do sofrimento, Frei João de São Matias estava preparado para receber a maior graça de sua vida. Ordenado sacerdote, voltou a Medina del Campo para cantar a primeira Missa, preparando-se para ela por meio de jejum e mortificação. Quando a celebrava com um fervor seráfico, pediu “a Sua Majestade lhe concedesse  não cometer pecado mortal algum com que A ofendesse, e de padecer nesta vida em penitência de todos os pecados que, como homem fraco, pudesse cometer se Sua Divina Majestade não o sustentasse em suas mãos”.

Anos depois, estando uma virtuosa freira esperando que Frei Matias terminasse de atender outra pessoa para tratar com ele negócios de sua alma, recolhendo-se em oração, “manifestou-lhe o Senhor a grande santidade do santo padre Frei João; e lhe revelou que, quando [o mesmo] disse a primeira Missa, lhe havia restituído a inocência e posto no estado de um menino de dois anos, sem duplicidade nem malícia, confirmando-o em graça como os Apóstolos para que não pecasse e  jamais O ofendesse gravemente”[2]

Isso explica o imponderável de candura e pureza que emanava de São João da Cruz, como depuseram depois em seu processo de canonização inúmeras testemunhas.

Dois grandes Santos e uma grande obra

Quadro que representa a verdadeira
fisionomia de Santa Teresa Ávila.
Anônimo séc. XVII
Real Academia de la Lengua - Madri
Foi precisamente logo depois dessa graça que ele teve o encontro providencial com Santa Teresa. Estava ela em Medina, onde acabara de fundar um convento reformado de freiras, quando ouviu falar dele. Logo pensou que poderia dar origem ao ramo masculino de sua reforma, e suplicou a Deus que lhe concedesse essa graça. No dia seguinte, Frei João explicou a Teresa que queria fazer-se cartuxo – os cartuxos têm uma regra muito severa -- para melhor levar uma vida de contemplação e penitência. Quando a Madre lhe explicou a idéia do Carmelo com a primitiva regra, ele ficou encantado em secundar Madre Teresa na obra.

Desse modo João de São Matias tornou-se João da Cruz – nome pelo qual se tornaria mundialmente conhecido –,  tendo sido o primeiro frade a receber o hábito da Reforma carmelitana e o grande apoio de Santa Teresa para a consolidação dessa empresa.

Quando a grande Fundadora foi enviada como priora ao seu antigo convento da Encarnação, quis ser auxiliada por Frei João da Cruz como confessor das monjas.

Mérito e  valor do espírito de Cruz

Foi lá que ele se tornou a principal vítima da verdadeira batalha que houve então entre carmelitas Calçados e os Descalços sobre a reforma. Preso pelos Calçados na prisão do convento de Toledo em cela fria e sem janelas, inteiramente incomunicável, jejuando a pão e água e sendo flagelado por eles regular e cruelmente várias vezes por semana durante nove meses, mais tarde ele poderia afirmar: “Não vos espanteis se eu mostro tanto amor pelo sofrimento; Deus deu-me uma alta idéia de seu mérito e valor quando eu estava na prisão de Toledo”[3].

Em contrapartida, nesse forçado isolamento recebeu insignes favores divinos, compondo ali alguns dos seus mais notáveis poemas.

Depois de uma fuga dramática -- no decorrer da qual teve que pular o alto muro do convento-prisão -- ocupar-se-á ele da formação de noviços, direção de professos, e atendimento espiritual de frades e religiosas. Mas sempre ocupando, no governo da Ordem, postos secundários, principalmente depois de 1582, quando morreu a grande Santa Teresa.

Os Bollandistas[4] sintetizam assim suas virtudes: “A vista apenas de um crucifixo era suficiente para provocar-lhe êxtases de amor e de o fazer cair em lágrimas. A Paixão do Senhor era o objeto ordinário de suas meditações, e ele recomenda fortemente essa prática em seus escritos. .... Afirmava ser a confiança em Deus o patrimônio dos pobres, e sobretudo dos religiosos. O fogo do amor divino fazia de tal maneira arder seu coração, que suas palavras inflamavam aqueles que o ouviam. .... Seu amor a Deus se manifestava em certas ocasiões por traços de luz que brilhavam em sua face. .... Seu coração era como uma imensa fornalha de amor que ele não podia conter em si mesmo e que brilhava para fora por sinais exteriores dos quais ele não era senhor. Não se admirava nele menos seu amor pelo próximo, sobretudo os pobres, os doentes e os pecadores. ... O profundo sentimento pela religião do qual ele estava penetrado inspirava-lhe um respeito extremo por tudo quando pertencia ao culto divino. Pelo mesmo motivo, ele procurava santificar todas suas ações”[5].

Devido a sua pouca altura (não chegava a 1,60 m) e pelas suas poucas mas sempre judiciosas palavras, Santa Teresa o chamava afetuosamente de “mi Senequita”, pois que ele lhe fazia lembrar aquele filósofo da Antigüidade, seu conterrâneo. A ele se referia também como o “santico de Frei João”, cujos “ossinhos farão milagres”, pois era “celestial e divino”, e que “não encontrei outro em toda a Castela como ele, nem que tanto afervore no caminho do céu”[6].

Para morrer, coloca-se nas mãos de um de seus piores inimigos

No capítulo dos Descalços de 1591 -- apesar de ter sido o primeiro padre da reforma teresiana -- Frei João viu-se privado de todos os cargos que tinha na Ordem e reduzido a simples religioso. Um dos novos eleitos prometeu mesmo persegui-lo até vê-lo expulso da Ordem. “Frei João está experimentando nestes momentos uma verdadeira e obstinada perseguição. O padre Diego Evangelista (seu pior opositor) não está ainda satisfeito vendo o padre João da Cruz sem ofício algum. Busca avaramente sua humilhação”[7]. E, para isso, começou uma campanha de calúnias contra o Santo.

Frei João pediu para retirar-se a um convento isolado, perto da Serra Morena, onde era tratado com consideração e respeito. Por isso, quando os sintomas de sua última doença surgiram e o superior pediu-lhe que escolhesse um convento com mais recursos para tratar-se, escolheu o de Ubeda, dirigido por um de seus mais acerbos inimigos, para poder sofrer até o fim.

Este, apesar do estado do Santo ir piorando, colocou-o numa cela isolada, proibindo toda visita.

Surgiram-lhe tumores numa perna, que foram intoxicando todo o corpo. O cirurgião teve que fazer, a sangue frio, uma incisão de alto a baixo nessa perna, para tirar a matéria purulenta. Cada curativo arrancava-lhe pedaços de carne com a matéria pútrida. No entanto o enfermo, meditando nos padecimentos da Paixão, sofria tudo como se se tratasse do corpo de um outro. O médico, admirado com tanta santidade, guardava as gazes cheias de pus e sangue, mas que desprendiam suave odor, para aplicá-las em outros doentes, obtendo assim vários milagres.

O prior, no entanto, mostrava-se inflexível, não dando ao enfermo nem o necessário. Foi preciso que os religiosos mendigassem nas ruas alimentos e medicamentos para o doente. Chegando o Provincial, repreendeu o prior por sua dureza de coração. E este reconheceu sua falta, mudando de tratamento. Mas o Santo já estava no fim, e tinha bebido tudo quanto podia do cálice de sofrimentos e humilhações. Entrou em agonia no dia 13 de dezembro, falecendo pouco depois da meia-noite.

O Papa Clemente X o beatificou em 1675, Bento XIII o canonizou em 27 de dezembro de 1726, e Pio XI o declarou Doutor da Igreja Universal no princípio deste século.

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Notas:
1 – Frei Crisógono de Jesús, Vida de San Juan de la Cruz, B.A.C., Madri, 1982, 11ª edição.
2 – Id. ib., p. 71, nota 19.
3 – Les Petits Bollandistes, d’après le Père Giry, par Mgr Paulo Guérin, Bloud et Barral, Libraires-Éditeurs, Paris, 1882, Tomo XIII, p. 580.
4 – Sociedade científica formada por um grupo restrito de sacerdotes jesuítas belgas que se dedicam há três séculos a pesquisar a vida dos Santos, sobretudo em suas fontes originais, e que tomam seu nome do seu fundador, Jean Bolland. É das fontes mais abalizadas da hagiografia.
5 – Op. Cit, tomo XIII, p. 581.
6 – Pe. José Leite, S. J.,  Santos de Cada Dia, Editorial A. O. , Braga, p. 441.
7 – frei Crisógono de Jesús, op. Cit., p. 371.



Publicado na Revista Catolicismo em Dezembro de 1999

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

São Clemente I, Papa e Mártir

Martírio do Papa Clemente I, pintura de Bernardino Fungai


São Clemente I Papa Igreja (89-97), também conhecido como Clemente Romano (em latim, Clemens Romanus), nascido em Roma, nos arredores do Coliseu, de família hebraica, foi um dos primeiros a receber o batismo de São Pedro. Autor da carta endereçada à Igreja de Corinto pela Igreja de Roma uns do primeiro documento de literatura cristã, e que chegou até nós; sua carta importantíssima para os reconciliar na paz, renovar a sua fé e anunciar a tradição, que há pouco tempo tinha recebido dos Apóstolos". Portanto, poderíamos dizer que esta carta constitui o primeiro exercício do Primado romano depois da morte de São Pedro.Carta a Igreja de Corinto, contra as prática cometidas no templo de Artemis, que se havia tornado um centro de degradação moral. Essa carta rezava uma convincente censura à decadência desta Igreja, devida sobretudo afastamento da Tradição, às lutas e invejas entre os fiéis, estabelecia normas precisas referentes à ordem eclesiástica hierárquica (bispos, presbíteros, diáconos) e ao primado da Igreja de Roma. Afirmava também a superioridade do Pontífice Romano, sucessor de São Pedro, com relação às outras Sés apostólicas.No seu pontificado ocorreu a segunda perseguição aos cristãos e ele foi preso no reinado de Trajano (Marcus Ulpius Nerva Traianus). Condenado a trabalhos forçados nas minas de cobre de Galípoli, converteu muitos presos e por isso foi atirado ao mar com uma pedra amarrada ao pescoço, tornando-se mais um mártir dos princípios da Cristandade. Papa de número 4, morreu em Galípoli, e foi sucedido por Santo Evaristo (98-107).

O Papa São Clemente I escreveu três cartas aos Coríntios. Segue abaixo alguns trechos finais da Terceira Carta:

JUSTIFICAÇÃO E JUÍZO FINAL

XV. Quem salva e quem é salvo Pois bem: não creio que haja dado nenhum conselho depreciado a respeito da continência; não me arrependo do que escrevi, pois quis salvar a outro e a mim, seu conselheiro. Porque é uma grande recompensa aconselhar uma alma extraviada, próxima do perecimento, para que possa ser salva. Esta é a recompensa que podemos dar a Deus, que nos criou, se o que fala e escuta, por sua vez, fala e escuta com fé e amor. Portanto, permaneçamos nas coisas que cremos, na justiça e santidade, para que possamos, com confiança, pedir a Deus que diz: "Quando ainda estás falando, eis que estou aqui contigo", porque estas palavras são a garantia de uma grande promessa, pois o Senhor diz de si mesmo que está mais disposto a dar do que pedir. Percebendo, pois,que somos participantes de uma bondade tão grande, não andemos remisso s em obter tantas coisas boas, porque, assim como é grande o prazer que proporcionam estas palavras aos que as escutam, assim será também a condenação que acarretam sobre si mesmos aqueles que as desobedecem.

XVI. Preparação para o dia do julgamento Portanto, irmãos, sendo assim que a oportunidade que temos para o arrependimento não tem sido pequena, já que tivemos tempo para ela, voltemo-nos para Deus, que nos chamou, enquanto temos Alguém para nos receber. Porque, se nos desprendermos destes gozos e vencer a nossa alma, recusando as concupiscências, seremos partícipes da misericórdia de Jesus. Sabeis que o dia do juízo vem chegando, "como um forno aceso, os poderes dos céus se dissolveram", e toda a terra se derreterá como o chumbo levado ao fogo, e então se descobrirá os segredos das obras ocultas dos homens. A esmola é coisa boa para se arrepender do pecado; o jejum é melhor que a oração, mas a esmola é melhor que estes dois. O amor cobrirá uma multidão de pecados, porém a oração feita em boa consciência livrará da morte. Bem- aventurado o homem que tiver abundância destas coisas, porque a esmola quitará o peso do pecado.

XVII. Arrependamo-nos, pois, de todo coração, para que nenhum de nós pereça durante o caminho, pois se recebemos um mandamento de que devemos também nos ocupar disto, afastando os homens de seus ídolos e instruí-los, como é péssimo que uma alma que conhece a Deus venha a perecer! Assim, ajudemo-nos uns aos outros, de modo que possamos guiar o débil até o alto, abraçando o que for bom, a fim de que todos possam ser salvos; e convertamo-nos e admoestamo-nos uns aos outros. E não pensemos em atentar e crer somente agora, quando estamos sendo admoestados pelos presbíteros, mas também quando partirmos para as nossas casas, recordemos os mandamentos do Senhor e não permitamos ser arrastados para outro caminho por nossos desejos mundanos. Assim mesmo, venhamos aqui com mais frequência e esforcemo-nos em progredir nos mandamentos do Senhor, para que, unânimes, possamos ser reunidos para a vida, pois o Senhor disse: "Venho para reunir todas as nações, tribos e línguas". Ao dizer isto, fala do dia da sua aparição, quando vier nos redimir, a cada segundo as suas obras. E os não crentes verão a Sua glória e o Seu poder, e cairão assombrados ao ver o reino do mundo ser entregue a Jesus; então dirão: "Ai de nós, porque Tu eras e nós não te conhecíamos e não críamos em Ti; e não obedecemos aos presbíteros quando nos falaram da nossa salvação". E "os vermes não morrerão e seu fogo não se apagará, e servirão de exemplo para toda a carne". Está dito do dia do juízo, que os homens verão aqueles que, entre vós, viveram vidas ímpias e tiveram obras falsas quanto a os mandamentos de Jesus Cristo. Porém, os justos, tendo boas obras e sofrido tormentos, bem como aborrecido os prazeres da alma, quando contemplarem aos que têm obras más e negaram a Jesus com suas palavras e sofrido tormentos, bem como aborrecido os prazeres da alma, quando contemplarem aos que têm obras más e negaram a Jesus com suas palavras e atos, sendo castigados com penosos tormentos e um fogo inextinguível, darão glória a Deus, dizendo: "Há esperança para Aquele que serviu a Deus de todo coração". "Combati o bom combate, terminei a corrida, mantive a fé." (II. Tim. 4,7).


Fonte: Escravas de Maria

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Funeral do Papa Pio XII


Pio XII, (em italiano: Pio XII, em latim: Pius PP. XII); O.P., nascido Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli; (Roma, 2 de março de 1876 — Castelgandolfo, 9 de outubro de 1958) foi eleito Papa no dia 2 de março de 1939 até a data da sua morte. 

Funeral do Papa Pio XII

"Um lugar no paraíso"



"Um lugar no paraíso" ( Der veruntreute Himmel ) é um filme de 1958, dirigido por Ernst Marischka. O enredo é a história dramática de uma idosa, que, ansiosa para garantir a salvação eterna, faz seu neto ser sacerdote; mas ele a engana desperdiçando dinheiro com o que não devia. Descobrindo a verdade, ela parte, infeliz, para Roma, onde tem sorte de morrer logo depois de ver o Papa e receber sua benção.

No filme - com o elenco de Viktor De Kowa, Vilma Degischer, Hans Holt e Annie Rosar - "de alguma forma participa" Pio XII. As imagens da bênção do Papa, de fato, são imagens autênticas de uma verdadeira audiência na Basílica de São Pedro para as férias da Páscoa. Como se lê nos créditos do título do longa-metragem, foi o Papa quem autorizou o uso dessas imagens, bem como outras imagens dentro dos Palácios Apostólicos.

É uma verdadeira "pérola", embutida em um filme talvez esquecido, mas certamente interessante. As imagens em cores mostram um Pio XII em perfeita forma, embora já seja antigo - que visivelmente ama o contato com as pessoas, de modo a parar a sedia gestatoria para cumprimentar e abençoar uma criança. Incrivelmente sereno é também o sorriso do Papa, nunca menos, e sempre mantendo a sua ternura e confiança na paternidade.

Estamos confiantes de que esses poucos minutos de vídeo podem efetivamente contribuir para entregar ao espectador a imagem real de Eugenio Pacelli, às vezes traído por narrativas oficiais e retratos de festa. Estamos felizes em anunciá-lo, no aniversário da morte do Papa. A paternidade que seu sorriso infunde nessas imagens não deixará de aumentar a confiança em sua oração por nós do céu.




Fonte: Papa Pio XII - Sito ufficiale della Causa di Canonizzazione

São Giovanni Leonardi, Confessor

09/10 Segunda-feira
Festa de Terceira Classe
Paramentos Brancos
Bottega Lucchese, S. Giovanni Leonardi, XVIII-XIX sec., museo diocesano, Lucca

São Giovanni Leonardi (São João Leonardo), nasceu em Diecimo, perto de Lucca, Itália, no ano de 1541, foi o sétimo filho de Tiago e Joana Lippi. Ainda muito jovem, Giovanni Leonardi do mandado a Lucca para aprender a arte de farmacêutico. Aos vinte e seis anos deixou a farmácia, e sob a guia de Bernardini, empreendeu os estudos eclesiásticos e na Epifania de 1571 pôde celebrar a primeira Santa Missa. Na Igreja de São Giovanni della Magione, que lhe foi confiada pelo bispo, realizou a sua grande aspiração, fundando uma escola para o ensino da doutrina cristã.

Viveu dez anos num providencial exílio romano. Aí teve a oportunidade de estreitar amizade com São Filipe Néri, com o douto cardeal Barônio e com São José Calasans, e de fazer-se apreciar pelo Papa, que lhe confiou várias missões delicadas. Esteve em Nola, em Nápoles, em Montevergine, onde era necessária a mediação de homem sábio e caridoso para levar aos antigos mosteiros a disciplina e o primitivo espirito religioso.

Em 1574 fundou a Ordem dos Clérigos Regulares da Mãe de Deus. Reuniu em torno de sia um grupo de sacerdotes dedicados à propagação da fé no meio dos não crentes confirmação pelo Papa Gregório XIII. Homem de Deus, e por todos como tal era havido, Giovanni Leonardi era consultado por muitos bispos, em negócios intrincados; o próprio Papa nomeou-o seu delegado em missões difíceis, e para reformar famílias religiosas. A São José Calazans prestou enormes serviços na conservação da Congregação que se achava no ponto de se dissolver. Também no hospital do Espírito Santo em Saxônia e às Religiosas oblatas de Santa Francisca Romana prestou grande auxílio.. Por este motivo é tido como o inspirador da Propaganda Fidei, ou Obra da Propaganda da Fé, atuante até nossos dias no âmbito da Santa Sé. Em 1614 a Ordem recebeu a denominação definitiva de Clérigos Regulares da Mãe de Deus, com sede junto à Igreja de Santa Maria da Rosa. O grande apóstolo do século da Reforma pagou com muitas tribulações a coragem de pregar e de sustentar, de todos os modos, a necessidade de volta à genuína prática do Evangelho, numa epóca de decadência geral dos costumes. Ao lado de São Filipe Néri, São José de Calesanz, São Camilo de Léllis, São Giovanni Leonardi é uma das figuras marcantes da nossa Igreja do século XVI.

Restos mortais de São João Leonardo, na Chiesa di Santa Maria in Portico in Campitelli

São Giovanni Leonardi morreu no dia 08 de Outubro de 1609, em Roma. Foi beatificado pelo Papa Pio IX no ano de 1861, tendo a solene canonização pelo Papa Pio XI, no dia da Páscoa, aos 17 de Abril do ano de 1938.


Leitura da Epístola

II Coríntios 4, 1-6 e 15       

1.Por isso não desanimamos deste ministério que nos foi conferido por misericórdia. 2.Afastamos de nós todo procedimento fingido e vergonhoso. Não andamos com astúcia, nem falsificamos a palavra de Deus. Pela manifestação da verdade nós nos recomendamos à consciência de todos os homens, diante de Deus.3.Se o nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem,4.para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a luz do Evangelho, onde resplandece a glória de Cristo, que é a imagem de Deus.5.De fato, não nos pregamos, a nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor. Quanto a nós, consideramo-nos servos vossos por amor de Jesus.6.Porque Deus que disse: Das trevas brilhe a luz, é também aquele que fez brilhar a sua luz em nossos corações, para que irradiássemos o conhecimento do esplendor de Deus, que se reflete na face de Cristo. 15.E tudo isso se faz por vossa causa, para que a graça se torne copiosa entre muitos e redunde o sentimento de gratidão, para glória de Deus.16.É por isso que não desfalecemos. Ainda que exteriormente se desconjunte nosso homem exterior, nosso interior renova-se de dia para dia.17.    A nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória incomensurável. Porque não miramos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem . Pois as coisas que se vêem são temporais e as que não se vêem são eternas.

Sequência do Santo Evangelho

São Lucas 10, 1-9                                                          

1.Depois disso, designou o Senhor ainda setenta e dois outros discípulos e mandou-os, dois a dois, adiante de si, por todas as cidades e lugares para onde ele tinha de ir.2.Disse-lhes: Grande é a messe, mas poucos são os operários. Rogai ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe.3.Ide; eis que vos envio como cordeiros entre lobos.4.Não leveis bolsa nem mochila, nem calçado e a ninguém saudeis pelo caminho.5.    Em toda casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa!6.Se ali houver algum homem pacífico, repousará sobre ele a vossa paz; mas, se não houver, ela tornará para vós.7.Permanecei na mesma casa, comei e bebei do que eles tiverem, pois o operário é digno do seu salário. Não andeis de casa em casa.8.Em qualquer cidade em que entrardes e vos receberem, comei o que se vos servir. 9.Curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: O Reino de Deus está próximo.



Fonte: Escravas de Maria
Ilustração I: Retirado do site Scuola Ecclesia Mater
Ilustração II: Wikipédia